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Heinrich Bullinger
Elaborada em 1562
por Heinrich Bullinger, publicada em 1566 por Frederico III da
Palatina, adotada pelas Igrejas Reformadas da Suíça, França, Escócia,
Hungria, Polônia e outras.
1. Da Sagrada Escritura como a verdadeira Palavra de Deus
Escritura
Canônica. Cremos e confessamos que as Escrituras Canônicas
dos santos profetas e apóstolos de ambos os Testamentos são a
verdadeira Palavra de Deus, e têm suficiente autoridade de si mesmas
e não dos homens. O próprio Deus falou aos patriarcas, aos profetas
e aos apóstolos, e ainda nos fala a nós pelas Santas Escrituras.
E nesta Escritura
Sagrada a Igreja Universal de Cristo tem a mais completa exposição
de tudo o que se refere à fé salvadora e à norma de uma vida
aceitável a Deus; e a esse respeito é expressamente ordenado por
Deus que a ela nada se acrescente ou dela nada se retire.
A Escritura ensina plenamente toda a
piedade. Julgamos, portanto, que destas Escrituras devem
derivar-se a verdadeira sabedoria e piedade, a reforma e o governo
das igrejas, também a instrução em todos os deveres da piedade;
enfim, a confirmação de doutrinas e a refutação de todos os erros,
assim como todas as exortações segundo a palavra do apóstolo: ‘Toda
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a
repreensão”, etc. (II Tim 3.16-17). E ainda: “Escrevo-te estas
cousas”, diz o apóstolo a Timóteo, “para que fiques ciente de como
se deve proceder na casa de Deus”, etc. (I Tim 3.14-15).
A Escritura é
a Palavra de Deus. O mesmo apóstolo diz aos
tessalonissenses: “Tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes,
que é de Deus, acolhestes, não como palavra de homens, e, sim, como,
em verdade é, a palavra de Deus”, etc. (I Tes 2.13). E o Senhor
disse no Evangelho: “Não sois vós os que falais, mas o Espírito de
vosso Pai é quem fala em vós” (Mat 10.20); portanto, “quem vos der
ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita;
quem, porém, me rejeitar, rejeita aquele que me enviou”, (Mat 10.40;
Luc 10.16; João 13.20).
A pregação da
Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Portanto, quando esta
Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por pregadores
legitimamente chamados, cremos que a própria Palavra de Deus é
anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de
Deus pode ser inventada, ou esperada do céu: e que a própria Palavra
anunciada é que deve ser levada em conta e não o ministro que a
anuncia, pois, mesmo que este seja mau e pecador, contudo a Palavra
de Deus permanece boa e verdadeira.
Nem pensamos que a
pregação exterior deve ser considerada infrutífera pelo fato de a
instrução na verdadeira religião depender da iluminação interior do
Espírito; porque está escrito: “Não ensinará jamais cada um ao seu
próximo... porque todos me conhecerão” (Jer 31.34), e “nem o que
planta é alguma cousa, nem o que rega, mas Deus que dá o
crescimento”, (I Cor 3.7). Pois, ainda que ninguém possa vir a
Cristo, se não for levado pelo Pai (cf. João 6.44), se não for
interiormente iluminado pelo Espírito Santo, sabemos contudo que é
da vontade de Deus que sua palavra seja pregada também externamente.
Deus poderia, na verdade, pelo seu Santo Espírito, ou diretamente
pelo ministério do anjo, sem o ministério de São Pedro, ter ensinado
a Cornélio (cf. At 10.1 ss); não obstante, ele o envia a São Pedro,
a respeito de quem o anjo diz: “Ele te dirá o que deves fazer” (cf.
At 11.14).
A iluminação
interior não elimina a pregação exterior. Aquele que ilumina
interiormente dando aos homens o Espírito Santo é o mesmo que deu
aos discípulos este mandamento: “Ide por todo o mundo e pregai o
Evangelho a toda criatura” (Mc 16.5). E assim, em Filipos, São Paulo
pregou a Palavra externamente a Lídia, vendedora de púrpura; mas o
Senhor, internamente, abriu o coração da mulher (At 16.14). E o
mesmo São Paulo, numa bela gradação, em Rom 10.17, chega, afinal, a
esta conclusão: “E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela
palavra de Cristo”.
Reconhecemos,
entretanto, que Deus pode iluminar quem ele quiser e quando quiser,
mesmo sem ministério externo, pois isso está em seu poder; mas aqui
falamos da maneira usual de instruir os homens, que nos foi
comunicado por Deus, tanto por mandamento como pelo exemplo.
Heresias.
Detestamos, portanto, todas as heresias de Artêmon, dos maniqueus,
dos valentinianos, de Cerdon e dos marcionitas, os quais negaram que
as Escrituras procediam do Espírito Santo; ou não aceitaram algumas
partes delas, ou as interpelaram e corromperam.
Apócrifos.
Contudo, não dissimulamos o fato de que certos livros do Velho
Testamento foram chamados Apócrifos pelos antigos autores, e
Eclesiásticos por outros, porquanto alguns admitiam que fossem lidos
nas igrejas, não, porém, invocados para confirmar a autoridade da
fé. Assim também Santo Agostinho, em sua De Civitate Dei,
livro 18, cap. 38, observa que “nos livros dos Reis, nomes e livros
de certos profetas são citados”; mas acrescenta que “eles não se
encontram no Cânon”; e que “os livros que temos são suficientes para
a piedade”.
2. Da interpretação das Escrituras Sagradas;
e dos santos padres, dos concílios e das tradições
A verdadeira
interpretação da Escritura. O Apóstolo São Pedro disse que
as Escrituras Sagradas não são de interpretação particular (II Ped
1.20). Assim não aprovamos quaisquer interpretações; pelo que nem
reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das
Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana,
isto é, a que os defensores da Igreja Romana claramente sustentam
que deve ser imposta à aceitação de todos. Mas reconhecemos como
ortodoxa e genuína a interpretação da Escritura que é retirada das
próprias Escrituras segundo o gênio da língua em que elas foram
escritas, segundo as circunstâncias em que foram registradas, e pela
comparação de muitíssimas passagens semelhantes e diferentes, e que
concorda com a regra de fé e amor, e mais contribui para a glória e
a salvação dos homens.
Interpretação
dos santos padres. Por isso, não desprezamos as
interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as
suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre
que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos
deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou
contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça
nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram
igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam
verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam,
aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em
desacordo.
Concílios.
Nessa mesma ordem colocam-se também as definições e cânones dos
concílios.
Por esse motivo,
nas controvérsias religiosas não aceitamos como imposição as simples
opiniões dos Santos Padres ou os decretos dos concílios; muito
menos, os costumes herdados ou, até, o fato de ser uma opinião
partilhada por uma multidão ou consagrada por um longo tempo. Quem é
o juiz? Portanto, em questão de fé, não admitimos juiz algum, a não
ser o próprio Deus, que, pelas Santas Escrituras, proclama o que é
verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido ou o que deve ser
evitado. Assim, apoiamo-nos exclusivamente nos julgamentos de homens
espirituais, por eles tomados à Palavra de Deus. Jeremias e outros
profetas condenaram severamente os concílios de sacerdotes
estabelecidos contra a lei de Deus; e nos advertiram diligentemente
que não ouvíssemos os nossos pais, nem trilhássemos os seus
caminhos, porque eles, andando segundo suas próprias invenções se
desviaram da lei de Deus.
Tradições de
homens. Rejeitamos, igualmente, as tradições humanas, mesmo
que venham adornadas de títulos atraentes, como se fossem divinas e
apostólicas, entregues à Igreja de viva voz pelos apóstolos e, como
pelas mãos de varões apostólicos, aos bispos que os sucederam, as
quais, quando comparadas com as Escrituras delas discrepam, e por
essa discrepância revelam que, de modo nenhum, são apostólicas. Como
os apóstolos não se contradisseram entre si quanto à doutrina, assim
os varões apostólicos não ensinaram nada contrário aos apóstolos. Ao
contrário, seria ímpio afirmar que os apóstolos, de viva voz,
tivessem ensinado coisas contrárias aos seus escritos. São Paulo
afirma claramente que ele ensinava as mesmas coisas em todas as
igrejas (I Co 4.17). E mais: “Porque nenhuma outra cousa vos
escrevemos, além das que ledes e bem compreendeis” (II Co 1.13).
Também, em outra passagem, testifica que ele e seus discípulos - a
saber, os varões apostólicos - andavam do mesmo modo e, ligados pelo
mesmo Espírito, faziam todas as coisas (II Co 12.18). Os judeus
também tiveram, no passado, as tradições dos seus anciãos, mas essas
tradições foram severamente repetidas pelo Senhor, que mostrou que a
sua observância põe entraves à lei de Deus, e que por meio delas
Deus é em vão adorado (Mat. 15.1 ss; Mc 7.1 ss)
3.
De Deus, sua unidade e trindade
Deus é uno.
Cremos e ensinamos que Deus é um em essência ou natureza,
subsistindo por si mesmo, todo suficiente em si mesmo, invisível,
incorpóreo, imenso, eterno, criador de todas as coisas, visíveis e
invisíveis, o supremo-bem, vivo, vivificador e preservador de todas
as coisas, onipotente e supremamente sábio, clemente ou
misericordioso, justo e verdadeiro. Abominamos a pluralidade de
deuses, porque está claramente escrito: “O Senhor nosso Deus é o
único Senhor” (Deut 6.4). “Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás
outros deuses diante de mim” (Êx 20.2-3). “Eu sou o Senhor, e não há
outro; além de mim não há Deus. Deus justo e Salvador não há além de
mim” (Is 45.5.21). “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e
longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34.6).
Deus é trino.
Entretanto, cremos e ensinamos que o mesmo Deus imenso, uno e
indiviso é inseparavelmente e sem confusão, distinto em pessoas -
Pai, Filho e Espírito Santo - e, assim como o Pai gerou o Filho
desde a eternidade, o Filho foi gerado por inefável geração, e o
Espírito Santo verdadeiramente procede de um e outro, desde a
eternidade e deve ser com ambos adorado.
Assim, não há três
deuses, mas três pessoas, consubstanciais, co-eternas e co-iguais,
distintas quanto às hipóstases e quanto à ordem, tendo uma
precedência sobre a outra, mas sem qualquer desigualdade. Segundo a
natureza ou essência, acham-se tão unidas que são um Deus, e a
essência divina é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
A Escritura
ensina-nos manifesta distinção de pessoas, quando o anjo diz, entre
outras coisas, à bem-aventurada Virgem; “Descerá sobre ti o Espírito
Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso
também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus”
(Luc 1.35). E, igualmente, no batismo de Cristo, ouve-se uma voz do
céu a seu respeito, dizendo: “Este é o meu Filho amado” (Mat 3.17).
O Espírito Santo também apareceu em forma de pomba (João 1.32). E,
quando o Senhor mesmo mandou os apóstolos batizar, mandou-os batizar
“em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mat 28.19). Em
outra parte do Evangelho, diz ele: “O Espírito Santo, a quem o Pai
enviará em meu nome” (João 14.26). E noutro lugar: “Quando, porém,
vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito
da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim”, etc.
(João 15.26). Em resumo, recebemos o Credo dos Apóstolos, porque ele
nos comunica a verdadeira fé.
Heresias.
Portanto, condenamos judeus e maometanos, e todos quantos blasfemam
da Trindade santa e digna de adoração. Condenamos, também, todas as
heresias e os heréticos que ensinam que o Filho e o Espírito Santo
são Deus apenas de nome, e ainda que há algo criado e subserviente,
ou subordinado a outro, na Trindade, e que nela há algo desigual,
maior ou menor, corpóreo ou corporeamente concebido, diferente
quanto aos costumes ou à vontade, confuso ou solitário, como se o
Filho e o Espírito Santo fossem os sentimentos e propriedades de um
Deus o Pai, como pensavam os monarquistas, os novacianos, Praxeas,
os patripassianos, Sabélio, Paulo de Samosata, Êcio, Macedônio, os
antropomorfitas, Ário e outros semelhantes.
4.
Dos ídolos ou imagens de Deus, de Cristo e dos santos
Imagens de
Deus. Visto que Deus como Espírito é, em essência, invisível
e imenso, não pode, certamente, ser expresso por qualquer arte ou
imagem. Por essa razão, não tememos afirmar com a Escritura que
imagens de Deus não passam de mentiras. Assim, rejeitamos não
somente os ídolos dos gentios mas também as imagens dos cristãos.
Imagens de
Cristo. Embora Cristo tenha assumo a natureza humana, não a
assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que
não veio “revogar a lei ou os profetas” (Mat 5.17). E as imagens são
proibidas pela lei e pelos profetas (Deut 4.15; Is 44.9). Afirmou
que a sua presença corporal não seria de proveito para a Igreja, e
prometeu que estaria junto de nós, para sempre, pelo seu Espírito
(João 16.7). Quem, pois, haveria de crer que uma sombra ou
semelhança de seu corpo traria qualquer benefício para as almas
piedosas? (II Co 5.5). Se ele vive em nós pelo seu Espírito, somos
já os templos de Deus (I Co 3.16). Mas, “que ligação há entre o
santuário de Deus e os ídolos?” (II Co 6.16).
Imagens de
santos. E desde que os espíritos bem-aventurados e os santos
do céu, quando viviam aqui na terra, rejeitaram qualquer culto de si
mesmos (At 3.12 ss; 14.11 ss; Apoc 14.7; 22.9) e condenaram as
imagens, poderá alguém achar plausível que os santos e anjos
celestiais se agradem com suas imagens, diante das quais os homens
se ajoelham, descobrem as cabeças e dispensam outras honras?
Para instruir os
homens na religião e relembrá-los das coisas divinas e da sua
salvação, o Senhor ordenou que se pregasse o Evangelho (Mc 16.15) -
e não que se pintassem quadros para ensinar os leigos. Instituiu
também os sacramentos, mas em nenhum lugar estabeleceu imagens.
A escritura
dos leigos. Demais, para onde quer que volvamos os olhos,
vemos as criaturas de Deus, vivas e verdadeiras ao nosso olhar, as
quais, se bem examinadas como convém, causam ao observador uma
impressão muito mais viva do que todas as imagens ou pinturas vãs,
imóveis, frágeis e mortas, feitas pelos homens, das quais com razão
disse o profeta: “Têm olhos, e não vêem” (Sal 115.5).
Lactâncio,
Epifânio e Jerônimo. Por isso aprovamos a opinião de
Lactânio, escritor antigo, que diz: “Indubitavelmente nenhuma
religião existe onde há uma imagem”. Afirmamos, também, que o
bem-aventurado bispo Epifânio procedeu bem quando, ao encontrar nas
portas de uma igreja um véu no qual estava pintada uma figura que se
dizia ser de Cristo ou de algum santo, rasgou-o e o arrancou dali,
por ver, contra a autoridade da Escritura, a figura de um homem
afixada na Igreja de Cristo. Por isso, ele ordenou que dali por
diante tais véus, que eram contrários à nossa religião, não fossem
afixados na Igreja de Cristo, mas antes fossem removidas essas
coisas duvidosas, indignas da Igreja de Cristo e dos fiéis. Além
disso, aprovamos esta afirmação de Santo Agostinho sobre a
verdadeira religião: “Não seja a nossa religião um culto de obras
humanas: os próprios artistas que as fazem são melhores do que elas;
no entanto, não devemos adorá-los” (De Vera Religione, IV,
108).
5.
Da adoração, do culto
e da invocação de Deus por Jesus Cristo, único Mediador
Somente Deus
deve ser adorado e cultuado. Ensinamos que somente o
verdadeiro Deus deve ser adorado e cultuado. Esta honra não
concedemos a nenhum outro, segundo o mandamento do Senhor: “Ao
Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto” (Mat 4.10). Sem
dúvida, todos os profetas censuraram severissimamente o povo de
Israel todas as vezes que este adorou e cultuou deuses estranhos e
não o único Deus verdadeiro. E ensinamos que Deus deve ser adorado e
cultuado como ele mesmo nos ensinou a cultuá-lo, a saber, “em
Espírito e em verdade” (João 4.23 ss), e não com qualquer
superstição, mas com sinceridade, segundo a sua Palavra; para que,
em tempo algum, não venha ele a dizer-nos: “Quem vos requereu o só
pisardes os meus átrios?” (Is 1,12; Jer 6,20). São Paulo também diz:
“Deus não é servido por mãos humanas, como se de alguma cousa
precisasse”, etc. (At 17,25).
Só Deus deve
ser invocado pela exclusiva mediação de Cristo. Em todas as
crises e provações de nossa vida invocamos somente a ele e isso pela
mediação de Jesus Cristo, nosso único mediador e intercessor. Eis o
que nos é claramente ordenado: “Invoca-me no dia da angústia: eu te
livrarei, e tu me glorificarás” (Sal 50,15). Temos uma promessa
generosíssima do Senhor, que disse: “Se pedirdes alguma cousa ao
Pai, ele vo-la concederá em meu nome” (João 16,23), e: “Vinde a mim
todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”
(Mat 11,28). Está escrito: “Como, porém, invocarão aquele em que não
creram?” (Rom 10.14). Nós cremos em um só Deus, e só a ele
invocamos, e o fazemos mediante Cristo. “Porquanto há um só Deus,
diz o Apóstolo, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus
Cristo, homem” (I Tim 2,5). Também se diz: “Se, todavia, alguém
pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo”, etc. (I
João 2,1).
Os santos não
devem ser adorados, cultuados ou invocados. Por essa razão
não adoramos, nem cultuamos nem invocamos os santos dos céus, nem
outros deuses, nem os reconhecemos como nossos intercessores ou
mediadores perante o Pai que está no céu. Deus e Cristo, o Mediador,
nos são suficientes. Nem concedemos a outros a honra que é devida
somente a Deus e ao seu Filho, porque ele claramente disse: “A minha
glória, pois, não a darei a outrem” (Is 42.8). E porque São Pedro
disse: “Porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado
entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”, a não ser o
nome de Cristo (At 4,12). Nele, os que dão seu assentimento pela fé
não buscam coisa alguma além de Cristo.
A honra
devida aos santos. Entretanto, não desprezamos os santos nem
os tratamos como seres vulgares. Reconhecemo-los como membros vivos
de Cristo e amigos de Deus, que venceram gloriosamente a carne e o
mundo. Por isso nós os amamos como irmãos e também os honramos; não,
porém, com qualquer espécie de culto, mas os encaramos com
apreciação e respeito e com justos louvores. Também os imitamos,
pois com ardentíssimos anseios e súplicas desejamos ser imitadores
da sua fé e das suas virtudes, partilhar com eles a salvação eterna,
habitar eternamente com eles na presença de Deus e regozijar-nos com
eles em Cristo. Neste ponto aprovamos o que diz Santo Agostinho:
“Não seja a nossa religião um culto dos mortos. Pois, se viveram
vidas santas, não devemos supor que estejam à procura de tais
honras; ao contrário, querem que adoremos aquele por cuja iluminação
eles se alegram de que sejamos conservos dos seus méritos. Devem,
portanto, ser honrados pela imitação, e não adorados por religião”,
etc. (De Vera Religione, LV, 108).
Relíquias dos
santos. Muito menos cremos que as relíquias dos santos devem
ser adoradas ou cultuadas. Aqueles santos antigos pareciam ter
honrado suficientemente seus mortos, se de modo decente tinham
entregado seus restos mortais à terra, depois que os espíritos
subiram ao alto. E consideravam que as mais nobres relíquias de seus
ancestrais eram suas virtudes, sua doutrina e sua fé, as quais, como
eles as recomendavam pelo louvor dos seus mortos, assim se
esforçavam para imitá-las enquanto viviam na terra.
Juramento só
pelo nome de Deus. Aqueles homens antigos não juravam senão
pelo nome do único Deus, Javé, como ordenava a lei divina. Como por
ela é proibido jurar pelo nome de deuses estranhos (Êx 23.13; Deut
10.20), assim não juramos em nome dos santos, como se exige de nós.
Rejeitamos, portanto, em todas estas questões, uma doutrina que
atribui mais do que o devido aos santos que estão nos céus.
6.
Da providência de Deus
Todas as
coisas são governadas pela providência de Deus. Cremos que
tudo o que há no céu e na terra, e em todas as criaturas, é
preservado e governado pela providência deste Deus sábio, eterno e
onipotente. Davi o testifica e diz: “Excelso é o Senhor acima de
todas as nações, e a sua glória acima dos céus. Quem há semelhante
ao Senhor nosso Deus, cujo trono está nas alturas; que se inclina
para ver o que se passa no céu e sobre a terra?” (Sal 113,4 ss).
Outra vez: “Esquadrinhas... todos os meus caminhos. Ainda a palavra
me não chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda” (Sal 139,
3 ss). São Paulo também testifica e declara: “Nele vivemos, e nos
movemos, e existimos” (At 17, 28), e “dele e por meio dele e para
ele são todas as cousas” (Rom 11, 36). Portanto Santo Agostinho,
muito acertadamente e segundo a Escritura, declarou em seu livro
De Agone Christi, cap. 8: “O Senhor disse: ‘Não se vendem dois
pardais por um asse? e nenhum deles cairá em terra sem o
consentimento de vosso Pai’” (Mat 10.29). Assim falando, ele quis
mostrar que aquilo que os homens consideram de valor insignificante
é governado pela onipotência de Deus. Porquanto aquele que é a
verdade diz que as aves do céu são alimentadas por ele e os lírios
do campo são vestidos por ele; e diz também, que os cabelos de nossa
cabeça estão contados (Mat 6.26 ss).
Os Epicureus.
Condenamos, portanto, os epicureus que negam a providência de Deus e
todos quantos blasfemem dizendo que Deus está ocupado com os céus e
nem nos vê, nem vê nossos interesses, nem cuida de nós. Davi, o
rei-profeta, também os condenou, quando disse: “Senhor, até quando
exultarão os perversos? Dizem: O Senhor não vê; nem disso faz caso o
Deus de Jacob. Atendei, ó estúpidos dentre o povo; e vós insensatos,
quando sereis prudentes? O que fez o ouvido, acaso não ouvirá? e o
que formou os olhos, será que não enxerga?” (Sal 94, 3.7-9).
Os meios não
devem ser desprezados. Entretanto, não desprezamos como
inúteis os meios pelos quais opera a providência divina, mas
ensinamos que devemos acomodar-nos a eles, na medida em que nos são
recomendados na Palavra de Deus. Eis por que desaprovamos as
afirmações temerárias daqueles que dizem que, se todas as coisas são
geridas pela providência de Deus, então nossos esforços e
diligências são inúteis. Seria o bastante deixarmos tudo ao governo
da divina providência e não nos preocuparmos nem fazermos coisa
alguma. São Paulo reconhecia que navegava sob a providência de Deus,
que lhe dissera: “...deste testemunho a meu respeito em Jerusalém,
assim importa que também o faças em Roma” (At 23.11), e em adição
lhe havia prometido: “Porque nenhuma vida se perderá de dentre
vós... pois nenhum de vós perderá nem mesmo um fio de cabelo” (At.
27, 22.34). Todavia, quando os marinheiros estavam pensando em
abandonar o navio, ele mesmo disse ao centurião e aos soldados: “Se
estes não permanecerem a bordo, vós não podereis salvar-vos” (At
27.31). Deus, que destinou a cada coisa o seu fim, ordenou o começo
e os meios pelos quais a coisa atinge seu alvo. Os pagãos atribuem
as coisas à fortuna cega e ao acaso incerto. No entanto, São Tiago
não deseja que digamos: “Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade tal,
e lá passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros”, mas
aconselha: “Em vez disso, deveis dizer: Se o Senhor quiser, não só
viveremos, como faremos isto ou aquilo” (Tiago 4, 13.15). E Santo
Agostinho diz: “Tudo o que para os homens vãos, na natureza parece
acontecer por acidente, realiza simplesmente a sua Palavra, porque
não acontece senão por sua ordem” (Enarrationes in Psalmos,
148). Assim, parecia acontecer por mero acaso quando Saul, enquanto
procurava as jumentas de seu pai, inesperadamente se encontrou com o
profeta Samuel. Mas previamente o Senhor dissera ao profeta: “Amanhã
a estas horas te enviarei um homem da terra de Benjamim” (I Sam
9.16).
7.
Da criação de todas as coisas: dos anjos, do diabo e do homem
Deus criou
todas as coisas. Este Deus bom e onipotente criou todas as
coisas, visíveis e invisíveis, pela sua Palavra co-eterna, e as
preserva pelo seu Espírito co-eterno, como Davi testificou, quando
disse: “Os céus por sua palavra se fizeram, e pelo sopro de sua boca
o exército deles” (Sal 33.6). E, como diz a Escritura, tudo o que
Deus fez era muito bom, e foi feito para proveito e uso do homem.
Ora, afirmamos que todas aquelas coisas partiram de um princípio.
Maniqueus e
Marcionitas. Portanto, condenamos os maniqueus e os
marcionitas que impiamente imaginaram duas substâncias e duas
naturezas, a do bem e a do mal; também dois princípios e dois
deuses, um contrário ao outro, um bom e um mau.
Dos anjos e
do diabo. Entre todas as criaturas, os anjos e os homens são
os mais excelentes. Dos anjos declara a Santa Escritura: “Fazes a
teus anjos ventos, e a teus ministros, labaredas de fogo” (Sal 104,
4). Diz ainda: “Não são todos eles espíritos ministradores enviados
para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Heb 1,
14). Do Diabo testifica o próprio Senhor Jesus: “Ele foi homicida
desde o princípio e jamais se firmou na verdade. Quando ele profere
a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da
mentira” (João 8.44). Portanto, ensinamos que alguns anjos
persistiram na obediência e foram designados para fiel serviço a
Deus e aos homens, mas outros caíram pela sua própria vontade e
foram precipitados na ruína, tornando-se inimigos de todo o bem e
dos fiéis, etc.
Do homem.
Já do homem diz a Escritura que no princípio ele foi criado bom, à
imagem e semelhança de Deus, que Deus o colocou no Paraíso e lhe
sujeitou todas as coisas (Gén cap. 2). Isso é o que Davi
magnificamente celebra no Salmo 8. Além disso, Deus lhe deu uma
esposa e os abençoou. Afirmamos também que o homem consiste de duas
substâncias diferentes numa pessoa: de uma alma imortal, que, quando
separada do corpo, nem dorme nem morre, e de um corpo mortal que,
porém, ressuscitará dos mortos no juízo final, de modo que desde
então o homem todo, na vida ou na morte, viva para sempre.
As seitas.
Condenamos todos os que ridicularizam ou mediante argumentos subtis
põem em dúvida a imortalidade das almas, ou dizem que a alma dorme
ou é parte de Deus. Em resumo, condenamos todas as opiniões de todos
os homens, por mais numerosos que sejam, que ensinam diversamente do
que, a respeito da criação, dos anjos e dos demônios, e do homem,
nos foi ensinado pelas Santas Escrituras na Igreja apostólica de
Cristo.
8.
Da queda do homem, do pecado e sua causa
A queda do homem.
Desde o inicio foi o homem Por Deus criado à imagem de Deus, em
justiça e santidade de verdade, bom e reto, mas, por instigação da
serpente e pela sua própria culpa, ele se afastou da bondade e da
retidão e tornou-se sujeito ao pecado, à morte e a várias
calamidades. E qual veio ele a ser pela queda - isto é, sujeito ao
pecado, à morte e a várias calamidades - tais são todos os que dele
descenderam.
Pecado.
Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou
ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós -
mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados
a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e
de ódio a Deus - nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos
podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os
anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de
Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat
12,33 ss). Por essa razão, sujeitos à ira de Deus, por nossas
próprias culpas, estamos expostos ao justo castigo, de modo que
todos nós teríamos sido por Deus lançados fora, se Cristo, o
Libertador, não nos tivesse reconduzido.
Morte.
Por morte entendemos não só a morte corpórea, que todos nós teremos
de experimentar uma vez, por causa dos pecados, mas também os
suplícios eternos devidos aos nossos pecados e à nossa corrupção.
Eis o que diz o apóstolo: “Estando vós mortos nos vossos delitos e
pecados... éramos por natureza filhos da ira, como também os demais.
Mas Deus, sendo rico em misericórdia... e estando nós mortos em
nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo” (Ef 2.1 ss). E
também: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no
mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os
homens, porque todos pecaram” (Rom 5.12).
Pecado
original; pecados atuais. Reconhecemos, portanto, que há
pecado original em todos os homens. Reconhecemos que todos os outros
pecados que deste provêm são chamados, e verdadeiramente são,
pecados, qualquer que seja o nome que lhes seja dado - pecados
mortais, veniais ou mesmo aquele que é chamado pecado contra o
Espírito Santo, que nunca é perdoado (Mc 3.29; I João 5.16).
Confessamos também que os pecados não são iguais: embora surjam da
mesma fonte de corrupção e incredulidade, alguns são mais graves que
os outros. Como disse o Senhor, haverá mais tolerância para Sodoma
do que para a cidade que rejeita a palavra do Evangelho (Mat 10.14
ss; 11.20 ss).
As seitas.
Condenamos, portanto, todos os que ensinaram o contrário disto,
especialmente Pelágio e todos os pelagianos, juntamente com os
jovinianos, que, com os estóicos, consideravam todos os pecados como
iguais. Em toda esta questão concordamos com Santo Agostinho, que
das Escrituras Sagradas extraiu seu ponto de vista e por elas o
defendeu. Mais ainda, condenamos Florino e Blasto, contra quem
escreveu Irineu, e todos os que fazem Deus o autor do pecado.
Deus não é o
autor do pecado; e até onde se pode dizer que ele endurece.
Está claramente escrito: “Tu não és Deus que se agrade com a
iniqüidade. Aborreces a todos que praticam iniqüidade. Tu destróis
os que proferem mentira” (Sal 5.4 ss). E de novo: “Quando ele
profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e
pai da mentira” (João 8.44). Além disso, há em nós suficiente pecado
e corrupção, não sendo necessário que Deus em nós infunda uma nova e
ainda maior depravação. Quando, portanto, se diz nas Escrituras que
Deus endurece, cega e entrega a uma disposição réproba de mente,
deve-se entender que Deus o faz mediante um justo juízo, como um
Juiz Vingador e justo. Finalmente, sempre que na Escritura se diz ou
parece que Deus faz algo mal, não se diz, por isso, que o homem não
pratique o mal, mas que Deus o permite e não o impede, segundo o seu
justo juízo, que poderia impedi-lo se o quisesse, ou porque ele
transforma o mal do homem em bem, como fez no caso do pecado dos
irmãos de José, ou porque ele próprio controla os pecados, para que
não irrompam e grassem mais largamente do que convém. Santo
Agostinho escreve em seu Enchiridion: “De modo admirável e
inexplicável não se faz além da sua vontade aquilo que contra a sua
vontade faz. Pois não se faria, se ele não o permitisse. E, no
entanto, ele não o permite contra a vontade, mas voluntariamente. O
bom não permitiria que se fizesse o mal, a não ser que, sendo
onipotente, pudesse do mal fazer o bem”. É isso o que ele diz.
Questões
curiosas. As demais questões - tais como, se Deus quis que
Adão caísse, ou se o incitou à queda, ou por que não impediu a queda
e outras semelhantes - nós as reconhecemos como curiosas (salvo,
talvez, se a impiedade dos heréticos ou de outros homens grosseiros
nos leve a explicá-las também, com base na Palavra de Deus, como
freqüentemente o fizeram os piedosos doutores da Igreja), sabendo
que o Senhor proibiu o homem de comer do fruto proibido e puniu sua
transgressão. Sabemos também que as coisas que se fazem não são más
com respeito à providência, à vontade e ao poder de Deus, mas com
respeito a Satanás e à nossa vontade que se opõe à vontade de Deus.
9.
Do livre arbítrio e da capacidade humana
Nesta questão, que
sempre produziu muitos conflitos na Igreja, ensinamos que se deve
considerar uma tríplice condição ou estado do homem.
Qual era o
homem antes da queda. Há o estado em que o homem se
encontrava no princípio, antes da queda; era certamente reto e
livre, de modo que podia continuar no bem ou declinar para o mal,
mas inclinou-se para o mal e se envolveu a si mesmo e a toda a raça
humana em pecado e morte, como se disse acima.
Qual se
tornou o homem depois da queda. Depois, importa considerar
qual se tornou o homem depois da queda. Sem dúvida, seu entendimento
não lhe foi retirado, nem foi ele privado de vontade, nem foi
transformado inteiramente numa pedra ou árvore; mas seu entendimento
e sua vontade foram de tal sorte alterados e enfraquecidos que não
podem mais fazer o que podiam antes da queda. O entendimento se
obscureceu, e a vontade, que era livre, tornou-se uma vontade
escrava. Agora ela serve ao pecado, não involuntária mas
voluntariamente. Tanto é assim que o seu nome é “vontade”; não é
“não – vontade”.
O homem
pratica o mal por sua própria vontade. Portanto, quanto ao
mal ou ao pecado, o homem não é forçado por Deus ou pelo Diabo, mas
pratica o mal espontaneamente e nesse sentido ele tem arbítrio muito
livre. Mas o fato de vermos, não raro, que os piores crimes e
desígnios dos homens são impedidos por Deus de atingir seus
propósitos não tolhe a liberdade do homem na prática do mal, mas é
Deus que pelo seu próprio poder impede aquilo que o homem livremente
determinou de modo diverso. Assim, os irmãos de José livremente
determinaram desfazer-se dele, mas não o puderam, porque outra coisa
parecia bem ao conselho de Deus.
O homem por
si só não é capaz do bem. Com referência ao bem e à virtude,
o entendimento do homem, por si mesmo, não julga retamente a
respeito das coisas divinas. A Escritura evangélica e apostólica
requer regeneração de todos aqueles de entre nós que desejamos ser
salvos. Por conseguinte, nosso primeiro nascimento de Adão em nada
contribui para nossa salvação. São Paulo diz: “O homem natural não
aceita as cousas do Espírito de Deus”, etc. (I Co 2.14). E em outra
passagem ele afirma que nós, por nós mesmos, não somos capazes de
pensar nada de bom (II Co 3.5). Ora, sabe-se que a mente ou
entendimento é a luz da vontade, e quando o guia é cego, é óbvio até
onde a vontade poderá chegar. Por isso, o homem ainda não regenerado
não tem livre arbítrio para o bem e nenhum poder para realizar o que
é bom. O Senhor diz no Evangelho: “Em verdade, em verdade vos digo:
Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (João 8.34). E o
apóstolo São Paulo diz: “Por isso o pendor da carne é inimizade
contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode
estar” (Rom 8.7). O entendimento das coisas terrenas, porém, não é
inteiramente nulo no homem decaído.
Compreensão
das artes. Deus em sua misericórdia permitiu que
permanecesse o talento natural, apesar de este distar muito daquele
que existia no homem antes da queda. Deus manda o homem cultivar o
seu talento e, ao mesmo tempo, lhe acrescenta dons e favores. E é
manifesto que não fazemos nenhum progresso em todas as artes sem a
bênção de Deus. Certamente, a Escritura atribui todas as artes a
Deus; e, na verdade, até os pagãos atribuem a origem das artes a
deuses, que seriam os seus inventores.
Quais são os
poderes dos regenerados, e de que modo é livre o seu arbítrio.
Finalmente, devemos ver se os regenerados têm e até que ponto têm
livre arbítrio. Na regeneração, o entendimento é iluminado pelo
Espírito Santo, para que compreenda os mistérios e a vontade de
Deus. E a própria vontade não é somente mudada pelo Espírito, mas é
também equipado com poderes, de modo, que ela espontaneamente deseje
o bem e seja capaz de praticá-la (Rom 8.1 ss). Se não concedermos
isso, negaremos a liberdade cristã e introduziremos uma servidão
geral. Mas também o profeta registra o que Deus diz: “Na mente lhes
imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei” (Jer
31.33; Ez 36.26 ss). E o Senhor também diz no Evangelho: “Se, pois,
o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36). E
São Paulo também escreve aos filipenses: “Porque vos foi concedida a
graça de padecerdes por Cristo, e não somente de crerdes nele” (Fil
1.29). E outra vez: “Estou plenamente certo de que aquele que
começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo
Jesus” (v. 6). E ainda: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer
como o realizar, segundo a sua boa vontade” (2.13).
Os
regenerados operam não só passiva, mas ativamente.
Entretanto, ensinamos que há duas coisas a serem observadas:
Primeiro, que os regenerados, na sua eleição e operação, não agem só
passiva mas ativamente. São levados por Deus a fazer por si mesmos o
que fazem. Santo Agostinho muito bem afirma que “Deus é nosso
ajudador. Mas ninguém pode ser ajudado, se não aquele que faz alguma
coisa”. Os maniqueus despojavam o homem de toda ação e o faziam
semelhante a uma pedra ou a um pedaço de pau.
O livre
arbítrio é fraco nos regenerados. Segundo, nos regenerados
permanece a fraqueza. Desde que o pecado permanece em nós, e nos
regenerados a carne luta contra o espírito até o fim de nossa vida,
eles não conseguem realizar livremente tudo o que planejaram. Isso é
confirmado pelo apóstolo em Rom 7 e Gal 5. Portanto, é fraco em nós
o livre arbítrio por causa dos remanescentes do velho Adão e da
corrupção humana inata, que permanece em nós até o fim de nossa
vida. Entretanto, desde que os poderes da carne e os remanescentes
do velho homem não são tão eficazes que extingam totalmente a
operação do Espírito, os fiéis são por isso considerados livres, mas
de modo tal que reconhecem a própria fraqueza e não se gloriam de
modo algum em seu livre arbítrio. Os fiéis devem ter sempre em mente
o que Santo Agostinho tantas vezes inculca, segundo o apóstolo: “o
que tendes que não recebestes? Se, pois, o recebestes, por que vos
vangloriais, como se não fosse um dom?” A isso ele acrescenta que
aquilo que planejamos não acontece imediatamente, pois os resultados
das coisas estão nas mãos de Deus. Esta a razão por que São Paulo
ora ao Senhor para promover sua viagem (Rom 1.10). E esta é também a
razão pela qual o livre arbítrio é fraco.
Nas coisas
externas há liberdade. Todavia, ninguém nega que nas coisas
externas tanto os regenerados como os não-regenerados gozam de livre
arbítrio. O homem tem em comum com os outros animais (aos quais ele
não é inferior) esta natureza de querer umas coisas e não querer
outras. Assim, ele pode falar ou ficar calado, sair de sua casa ou
nela permanecer, etc. Contudo, mesmo aqui deve-se ver sempre o poder
de Deus, pois essa foi a causa por que Balaão não pôde ir tão longe
quanto desejava (Num, cap. 24), e Zacarias, ao voltar do templo, não
podia falar como era seu desejo (Luc, cap. 1).
Heresias.
Nesta questão, condenamos os maniqueus, os quais afirmam que o
início do mal, para o homem bom, não foi de seu livre arbítrio.
Condenamos, também, os pelagianos, que afirmam que um homem mau tem
suficiente livre arbítrio para praticar o bem que lhe é ordenado.
Ambos são refutados pela Santa Escritura, que diz aos primeiros:
“Deus fez o homem reto”; e aos segundos: “Se, pois, o Filho vos
libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36).
10. Da predestinação de Deus e da eleição dos santos
Deus nos
elegeu pela graça. Deus, desde a eternidade, livremente e
movido apenas pela sua graça, sem qualquer respeito humano,
predestinou ou elegeu os santos que ele quer salvar em Cristo,
segundo a palavra do apóstolo: “Ele nos escolheu nele antes da
fundação do mundo” (Ef 1.4); e de novo: “... que nos salvou, e nos
chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme
a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus
antes dos tempos eternos, e manifestada agora pelo aparecimento de
nosso Salvador Cristo Jesus” (II Tim 1.9-10).
Somos eleitos
ou predestinados em Cristo. Portanto, não foi sem medo,
embora não por qualquer mérito nosso, mas em Cristo e por causa de
Cristo que Deus nos elegeu, para que aqueles que agora se encontram
enxertados em Cristo pela fé também sejam eleitos, mas sejam
rejeitados aqueles que estão fora de Cristo, segundo a palavra do
apóstolo: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé;
provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em
vós? Se não é que já estais reprovados” (II Co 13.5).
Somos eleitos
para um fim determinado. Finalmente, os santos são eleitos
em Cristo por Deus para um fim determinado, que o apóstolo
esclarece, quando diz: “Ele nos escolheu nele antes da fundação do
mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor
nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus
Cristo... para o louvor da glória de sua graça” (Ef 1.4-6).
Devemos bem
esperar acerca de todos. E, embora Deus conheça os que são
seus, e nalgum lugar se faça menção do reduzido número dos eleitos,
devemos, contudo, bem esperar acerca de todos, e não julgar
apressadamente nenhum homem como rejeitado. São Paulo diz aos
filipenses: “Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós”
(ora, ele fala de toda a Igreja dos filipenses), “pela vossa
cooperação no Evangelho... Estou plenamente certo de que aquele que
começou boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus”
(Fil 1.3-7).
Sobre se são
poucos os eleitos. E, quando perguntaram ao Senhor se eram
poucos os que seriam salvos, ele não respondeu que poucos ou muitos
seriam salvos ou condenados, mas antes exortou todo homem a
“esforçar-se por entrar pela porta estreita” (Luc 13.24). É como se
dissesse: “Não vos compete inquirir com muita curiosidade acerca
dessas questões, mas antes esforçar-vos por entrar no céu pelo
caminho estreito”.
O que deve
ser condenado nesse caso. Por isso, não aprovamos as
afirmações ímpias de alguns que dizem: “Poucos são os eleitos, e,
como eu não sei se estou no número desses poucos, não me privarei
dos prazeres”. Outros dizem: “Se sou predestinado ou eleito por
Deus, nada me impedirá da salvação, já certamente determinada, seja
o que for que eu fizer. Mas, se estou no número dos rejeitados,
nenhuma fé ou arrependimento poderá valer-me, visto que a
determinação de Deus não pode ser mudada. Portanto, todas as
doutrinas e advertências são inúteis”. Mas o ensino do apóstolo
contradiz estes homens: “O servo do Senhor deve ser apto para
instruir... disciplinando com mansidão os que se opõem, na
expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento ...
livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por
ele, para cumprirem a sua vontade” (II Tm 2.24-26).
As
admoestações não são inúteis pelo fato de a salvação vir da eleição.
Santo Agostinho também mostra que devem ser pregadas tanto a graça
da livre eleição e predestinação como também as admoestações e
doutrinas da salvação (De Bono Perseverantiae, cap. 14 ss),
Se somos
eleitos. Condenamos, portanto, aqueles que, fora de Cristo,
perguntam se são eleitos, e o que sobre eles decretou Deus antes de
toda a eternidade, pois deve ser ouvida a pregação do Evangelho e
deve-se crer nele, e deve-se ter como fora de dúvida que, se alguém
crê e está em Cristo, é eleito. Com efeito, o Pai nos revelou em
Cristo o eterno propósito da sua predestinação, como ainda há pouco
expus, pelo que diz o apóstolo, em II Tim 1.9-10. Deve-se, pois,
ensinar e antes de tudo considerar quão grande amor do Pai para
conosco nos foi revelado em Cristo. Devemos ouvir o que o próprio
Senhor diariamente nos prega no Evangelho, como ele nos chama e diz:
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu
vos aliviarei” (Mat 11.28); “Deus amou o mundo de tal maneira que
deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna” (João 3.16). E ainda: “Não é a vontade de
vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (Mat 18.14).
Seja, pois,
Cristo o espelho, no qual contemplemos a nossa predestinação.
Teremos um testemunho bastante claro e seguro de que estamos
inscritos no Livro da Vida, se tivermos comunhão com Cristo, e se
ele for nosso e nós dele em verdadeira fé.
Tentação
sobre a predestinação. Na tentação sobre a predestinação,
que é, talvez, mais perigosa do que qualquer outra, console-nos o
fato de que as promessas de Deus são universais para os fiéis, pois
ele diz: “Pedi, e dar-se-vos-á... Pois todo o que pede recebe” (Luc
11.9-10). É, finalmente, o que pedimos com toda a Igreja de Deus:
“Pai nosso que nos céus” (Mat 6.9). Fomos enxertados no corpo de
Cristo, pelo batismo, e da sua carne e do seu sangue nos alimentamos
freqüentemente em sua Igreja, para a vida eterna. Fortalecidos por
essas bênçãos, segundo o preceito de São Paulo recebemos ordem de
operar a nossa salvação com temor e tremor.
11. De Jesus Cristo, verdadeiro Deus
e verdadeiro homem, único Salvador do mundo
Cristo é
verdadeiro Deus. Além disso, ensinamos que o Filho de Deus,
nosso Senhor Jesus Cristo, foi, desde a eternidade, predestinado ou
pré-ordenado pelo Pai para ser o Salvador do Mundo. E cremos que ele
nasceu, não somente quando da Virgem Maria assumiu a carne, nem
apenas antes que se lançassem os fundamentos do mundo, mas antes de
toda a eternidade e certamente pelo Pai, de um modo inexprimível.
Isaías diz: “E da sua linhagem quem dela cogitou?” (cap. 53.8). E
Miquéias diz “E cujas origens são desde os tempos antigos, desde os
dias da eternidade” (Miq 5.2). Também São João disse no Evangelho:
“No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus”, etc. (cap. 1.1). Portanto, quanto à sua divindade, o Filho é
co-igual e consubstancial com o Pai; verdadeiro Deus (Fil 2.11), não
de nome ou por adoção ou por qualquer dignidade, mas em substância e
natureza, como disse o apóstolo São João: “Este é o verdadeiro Deus
e a vida eterna” (I João 5.20). São Paulo também diz: “A quem
constituiu herdeiro de todas as cousas, pelo qual também fez o
universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do
seu ser, sustentando todas as cousas pela palavra do seu poder” (Heb
I.2 ss). E no Evangelho o Senhor mesmo também disse: “Glorifica-me,
ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes
que houvesse mundo” (João 17.5). Em outro lugar do Evangelho também
está escrito: “Os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque...
também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus”
(João 5.18).
As seitas.
Abominamos, pois, a doutrina ímpia de Ário e de todos os arianos
contra o Filho de Deus, e especialmente as blasfêmias do espanhol,
Miguel Serveto, e de todos os servetanos, que Satanás, por meio
deles, retirou do inferno, por assim dizer, e vai espalhando por
todo o mundo, audaciosa e impiamente.
Cristo é
verdadeiro homem, tendo verdadeira carne. Cremos também e
ensinamos que o eterno Filho do eterno Deus se fez Filho do homem,
da semente de Abraão e David, não com concurso carnal do homem, como
diz Ébion, mas concebido do Espírito Santo com toda a pureza e
nascido da sempre virgem Maria, como a história evangélica
cuidadosamente nos explica (Mat, cap.1). E São Paulo diz: “Ele não
assumiu a natureza de anjos, mas a da semente de Abraão”. Também o
apóstolo São João diz que todo aquele que não crê que Jesus Cristo
veio em carne não é de Deus. Portanto, a carne de Cristo não era nem
imaginária nem trazido do céu, como erradamente sonhavam Valentino e
Márcion.
Alma racional
em Cristo. Além disso, nosso Senhor Jesus Cristo não possuiu
uma alma desprovida de percepção e de razão, como pensava
Apolinário, nem carne sem alma, como ensinava Eudômio, mas alma com
sua razão e carne com seus sentidos, pelos quais por ocasião de sua
paixão ele suportou dores reais, como ele mesmo testifica quando
diz: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mat
26.38); “Agora está angustiada a minha alma” (João 12.27).
Duas
naturezas em Cristo. Reconhecemos, portanto, duas naturezas
ou substâncias, a divina e a humana, num e no mesmo Senhor nosso
Jesus Cristo (Heb, cap. 2). E dizemos que elas estão ligadas e
unidas uma com a outra de tal modo que não foram absorvidas, ou
confundidas, ou misturadas, mas unidas ou integradas numa pessoa -
com as propriedades das naturezas intactas e permanentes.
Não dois, mas
um só Cristo. Assim, não adoramos dois, mas um Cristo, o
Senhor, um verdadeiro Deus e verdadeiro homem, segundo a natureza
divina, consubstancial com o Pai, e segundo a natureza humana,
consubstancial com os homens e semelhante a nós em todas as coisas,
excepto no pecado (Heb 4.15).
As seitas.
Certamente abominamos o dogma nestoriano, que de um Cristo faz dois
e dissolve a união da Pessoa. Semelhantemente, execramos totalmente
a loucura de Eutiques e dos monotelitas ou monofisitas, que destrói
a propriedade da natureza humana.
A natureza
divina de Cristo não sofreu e a humana não está em toda a parte.
Portanto, de modo nenhum ensinamos que a natureza divina em Cristo
sofreu, ou que Cristo em sua natureza humana ainda está neste mundo
e ainda em toda parte. Pois nem pensamos nem ensinamos que a
realidade do corpo de Cristo cessou depois de sua glorificação, ou
que foi deificado e deificado de tal modo que ele tenha deposto as
suas propriedades com respeito ao corpo e à alma, e estes se tenham
mudado inteiramente em uma natureza divina e passado a ser uma
substância una.
As seitas.
Por isso, de maneira nenhuma aprovamos ou aceitamos as argúcias sem
argúcia, intrincadas e obscuras, de Schwenkfeldt e de semelhantes
dizedores de sutilezas, nem suas dissertações pouco consistentes
sobre essa questão, nem somos schwenkfeldianos.
Nosso Senhor
verdadeiramente sofreu. Cremos, além disso, que nosso Senhor
Jesus Cristo verdadeiramente sofreu e morreu por nós em carne, como
diz São Pedro (I Ped 4.1). Abominamos a impiíssima loucura dos
jacobitas e de todos os turcos, que blasfemam do sofrimento do
Senhor. Ao mesmo tempo, não negamos que o Senhor da glória foi
crucificado por nós, segundo as palavras de São Paulo (I Co 2.8).
Comunicação
de propriedades de linguagem. Aceitamos e aplicamos pia e
respeitosamente a comunicação de propriedades de linguagem derivada
da Escritura e usada por toda a antiguidade para explicar e
reconciliar passagens aparentemente contraditórias.
Cristo
verdadeiramente ressuscitou dos mortos. Cremos e ensinamos
que o mesmo Jesus Cristo nosso Senhor, em sua verdadeira carne na
qual fora crucificado e morrera, ressuscitou dos mortos, e que não
foi outra carne que ressuscitou, mas a que foi sepultada, nem foi o
espírito que subiu ao alto em vez da carne, mas ele reteve seu
verdadeiro corpo. Portanto, ainda que os seus discípulos pensassem
ver o espírito do Senhor, ele lhes mostrou as mãos e os pés marcados
realmente com os sinais dos cravos e das feridas, e ajuntou: “Vede
as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo, apalpai-me e
verificam, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes
que eu tenho” (Luc 24-39).
Cristo
verdadeiramente subiu ao céu. Cremos que nosso Senhor Jesus
Cristo, em sua própria carne, subiu acima de todos os céus visíveis
ao supremo céu, isto é, à habitação de Deus e dos bem-aventurados, à
destra de Deus o Pai. Embora isso signifique participação igual em
glória e majestade, considera-se, contudo, também como um lugar
definido, acerca do qual o Senhor, falando no Evangelho, diz: “Vou
preparar-vos lugar” (João 14.2). O apóstolo São Pedro também diz:
“Ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração
de todas as cousas” (Act 3.21). E do céu o mesmo Cristo retomará
para o juízo, quando a impiedade no mundo estiver no seu máximo e
quando o Anticristo, tendo corrompido a verdadeira religião, tiver
envolvido todas as coisas com superstição e impiedade, e tiver
cruelmente assolado a Igreja com sangue e fogo (Dn, cap. 11). Mas
Cristo voltará para reclamar os seus, e pela sua vinda destruir o
Anticristo e julgar os vivos e os mortos (Act 17,31). s mortos
ressuscitarão (I Tes 4.14 ss), e os que naquele dia (que é
desconhecido de todas as criaturas - Mc 13.32) estiverem vivos serão
transformados “num abrir e fechar de olhos”, e todos os fiéis serão
arrebatados ao encontro de Cristo nos ares, para assim entrarem com
ele nas benditas mansões e viverem para sempre (I Co 15.51 ss). Mas
os incrédulos ou os ímpios descerão com os demônios para o inferno a
fim de arderem para sempre e nunca serem libertados dos tormentos
(Mat 25.46).
As seitas.
Condenamos, portanto, todos os que negam a ressurreição real da
carne (II Tim 2.18), ou que, com João de Jerusalém, contra quem
escreveu São Jerônimo, não pensem corretamente acerca dos corpos
glorificados. Condenamos também os que ensinam que os demônios e
todos os ímpios serão um dia salvos, e que haverá um fim dos
castigos. O Senhor declarou com clareza: “Onde não lhes morre o
verme, nem o fogo se apaga” (Mc 9.44). Condenamos, além disso, os
sonhos judaicos de que haverá uma idade áurea na terra antes do Dia
do Juízo, e que os piedosos, tendo subjugado todos os seus inimigos
ímpios, entrarão na posse de todos os reinos do mundo. Pois a
verdade evangélica em Mat, caps. 24 e 25, e Lucas, cap. 18, e o
ensino apostólico em II Tes, cap. 2, e II Tim, caps. 3 e 4,
apresentam coisa inteiramente diversa.
O fruto da
morte e ressurreição de Cristo. Além do mais, pela sua
paixão e morte e tudo o que, em sua carne e na sua vinda, ele fez e
suportou por nossa causa nosso Senhor reconciliou o Pai celestial
com todos os fiéis, expiou o pecado, desarmou a morte, arruinou a
condenação e o inferno, e, pela sua ressurreição dos mortos, trouxe
de novo e restituiu a vida e a imortalidade. Ele é a nossa justiça,
a nossa vida e ressurreição, em uma palavra, a plenitude e perfeição
de todos os fiéis, a salvação e a mais completa suficiência. O
apóstolo diz: “Aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude”,
e “Viestes à plenitude da vida nele” (Cl caps. l e 2).
Jesus Cristo
é o único Salvador do mundo, e o verdadeiro Messias esperado.
Ensinamos e cremos que este Jesus Cristo, nosso Senhor, é o único e
eterno Salvador do gênero humano, e também do mundo inteiro, em quem
pela fé se salvaram todos os que antes da Lei, sob a Lei e sob o
Evangelho foram salvos, e em quem se salvarão todos os que ainda
vierem a salvar-se até o fim do mundo. É o próprio Senhor quem diz
no Evangelho: “O que não entra pela porta no aprisco das ovelhas,
mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador ... Eu sou a
porta das ovelhas” (João 10.1 e 7). E também em outro lugar, no
mesmo Evangelho: “Abraão... viu o meu dia e regozijou-se” (cap.
8.56). O apóstolo São Pedro também diz: “Não há salvação em nenhum
outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre
os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Cremos, portanto,
que seremos salvos mediante a graça de nosso Senhor Jesus Cristo,
como nossos pais o foram (Act 4.12; 10.43; 15.1 1). São Paulo também
diz: “Todos eles comeram de um só manjar espiritual, e beberam da
mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os
seguia. E a pedra era Cristo” (I Co 10.3 ss). E assim lemos o que
João diz: Cristo era o “Cordeiro que foi morto, desde a fundação do
mundo” (Apoc 13.8), e João Baptista testificou que Cristo é “o
Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Eis por
que professamos e pregamos, com toda a clareza, que Jesus Cristo é o
único Redentor e Salvador do mundo, o Rei e o Sumo - Sacerdote, o
verdadeiro Messias esperado, aquele santo e bendito que todos os
tipos da lei e todos os vaticínios dos profetas prefiguraram e
prometeram; e que Deus o designou anteriormente e no-lo enviou, de
modo que não devemos esperar nenhum outro. Nem nos resta agora outra
coisa que darmos a Cristo toda a glória, nele crermos, somente nele
descansarmos, desprezando e rejeitando todas as demais ajudas na
vida. Com efeito, decaíram da graça e tornam Cristo vão para si
todos os que buscam a salvação em qualquer outra coisa que não
somente em Cristo (Gal 5.4).
Os credos
recebidos de quatro concílios. E, para dizer muito em poucas
palavras, cremos de todo o coração, e livremente confessamos à viva
voz, tudo o que foi definido com fundamento nas Escrituras Sagradas
a respeito do mistério da Encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo,
compreendido nos Credos e decretos dos quatro primeiros venerandos
sínodos reunidos em Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia -
juntamente com o Credo do bem-aventurado Atanásio, e todos os credos
similares; e condenamos tudo o que for contrário a eles.
As seitas.
E dessa maneira mantemos inviolada ou intacta a fé cristã, ortodoxa
e católica, sabendo que nada se contêm nos credos atrás citados que
não seja conforme com a Palavra de Deus, e que não contribua, ao
mesmo tempo, para uma exposição pura da fé.
12. Da lei de Deus
A vontade de
Deus nos é exposta na lei de Deus. Ensinamos que a vontade
de Deus nos é exposta na Lei de Deus: o que ele quer ou não quer que
façamos, o que é bom e justo, ou o que é mau e injusto. Portanto,
confessamos que a Lei é boa e santa.
A lei natural.
Esta lei foi escrita nos corações dos homens pelo dedo de Deus (Rom
2.15), e é chamada a lei natural; foi também esculpida pelo dedo de
Deus nas duas tábuas de Moisés e mais pormenorizadamente exposta nos
livros de Moisés (Êx 20.1 ss; Deut 5.6 ss). Para maior clareza,
distinguimos: a lei moral contida no Decálogo ou nas duas Tábuas e
expostas nos livros de Moisés; a lei cerimonial, que determina as
cerimônias e o culto de Deus; e a lei judiciária, que versa questões
políticas e domésticas.
A lei é
completa e perfeita. Cremos que toda a vontade de Deus e
todos os preceitos necessários a cada esfera da vida são nesta lei
ensinados com toda a plenitude. De outro modo o Senhor não nos teria
proibido de adicionar-lhe ou de subtrair-lhe qualquer coisa; nem nos
teria mandado andar num caminho reto diante desta Lei, sem dela nos
declinarmos para a direita ou para a esquerda (Deut 4.2; 12.32,
5.32, cf. Num 20-17 e Deut 2.27).
Porque foi
dada a lei. Ensinamos que esta Lei não foi dada aos homens
para que fôssemos justificados pela sua observância, mas antes para
que, pelo seu ensino, conhecêssemos nossa fraqueza, nosso pecado e
condenação e, perdendo a confiança em nossas forças, nos
convertêssemos a Cristo pela fé. O apóstolo diz claramente: “A Lei
suscita a ira”; “pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rom
4.15; 3.20); “porque, se fosse promulgada uma Lei que pudesse dar
vida, a justiça, na verdade seria procedente da Lei; mas a Escritura
encerrou tudo sob o pecado, para que mediante a fé em Jesus Cristo
fosse a promessa concedida aos que crêem... De maneira que a Lei nos
serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos
justificados por fé” (Gal 3.21 ss).
A carne não
cumpre a lei. Ninguém poderia ou pode satisfazer a Lei de
Deus ou cumpri-la, por causa de fraqueza da nossa carne que adere e
permanece em nós até nosso último suspiro. Outra vez diz o apóstolo:
“O que fora impossível à Lei, no que estava enferma pela carne, isso
fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne
pecaminosa e no tocante ao pecado” (Rom 8.3). Portanto, Cristo é o
aperfeiçoador da Lei e o nosso cumprimento dela (Rom 10.4), o qual,
com o fim de remover a maldição da Lei, foi feito maldição por nós
(Gal 3.13). Assim, ele nos comunica, pela fé, o seu cumprimento da
Lei, e a sua justiça e obediência nos são imputadas.
Até que ponto
foi a lei ab-rogada. A Lei de Deus é, pois, ab-rogada na
medida em que ela não mais nos condena, nem opera ira em nós.
Estamos debaixo da graça e não debaixo da Lei. Além disso, Cristo
cumpriu todas as formas da Lei. Daí, vindo o corpo, cessaram as
sombras, de modo que agora em Cristo temos a verdade e toda a
plenitude. Contudo, de modo nenhum rejeitamos por isso a Lei.
Lembramo-nos das palavras do Senhor, que disse: “Não vim para
revogar, vim para cumprir” (Mat 5.17). Sabemos que na Lei nos são
ensinados os padrões de virtudes e vícios. Sabemos que a Lei
escrita, quando explicado pelo Evangelho, é útil à Igreja, e que,
portanto, sua leitura não deve ser excluída da Igreja. E, embora a
face de Moisés estivesse recoberta com um véu, no entanto o apóstolo
diz que o véu foi retirado e abolido por Cristo.
As seitas.
Condenamos tudo o que os heréticos, antigos e modernos, ensinaram
contra a Lei.
13. Do Evangelho de Jesus Cristo, das promessas, do espírito e da
letra
Os antigos
tiveram promessas evangélicas. O Evangelho opõe-se à Lei. A
Lei opera a ira e anuncia a maldição, enquanto o Evangelho prega a
graça e a bênção. São João diz: “Porque a Lei foi dada por
intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus
Cristo” (João 1.17). Não obstante, é perfeitamente certo que aqueles
que viveram antes da Lei e sob a Lei não estavam totalmente
destituídos do Evangelho. Tinham insignes promessas evangélicas,
tais como estas: “A semente da mulher te ferirá a cabeça” (Gen
3.15). “Nela serão benditas todas as nações da terra” (Gen 22.18).
“O cetro não se arredará de Judá ... até que venha Silo” (Gen
49.10). “O Senhor teu Deus te suscitará um profeta do meio de ti, de
teus irmãos” (Deut 18.15; At 3.22) etc.
Promessas
dúplices. Reconhecemos que duas espécies de promessas foram
reveladas aos antigos, como também a nós. Algumas eram de coisas
presentes ou terrenas, tais como as promessas da Terra de Canaã e de
vitórias, e como, ainda hoje, as promessas do pão quotidiano. Outras
eram naquela ocasião, e são ainda agora, de coisas celestiais e
eternas, como a graça divina, a remissão de pecados, a vida eterna
por meio da fé em Jesus Cristo.
Os patriarcas
tiveram promessas não só carnais, mas também espirituais. Os
antigos não tiveram, em Cristo, apenas promessas externas ou
terrenas, mas também espirituais e celestiais. São Pedro diz: “Foi a
respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os
quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada” (I Pe
1.10). Donde também o apóstolo São Paulo diz: “O Evangelho de
Deus... foi... outrora prometido por intermédio dos seus profetas
nas Sagradas Escrituras” (Rom 1.2). Por isso é bem claro que os
antigos não foram inteiramente destituídos de todo o Evangelho.
Que é
propriamente o Evangelho? E, embora nossos pais tivessem
dessa maneira, nos escritos dos profetas, o Evangelho, pelo qual
alcançaram a salvação em Cristo pela fé, contudo, o que se chama
propriamente “Evangelho” são as notícias alegres e felizes pelas
quais, primeiro por João Baptista, depois por Cristo, o Senhor, e
depois pelos apóstolos e seus sucessores, se anunciou aos homens que
Deus já realizou o que ele prometera, desde o princípio do mundo, e
nos mandou, ou melhor nos deu o seu único Filho e nele a
reconciliação com o Pai, a remissão dos pecados, toda a plenitude e
a vida eterna. Portanto, a história apresentada pelos quatro
evangelistas, explicando como isso foi realizado ou cumprido por
Cristo, o que Cristo ensinou e praticou, e que aqueles que crêem
nele têm toda a plenitude, e exatamente o que se chama “Evangelho”.
A Pregação e os escritos apostólicos, nos quais os apóstolos nos
expõem como o Filho nos foi dado pelo Pai, e nele tudo o que diz
respeito à vida e à salvação, são também o que se chama corretamente
“doutrina evangélica”, de modo que ainda hoje, se sinceramente
pregada, não perde o direito a tão preclara designação.
Do espírito e
da letra. Essa mesma pregação do Evangelho é também chamada
pelo apóstolo “o espírito” e “o ministério do espírito”, porque pela
fé ela se torna eficaz e viva nos ouvidos, ou melhor, nos corações
dos crentes iluminados pelo Espírito Santo (II Co 3.6). A letra, que
se opõe ao Espírito, significa tudo o que é externo, mas
especialmente a doutrina da Lei, que, sem o Espírito e a fé, produz
ira e excita o pecado nas mentes daqueles que não têm uma fé viva.
Por isso o apóstolo chama a isso «o ministério da morte». Aqui é
pertinente a palavra do apóstolo: “A letra mata, mas o Espírito
vivifica”. Falsos apóstolos também pregavam um Evangelho corrompido,
misturando-lhe a Lei, como se sem a Lei Cristo não pudesse salvar.
As seitas.
Assim, afirmavam os ebionitas, descendentes espirituais do herege
Ébion, e os nazaritas, que anteriormente eram chamados mineus. A
todos estes nós condenamos, e pregamos ao mesmo tempo o puro
Evangelho, ensinando que os crentes são justificados só pelo
Espírito, e não pela Lei. Uma exposição mais detalhada deste assunto
virá sob o título de “justificação”.
O ensino do
Evangelho não é novo, mas muito antigo. Embora o ensino do
Evangelho, comparado com o dos fariseus sobre a Lei, tenha parecido
ser uma nova doutrina quando pregado por Cristo a primeira vez, o
que também Jeremias profetizou a respeito do Novo Testamento,
contudo, ele, na realidade não só era como ainda é, uma velha
doutrina (que hoje ela é chamada nova pelos papistas, quando
comparada com a doutrina agora recebida entre eles), mas na verdade
é a mais antiga de todas no mundo. Com efeito Deus predestinou desde
a eternidade salvar o mundo por Cristo, e manifestou ao mundo,
através do Evangelho, esta sua predestinação e o seu conselho eterno
(II Tim 2.9 ss). Disso é evidente que a religião e a doutrina
evangélica, entre quantas já existiram, existem e virão a existir, é
a mais antiga de todas. Por isso, afirmamos que todos os que dizem
que a religião e a doutrina evangélica é uma fé surgida
recentemente, e que não tem mais que trinta anos de existência,
erram vergonhosamente e falam coisas indignas do conselho eterno de
Deus. A eles se aplica a palavra de Isaías, o profeta: “Ai dos que
ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade;
põem o amargo por doce, e o doce por amargo!” (Is 5.20).
14. Do arrependimento e da conversão do homem
A doutrina do
arrependimento está ligada ao Evangelho. Pois assim diz o
Senhor no Evangelho: “Que em seu nome se pregasse arrependimento
para remissão de pecados a todas as nações” (Luc 24.47).
Que é
arrependimento? Por arrependimento entendemos uma volta
atrás da mente no pecador provocado pela Palavra do Evangelho e pelo
Espírito Santo, e recebida pela verdadeira fé, com o que o pecador
imediatamente reconhece a sua corrupção inata e todos os seus
pecados denunciados pela Palavra de Deus; e entristece-se por eles
em seu coração, e não apenas os lamenta e francamente confessa
diante de Deus com um sentimento de vergonha, mas também com
indignação os abomina; cuidando agora zelosamente de emendar-se, num
esforço constante em busca da inocência e da virtude, no qual
esforço se exercita santamente em todo o resto de sua vida.
O
arrependimento é verdadeira conversão a Deus. E este
é o verdadeiro arrependimento, uma sincera volta para Deus e para
todo o bem, e uma profunda aversão ao Diabo e a todo o mal.
O
arrependimento é dom de Deus. Dizemos expressamente que este
arrependimento é puro dom de Deus e não uma realização de nossas
forças. O apóstolo ordena a um fiel ministro que diligentemente
instrua aqueles que se opõem à verdade, “na expectativa de que Deus
lhes conceda o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade”
(II Tim 2.25). Lamenta os pecados cometidos. Aquela mulher que lavou
os pés do Senhor com suas lágrimas, e São Pedro, que chorou
amargamente e lamentou ter negado o Senhor (Luc 7.38; 22.62) mostram
claramente como deve ser o espírito de um homem arrependido,
lamentando seriamente os pecados que cometeu. Confessa os pecados a
Deus. E o filho pródigo e o publicano no Evangelho, quando
comparados com o fariseu, apresentam-nos as fórmulas mais adequadas
de confessar os nossos pecados a Deus. O primeiro disse: “Pai,
pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado
teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores” (Luc 15.18 ss).
E o segundo, não ousando erguer os olhos ao céu, bate no peito,
dizendo: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (cap. 18.13). E não
temos duvida de que foram aceitos em graça por Deus, pois o apóstolo
São João diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo
para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se
dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua
palavra não está em nós” (I João 1.9 ss).
Confissão e
absolvição sacerdotais. Cremos que é suficiente esta sincera
confissão feita só a Deus, ou particularmente entre Deus e o
pecador, ou publicamente na Igreja quando se faz a confissão geral
de pecados, e que para se obter perdão de pecados não é necessário
ninguém confessar seus pecados a um sacerdote, sussurrando-lhe aos
ouvidos, para dele ouvir em troca a absolvição, com a imposição das
mãos, porque não existe nenhum mandamento nem exemplo disso Santas
Escrituras. David testifica e diz: “Confessei-te o meu pecado e a
minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: Confessarei ao Senhor as
minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado”
(Sal 32.5). E o Senhor, ao ensinar-nos a orar e ao mesmo tempo a
confessar nossos pecados, disse: “Pai nosso que estás nos céus...
perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos
nossos devedores” (Mat 6.9 e 12). Portanto, é necessário que
confessemos nossos pecados a Deus, nosso Pai, e nos reconciliemos
com nosso próximo, se o ofendemos. Quanto a esse tipo de confissão,
o apóstolo São Tiago diz: “Confessai, pois, os vossos pecados uns
aos outros” (Tiag 5.16). Se, contudo, alguém se acha acabrunhado
pelo peso de seus pecados e por tentações que o põem perplexo, e
procurar conselho, instrução e conforto individualmente, ou de um
ministro da Igreja, ou de um outro irmão instruído na Lei de Deus,
não desaprovamos. Por outro lado, aprovamos plenamente a confissão
de pecados geral e pública, que usualmente se realiza na Igreja e em
reuniões de culto, como notamos acima, tanto mais que isso está de
acordo com a Escritura.
Das chaves do
Reino do Céu. Quanto às chaves do Reino de Deus, que o
Senhor entregou aos apóstolos, muitos tagarelam inúmeras coisas
espantosas, e com elas forjam espadas, lanças, cetros e coroas, e
pleno poder sobre os maiores reinos, e, afinal, sobre almas e
corpos. Julgando de modo singelo, segundo a Palavra do Senhor,
dizemos que todos os que são legitimamente chamados ministros
possuem e exercem as chaves, ou o uso das chaves, quando anunciam o
Evangelho; isto é, quando ensinam, exortam, confortam, repreendem e
exercem a disciplina sobre o povo confiado aos seus cuidados.
Abrir e
fechar (o Reino). Desse modo abrem o Reino dos Céus aos
obedientes e o fecham aos desobedientes. O Senhor prometeu essas
chaves aos apóstolos em Mat, cap.16, e as deu em João, cap. 20,
Marcos, cap. 16 e Lucas, cap.24, quando enviou seus discípulos e os
mandou pregar o Evangelho a todo o mundo, e perdoar pecados.
O ministério
da reconciliação. Na carta aos Coríntios diz o apóstolo que
o Senhor deu o ministério da reconciliação aos seus ministros (II Co
5.18 ss). E ele explica qual é ele, dizendo que é a pregação ou o
ensino da reconciliação. E, tornando suas palavras ainda mais
claras, acrescenta que os ministros de Cristo desempenham o ofício
de embaixadores em nome de Cristo, como se Deus mesmo por meio deles
exortasse o povo a se reconciliar com Deus, sem dúvida nenhuma pela
fiel obediência. Portanto, exercem o poder das chaves quando
persuadem os homens à fé e ao arrependimento. Assim, reconciliam os
homens com Deus.
Os
ministérios proclamam a remissão de pecados. Assim, eles
perdoam pecados. Abrem, assim, o Reino dos Céus e nele introduzem os
crentes: mui diferentemente daqueles de quem o Senhor fala no
Evangelho: “Ai de vós, intérpretes da lei! porque tomastes a chave
da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que
estavam entrando” (Luc 11.52).
Como os
ministros absolvem. Os ministros, portanto, absolvem correta
e eficazmente quando pregam o Evangelho de Cristo e nele a remissão
de pecados, que é prometida a todo aquele que crê, assim como cada
um é batizado, e quando testificam que ela pertence a cada um
particularmente. E não julgamos que esta absolvição se torne mais
eficaz por ser murmurada no ouvido de alguém ou individualmente
sobre a cabeça de alguém. Pensamos, contudo, que a remissão de
pecados pelo sangue de Cristo deve ser diligentemente anunciada, e
que cada um deve ser avisado de que o perdão de pecados lhe
pertence.
Diligência na
renovação da vida. Ademais os exemplos do Evangelho
ensinam-nos quão vigilantes e diligentes devem ser os arrependidos
no esforço de renovação de vida e na mortificação do homem velho e
despertamento do homem novo. O Senhor disse ao paralítico que ele
curara: “Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te
suceda cousa pior” (João 5.14). De igual modo, disse à adúltera a
quem libertou: “Vai, e não peques mais” (cap. 8.11). Sem dúvida, por
estas palavras ele não quis dizer que o homem, alguma vez, enquanto
ainda vive nesta carne, não peque; mas recomenda vigilância
cuidadosa e diligência para que nos esforcemos de todos os modos e
supliquemos a Deus em nossas orações para não cairmos nos pecados
dos quais como que ressuscitamos, e para não sermos vencidos pela
carne, pelo mundo e pelo Diabo. Zaqueu, o publicano, recebido pelo
Senhor em graça, exclama no Evangelho: “Senhor, resolvo dar aos
pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma cousa tenho defraudado
alguém, restituo quatro vezes mais” (Luc 19.8). Portanto, do mesmo
modo pregamos que restituição e misericórdia, e, até, esmolas, são
necessárias para aqueles que verdadeiramente se arrependem, e
exortamos todos os homens em toda parte com as palavras do apóstolo:
“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que
obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu
corpo ao pecado como instrumentos de iniqüidade; mas oferecei-vos a
Deus como ressurrectos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus
como instrumentos de justiça” (Rom 6.12 ss).
Erros.
Por isso, condenamos todas as afirmações ímpias de alguns que fazem
mau uso da pregação do Evangelho e dizem: “É fácil retornar a Deus;
Cristo expiou todos os pecados: é fácil o perdão dos pecados;
portanto, que mal há em pecar? Nem precisamos estar muito
preocupados acerca do arrependimento, etc.” Não obstante, ensinamos
sempre que o acesso a Deus está aberto a todos os pecadores, e que
ele perdoa todos os pecados a todos os que crêem, exceto o pecado
contra o Espírito Santo (Mc 3.29).
As seitas.
Eis por que condenamos os antigos e modernos novacianos e os
cataristas.
Indulgências
papais. Condenamos, de modo especial, a doutrina lucrativa
do Papa sobre a penitência, e contra a sua simonia e as suas
indulgências simoníacas usamos o julgamento de São Pedro com
respeito a Simão: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois
julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus. Não tens parte nem
sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de
Deus” (At 8.20 ss).
Satisfações.
Não aprovamos também aqueles que pensam que, pelas suas satisfações,
reparam os pecados cometidos. Ensinamos que só Cristo, pela sua
morte ou paixão, é a satisfação, a propiciação ou a expiação de
todos os pecados (Is. cap. 53; I Co 1.30). Contudo, como já
dissemos, não cessamos de insistir na mortificação da carne. Mas
acrescentamos que essa mortificação não deve ser orgulhosamente
exaltada perante Deus como satisfação pelos pecados, mas deve ser
realizada humildemente, de conformidade com a natureza dos filhos de
Deus, como uma nova obediência resultante da gratidão pelo
livramento e pela satisfação plena obtidos pela morte e satisfação
do Filho de Deus.
15. Da verdadeira justificação dos fiéis
Que é
justificação? Segundo o apóstolo no seu tratamento da
justificação, justificar significa “perdoar pecados”, “absolver de
culpa e castigo”, “receber em graça” e “declarar justo”. Em sua
Epístola aos Romanos o apóstolo diz: “É Deus quem os justifica. Quem
os condenará?” (Rom 8.33). Justificar e condenar são termos opostos.
E nos Atos dos Apóstolos o apóstolo diz: “Tomai, pois, irmãos,
conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por
intermédio deste; e por meio dele todo o que crê é justificado de
todas as cousas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei
de Moisés” (At 13.38 ss). Na Lei, assim como nos Profetas, lemos:
“Em havendo contenda entre alguns, e vierem a juízo, os juizes os
julgarão, justificando ao justo e condenando ao culpado” (Deut
25.1). E em Is. cap. 5: “Ai dos que... por suborno justificam o
perverso”.
Somos
justificados por causa de Cristo. É absolutamente certo que
todos nós somos por natureza pecadores e ímpios, e diante do
tribunal de Deus somos acusados de impiedade e réus de morte, mas,
só pela graça de Cristo, sem qualquer mérito nosso ou consideração
por nós, somos justificados, isto é, absolvidos dos pecados e da
morte por Deus, o juiz. Que é, com efeito, mais claro do que o que
disse São Paulo? “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,
sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção
que há em Cristo Jesus” (Rom 3.23 ss).
A justiça
imputada. Cristo tomou sobre si mesmo e carregou os pecados
do mundo, e satisfez a justiça divina. Portanto, é só por causa dos
sofrimentos e ressurreição de Cristo que Deus é propício para com
nossos pecados e não no-los imputa, mas imputa-nos como nossa a
justiça de Cristo (II Co 5.19 ss; Rom 4.25), de modo que agora não
só estamos limpos e purificados de pecados ou somos santos, mas
também, sendo-nos dada a justiça de Cristo, e sendo nós assim
absolvidos do pecado, da morte ou da condenação, somos finalmente
justos e herdeiros da vida eterna. Propriamente falando, portanto,
só Deus justifica, e justifica somente por causa de Cristo, não nos
imputando os pecados, mas a sua justiça.
Somos
justificados somente pela fé. E porque recebemos esta
justificação, não por quaisquer obras, mas pela fé na misericórdia
de Deus e em Cristo, por isso ensinamos e cremos, com o apóstolo,
que o pecador é justificado somente pela fé em Cristo e não pela lei
ou por quaisquer obras. O apóstolo diz: “Concluímos, pois, que o
homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”
(Rom 3.28). Também: “Porque se Abraão foi justificado por obras, tem
de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois, que diz a
Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para
justiça... Mas ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica
ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rom 4.2 ss; Gén
15.6). E outra vez: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e
isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém
se glorie”, etc. (Ef 2.8 ss). Portanto, porque a fé recebe Cristo,
nossa justiça, e atribui tudo à graça de Deus em Cristo, por isso a
justificação é atribuída à fé, principalmente por causa de Cristo, e
não porque ela seja obra nossa, visto que é dom de Deus.
Recebemos
Cristo pela fé. Além disso, o Senhor mostra sobejamente que
recebemos Cristo pela fé, em João, cap. 6, onde ele usa comer por
crer, e crer por comer. Pois, como é comendo que recebemos o
alimento, assim é crendo que participamos de Cristo. A justificação
não é atribuída parcialmente a Cristo ou à fé, e parcialmente a nós.
Por conseguinte, não compartilhamos do benefício da justificação em
parte por causa da graça de Deus ou de Cristo, e em parte por causa
de nós mesmos, de nosso amor, de nossas obras ou de nosso mérito,
mas atribuímo-lo totalmente à graça de Deus em Cristo pela fé. Mas
também nosso amor e nossas obras não poderiam agradar a Deus, sendo
realizados por homens injustos: por isso, é necessário que sejamos
justos antes que possamos amar ou praticar obras justas. Somos
feitos verdadeiramente justos, como dissemos, pela fé em Cristo, só
pela graça de Deus, que não nos imputa os nossos pecados, mas a
justiça de Cristo, e por isso, ele nos imputa a fé em Cristo como
justiça. Ademais, o apóstolo mui claramente deriva da fé o amor,
quando diz: “Ora, o intuito da presente admoestação visa o amor que
procede de coração puro e de consciência boa e de fé sem hipocrisia”
(I Tim 1.5).
Tiago
comparado com Paulo. Por isso, aqui falamos, não de uma fé
imaginária, vã e inerte ou morta, mas de uma fé viva e vivificante,
a qual, por apreender a Cristo, que é vida e vivifica, é viva e se
chama “viva” e se mostra viva por obras vivas. E assim São Tiago não
contradiz coisa alguma nesta nossa doutrina. É que ele fala de uma
fé vã e morta, da qual alguns se vangloriavam, mas que não tinham
Cristo vivendo neles pela fé (Tiago 2.14 ss). São Tiago disse que as
obras justificam, contudo sem contradizer o apóstolo (do contrário
ele teria de ser rejeitado), mas mostrando que Abraão provou sua fé
viva e justificadora pelas obras. É isso o que fazem todos os
piedosos, confiados, porém, só em Cristo e não em suas próprias
obras. O apóstolo ainda diz: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo
vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no
Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não
anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se
que morre Cristo em vão”, etc. (Gal 2.20).
16. Da fé e das boas obras, e da sua recompensa, e do mérito do
homem
Que é a fé?
A fé cristã não é opinião e convicção humana, mas confiança
extremamente firme, e o claro e inabalável assentimento do espírito,
e finalmente a apreensão certíssima da verdade de Deus apresentadas
nas Escrituras e no Credo dos Apóstolos, assim como apreensão do
próprio Deus, o supremo bem, e especialmente da promessa de Deus e
de Cristo, que é o cumprimento de todas as promessas.
A fé é dom de
Deus. Mas esta fé é simplesmente um dom de Deus, que só ele
pela sua graça, segundo a sua medida, concede aos seus eleitos
quando, a quem e quanto ele quer. E ele realiza isso pelo Espírito
Santo, pela pregação do Evangelho e pela oração fiel.
O aumento da
fé. Essa fé pode também ser aumentada por Deus; se assim não
fosse, o apóstolo não teria dito: “Senhor: aumenta-nos a fé” (Luc
17.5). Tudo o que até aqui temos dito com respeito à fé, os
apóstolos ensinaram antes de nós. São Paulo disse: “Ora, a fé é
hypostasis ou a certeza das cousas que se esperam, a elegchos,
isto é, a convicção dos fatos que se não vêem” (Heb 11.1). E noutro
passo ele diz que todas as promessas de Deus são sim por Cristo, e
pelo mesmo Cristo são amém (II Co 1.20). E aos filipenses ele disse
que a eles lhes foi dado crer em Cristo (Fil 1.29). Noutro passo:
Deus concedeu a cada um a medida da fé (Rom 12.3). Noutro ainda:
“Nem todos têm fé” e, “Nem todos obedecem ao Evangelho” (II Tes 3.2;
Rom 10.16). Também Lucas atesta, dizendo: “Creram todos os que
haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). Eis porque
São Paulo também a chama “a fé dos eleitos de Deus” (Tit I.1 ), e
outra vez: “A fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de
Cristo” (Rom 10.17). Em outras partes, com freqüência, manda que os
homens orem pedindo fé.
Fé eficaz e
ativa. O mesmo apóstolo chama a fé “eficaz” e “que atua pelo
amor” (Gal 5.6). Ela também acalma a consciência e abre um livre
acesso para Deus, de modo que podemos aproximar-nos dele com
confiança e dele conseguir o que é útil e necessário. A mesma (fé)
conserva-nos no serviço que devemos a Deus e ao próximo,
fortalece-nos a paciência na adversidade, molda uma verdadeira
confissão e manifesta-a: numa palavra, produz bons frutos de todas
as espécies, e boas obras.
Das boas
obras. Ensinamos que as verdadeiras boas obras nascem de uma
fé viva, pelo Espírito Santo, e são praticadas pelos fiéis segundo a
vontade ou a regra da Palavra de Deus. Ora, o apóstolo São Pedro
diz: “Reunindo a vossa diligência, associai com a vossa fé a
virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o
domínio próprio”, etc. (II Ped 1.5 ss).
Dissemos acima que a Lei de Deus, que é sua vontade, estabelece para
nós o padrão de boas obras. E o apóstolo diz: “Pois esta é a vontade
de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição...
e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão” (I
Tes 4.3 ss).
Obras de
escolha humana. E na verdade, obras e cultos que escolhemos
por nosso arbítrio não são agradáveis a Deus. A estes São Paulo
denomina ethelothreskia (CI 2.23). Desses o Senhor diz no
Evangelho: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos
de homens” (Mat 15.9). Portanto, desaprovamos tais obras, mas
aprovamos e estimulamos aquelas que são da vontade e de mandado de
Deus.
O fim das
boas obras. Essas mesmas obras não devem ser praticadas
para, por meio delas, ganharmos a vida eterna pois, como diz o
apóstolo, a vida eterna é dom de Deus. Nem devem ser elas praticadas
por ostentação, o que o Senhor rejeita em Mat, cap. 6, nem para
lucro, o que também ele rejeita em Mat, cap. 23, mas para a glória
de Deus, para adornar a nossa vocação, para manifestar gratidão a
Deus e para benefício do próximo. É assim que Nosso Senhor diz no
Evangelho: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para
que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está
nos céus” (Mat S.16). E o apóstolo São Paulo diz: “Que andeis de
modo digno da vocação a que fostes chamados” (Ef 4.1). Ainda: “E
tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em acção, fazei-o em nome
do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Col 3.17); “Não
tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada
qual o que é dos outros” (Fil 2.4); “Que aprendam também a
distinguir-se nas boas obras, a favor dos necessitados, para não se
tornarem infrutíferos” (Tit 3.14).
As boas obras
não são rejeitadas. Portanto, embora ensinemos com o
apóstolo que o homem é justificado pela graça pela fé em Cristo e
não por quaisquer boas obras, contudo não menosprezamos nem
condenamos as boas obras. Sabemos que o homem não foi criado ou
regenerado pela fé, para viver ocioso, mas antes para fazer sem
cessar o que é bom e útil. No Evangelho o Senhor diz que uma árvore
boa produz bom fruto (Mat 12.33), e que aquele que nele permanece
produz muito fruto (João 15.5). O apóstolo diz: “Pois somos feitura
dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de
antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). E ainda: “O
qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda
iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu,
zeloso de boas obras” (Tit 2.14). Condenamos, portanto, todos os que
desprezam as boas obras e vivem a dizer que não precisamos dar
atenção a elas e que elas são inúteis.
Não somos
salvos pelas boas obras. Entretanto, como foi dito acima,
não julgamos que somos salvos pelas boas obras nem que elas sejam
necessárias para a salvação, de modo que sem elas ninguém já tenha
sido salvo. Pois somos salvos somente pela graça e pelo favor de
Cristo. As obras procedem, necessariamente, da fé. A salvação é
impropriamente atribuída a elas; ao passo que é com absoluta
propriedade que ela é atribuída à graça. É bem conhecida a
declaração do apóstolo: “E se é pela graça, já não é pelas obras; do
contrário, a graça já não é graça” (Rom 11.6).
As boas obras
agradam a Deus. As obras que praticamos pela fé são
agradáveis a Deus e são por ele aprovadas. Por causa da fé em
Cristo, aqueles que praticam boas obras, que sobretudo pelo Espírito
Santo são praticadas pela graça de Deus, são agradáveis a Deus. São
Pedro diz: “Em qualquer nação, aquele que teme e faz o que é justo
lhe é aceitável” (At 10.35). E São Paulo diz: “Não cessamos de orar
por vós... a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu
inteiro agrado, frutificando em toda boa obra” (Col 1.9 ss).
Ensinamos as
verdadeiras virtudes, não as falsas e filosóficas. Assim,
zelosamente ensinamos as verdadeiras virtudes, não as falsas ou
filosóficas, as verdadeiramente boas obras e os genuínos serviços de
um cristão. E tanto quanto podemos, diligente e insistentemente as
inculcamos a todos os homens, censurando ao mesmo tempo a desídia e
hipocrisia dos que com os lábios louvam e professam o Evangelho e o
desonram pelas suas vidas ignominiosas. Nesta questão, pomos diante
deles as terríveis ameaças de Deus, bem como as suas ricas promessas
e generosas recompensas - exortando, consolando e repreendendo.
Deus
recompensa as boas obras. Ensinamos que Deus dá uma rica
recompensa aos que praticam boas obras, segundo a palavra do
profeta: “Reprime a tua voz de choro... porque há recompensa para as
tuas obras” (Jer 31.16; Is. cap. 4). Também o Senhor disse no
Evangelho: “Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso
galardão nos céus” (Mat 5.12), e “Quem der a beber ainda que seja um
copo de água fria, a um destes pequeninos ... em verdade vos digo
que de modo algum perderá o seu galardão” (cap. 10.42). Atribuímos,
entretanto, esta recompensa, que o Senhor dá, não ao mérito do homem
que a recebe, mas à bondade ou generosidade e veracidade de Deus,
que a promete e a dá, e que, embora não deva nada a ninguém, contudo
prometeu que dará recompensa a seus fiéis adoradores; mas ele lhes
dá para que eles o adorem. Além disso, mesmo nas obras dos santos há
muitas coisas indignas de Deus e muitas mais que são imperfeitas.
Mas, porque Deus recebe em graça e acolhe os que praticam obras por
amor a Cristo, confere-lhes a prometida recompensa. A assim que em
outro contexto as nossas justiças são comparadas a “trapo de
imundícia” (Is 64.6). Também o Senhor diz no Evangelho: “Vós, depois
de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos
inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Luc 17.10).
Os méritos
dos homens são nulos. Portanto, embora ensinemos que Deus
recompensa as nossas boas ações, todavia ensinamos, ao mesmo tempo,
com Santo Agostinho, que Deus não coroa em nós os nossos méritos,
mas os seus dons. Por isso dizemos, que qualquer recompensa que
recebemos é também graça, e é mais graça que recompensa, porque o
bem que fazemos, fazemo-lo mais por Deus do que por nós mesmos, e
porque São Paulo diz: “Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o
recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?”
(I Co 4.7). E isto é o que o bendito mártir São Cipriano concluiu
deste verso: Não devemos gloriar-nos de coisa alguma em nós, visto
que nada é propriamente nosso. Condenamos, portanto, os que defendem
os méritos dos homens, de modo a esvaziar a graça de Deus.
17. Da Igreja de Deus, santa e católica, e do único Cabeça da
Igreja.
A Igreja
sempre existiu e sempre existirá. Visto que Deus desde o
princípio quis salvar os homens e trazê-los ao conhecimento da
verdade (I Tim 2.4), é absolutamente necessário que a Igreja tenha
existido no passado, exista agora e continue até o fim do mundo.
Que é a
Igreja. A Igreja é a assembléia dos fiéis convocada ou
reunida do mundo: é, direi, a comunhão de todos santos, isto é, dos
que verdadeiramente conhecem, adoram corretamente e servem o
verdadeiro Deus em Cristo, o Salvador, pela palavra e pelo Espírito
Santo, e que, finalmente, participam, pela fé, de todos os
benefícios gratuitamente oferecidos mediante Cristo. Cidadãos de uma
comunidade. São todos eles cidadãos de uma só cidade, vivem sob o
mesmo Senhor, sob as mesmas leis, e na mesma participação de todos
os benefícios. O apóstolo os chamou “concidadãos dos santos, e... da
família de Deus” (Ef 2.19), denominando “santos” os fiéis na terra
(I Co 4.1), que são santificados pelo sangue do filho de Deus. Deve
ser entendido inteiramente com relação a estes santos o artigo do
Credo: “Creio na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos”.
Uma só Igreja
em todos os tempos. E, visto que há sempre um só Deus e um
só Mediador entre Deus e os homens, Jesus o Messias, e um só Pastor
de todo o rebanho, uma só Cabeça deste corpo, enfim, um só Espírito,
uma só salvação, uma só fé, um só testamento ou aliança, segue-se,
necessariamente, que existe uma só Igreja. A Igreja Católica. Por
isso chamamos “católica” e essa Igreja, porque é universal, e se
espalha por todas as partes do mundo, estende-se por todos os tempos
e não é limitada pelo tempo ou pelo espaço. Condenamos, portanto, os
donatistas, que confinavam a Igreja a não sei que cantos da África,
e não aprovamos o clero romano, que vive a propalar que só a Igreja
de Roma é Católica.
Partes ou
formas da Igreja. A Igreja divide-se em diferentes partes ou
formas, não por estar dividida ou rasgada em si mesma, mas por ser
distinta pela diversidade dos seus membros. Militante e triunfante.
Uma é chamada a Igreja Militante e a outra a Igreja Triunfante. A
primeira ainda milita na terra e luta contra a carne, o mundo e o
Diabo, que é o príncipe deste mundo, e contra o pecado e a morte. A
outra, já deu baixa e triunfa no céu depois de ter vencido esses
inimigos, e exulta diante do Senhor. Entretanto, essas duas igrejas
têm comunhão e união uma com a outra.
A Igreja
particular. A Igreja Militante na terra tem tido, sempre,
muitas igrejas particulares. Contudo, todas estas devem ser
referidas à unidade da Igreja católica. Esta Igreja (Militante) foi
estabelecida de um modo antes da Lei, entre os patriarcas, de outro
modo diferente sob Moisés, pela Lei; e de modo diferente por Cristo,
por meio do Evangelho.
Os dois povos.
Em geral se mencionam dois povos: os israelitas e os gentios, ou
aqueles que foram congregados de entre judeus e gentios na Igreja.
Há, também, dois Testamentos, o Velho e o Novo. A mesma Igreja para
o velho e o novo povo. No entanto, de todos esses povos foi e ainda
é só uma a comunidade, uma só a salvação num só Messias, em quem,
como membros de um só corpo, sob um só Cabeça, todos estão unidos na
mesma fé, participando também do mesmo alimento e da mesma bebida
espiritual. Aqui, porém, reconhecemos uma diversidade de tempos e
uma diversidade nos sinais do Messias prometido e manifestado;
agora, abolidas as cerimônias, a luz brilha sobre nós de maneira
mais clara, e bênçãos nos são dadas mais abundantemente, e uma
liberdade mais completa.
A Igreja,
casa do Deus vivo. Esta santa Igreja de Deus é chamada a
casa do Deus vivo, construída de pedras vivas e espirituais e
fundada sobre uma rocha firme, sobre fundamento que ninguém tem o
direito de substituir por um outro, e é, assim chamada “coluna e
baluarte da verdade” (I Tim 3.15). A Igreja não erra. Ela não erra,
enquanto se apóia sobre a rocha, Cristo, e sobre o fundamento dos
profetas e apóstolos. E não é de admirar se ela errar, todas as
vezes que abandonar aquele que, só, é a verdade. A Igreja noiva e
virgem. A Igreja é também chamada virgem e a noiva de Cristo e, em
verdade, única e dileta. O apóstolo diz: “Tenho-vos preparado para
vos apresentar como virgem pura a um esposo” (II Co II.2). A Igreja,
rebanho de ovelhas. A Igreja é chamada rebanho sob um só pastor,
Cristo, segundo Ez, cap. 34, e João, cap. 10. A Igreja corpo de
Cristo. É chamada também corpo de Cristo, porque os fiéis são os
membros vivos de Cristo, sob Cristo, o Cabeça.
Cristo o
único cabeça da Igreja. É a cabeça que tem a preeminência no
corpo, e dela o corpo todo recebe vida; pelo seu espírito o corpo é
em tudo governado; dela, ainda, o corpo recebe incremento e
crescimento. Mais ainda, há uma só cabeça do corpo a qual com ele se
ajusta. Por isso a Igreja não pode ter nenhuma outra cabeça além de
Cristo. Como a Igreja é um corpo espiritual, ela precisa ter também
uma cabeça espiritual em harmonia consigo mesma. Não pode ser
governada por outro espírito que não seja o Espírito de Cristo. Por
conseguinte, São Paulo diz: “Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele
é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as
cousas ter a primazia” (Col 1.18). E em outro lugar: “Cristo é o
cabeça da igreja, sendo este mesmo salvador do corpo” (Ef 5.23). E
novamente: Ele é “o cabeça sobre todas as cousas, e o deu à igreja,
a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas
as cousas” (Ef 1.22 ss). Também: “Cresçamos em tudo naquele que é o
cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado...
efetua o seu próprio aumento” (Ef 4.15 ss). Por isso não aprovamos a
doutrina do clero romano, que faz do seu Pontífice Romano o pastor
universal, o cabeça supremo da Igreja Militante aqui na terra, e
assim o próprio vigário de Jesus Cristo, que tem, como eles dizem,
toda a plenitude de poder e soberana autoridade na Igreja. Cristo o
único pastor da Igreja. Ensinamos que Cristo, nosso Senhor, é e
continua a ser o único pastor universal e sumo Pontífice diante de
Deus seu Pai, e que na Igreja ele mesmo realiza todas as funções de
um pontífice ou pastor, até o fim do mundo; [VIGÁRIO] e,
conseqüentemente, não necessita de vigário, que é substituto de quem
está ausente. Mas Cristo está presente com sua Igreja e é sua cabeça
vivificadora. Nenhum primado na Igreja. Ele proibiu, com toda a
severidade, aos seus apóstolos e sucessores qualquer veleidade de
primado e domínio na Igreja. Portanto, todos os que resistem,
opondo-se a essa verdade transparente, e introduzem outro governo na
Igreja de Cristo devem ser ligados àqueles, a respeito de quem
profetizam os apóstolos de Cristo, São Pedro e São Paulo, em II Ped
cap. 2, e Act 20.2, II Co 11.2, II Tes, cap. 2, assim como em outros
passos.
Nenhuma
confusão na Igreja. Contudo, repudiando o cabeça romano, não
introduzimos na Igreja de Cristo nenhuma confusão ou perturbação,
pois ensinamos que o governo da Igreja, estabelecido pelos
apóstolos, nos é suficiente para conservar a Igreja na devida ordem.
No princípio, quando a Igreja não tinha esse chefe romano, que hoje,
como se diz, a conserva em ordem, não estava em confusão ou
desordenada. O chefe romano preserva, na verdade, a sua tirania e a
corrupção que foi introduzido na Igreja; e, ao mesmo tempo, ele
impede, resiste e, com todas as suas forças, arruína a conveniente
reforma da Igreja.
Dissentimento
e luta na Igreja. Objetam-nos que tem havido várias lutas e
dissenssões em nossas Igrejas desde que se separaram da Igreja
Romana, e que por isso elas não podem ser igrejas verdadeiras. Como
se nunca tivesse havido seitas na Igreja Romana, nem dissenssões e
lutas a respeito de religião, e na verdade presentes não tanto nas
escolas como nos púlpitos no meio do povo. Sabemos, certamente, que
o apóstolo disse: “Deus não é de confusão; e, sim, de paz” (I Co
14.33). E: “porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é
assim que sois carnais?” Contudo, não podemos negar que Deus estava
na Igreja apostólica e que a Igreja apostólica era Igreja
verdadeira, não obstante a existência de combates e dissensões nela.
O apóstolo São Paulo repreendeu o apóstolo São Pedro (Gal 2.11 ss),
e Barnabé divergiu de Paulo. Grande luta surgiu na Igreja de
Antioquia entre os que pregavam o único Cristo, como Lucas registra
nos Atos dos Apóstolos, cap. 15. E tem havido, em todos os tempos,
graves lutas na Igreja, e os mais eminentes doutores da Igreja
divergiram de opinião entre si acerca de importantes assuntos, sem,
no entanto, a Igreja deixar de ser aquilo que ela era, por causa de
tais contendas. Pois, dessa forma, é do agrado de Deus usar as
dissensões que surgem na Igreja para a glória do seu nome, para
elucidar a verdade e para que os que são aprovados sejam
manifestados (I Co 11.19).
Marcas ou
sinais da verdadeira Igreja. Ademais, visto que não
reconhecemos nenhum outro chefe da Igreja a não ser Cristo, de igual
modo não reconhecemos como a verdadeira Igreja qualquer Igreja que
se vangloria de o ser; ensinamos, no entanto, que a verdadeira
Igreja é aquela em que se encontram as marcas ou sinais da
verdadeira Igreja, principalmente a legítima e sincera pregação da
palavra de Deus como nos foi deixada nos escritos dos profetas e
apóstolos, que nos conduzem todos nós a Cristo, que no Evangelho
disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas
me seguem. Eu lhes dou a vida eterna... De modo nenhum seguirão o
estranho, antes fugirão dele porque não conhecem a voz dos
estranhos” (João 10.5, 27, 28).
E aqueles que são
assim na Igreja de Deus têm uma fé e um espírito; e por isso adoram
o único Deus e só a ele cultuam em espírito e verdade, só a ele
amando de todo o coração e de todas as suas forças, só a ele orando
por meio de Jesus Cristo, o único Mediador e Intercessor; e não
buscam nenhuma justiça e vida fora de Cristo e da fé nele. Pelo fato
de reconhecerem a Cristo como o único chefe e fundamento de sua
Igreja, apoiando-se nele, renovam-se diariamente pelo arrependimento
e, com paciência, carregam a cruz imposta a eles. Além disso,
congregados juntos com todos os membros de Cristo por um amor não
fingido, revelam que são discípulos de Cristo perseverando no
vínculo da paz e da santa unidade. Ao mesmo tempo participam dos
sacramentos instituídos por Cristo e a nós entregues pelos seus
apóstolos, não os usando de nenhuma outra maneira a não ser como os
receberam do próprio Senhor. Aquela palavra do apóstolo São Paulo é
bem conhecida de todos: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos
entreguei” (I Co 11.23 ss). Por causa disso, condenamos como
alienadas da verdadeira Igreja de Cristo todas aquelas igrejas que
não são como ouvimos que devem ser, a despeito do muito que se
jactam de uma sucessão de bispos, de unidade e de antiguidade. Além
do mais, temos a advertência dos apóstolos de Cristo, para que
fujamos da idolatria e de Babilônia (I Co 10.14; I João 5.21), e não
tenhamos parte com ela se não queremos ser participantes das pragas
de Deus (Apoc 18.4; II Co 6.17).
Fora da
Igreja de Deus não há salvação. Consideramos a comunhão com
a verdadeira Igreja de Cristo coisa tão elevada que negamos que
possa viver perante Deus aqueles que não estiverem em comunhão com a
verdadeira Igreja de Deus, mas dela se separam. Pois, como não havia
salvação fora da arca de Noé, quando o mundo perecia no dilúvio,
igualmente cremos que não há salvação certa e segura fora de Cristo,
que se oferece para o bem dos eleitos na Igreja; e por isso
ensinamos que os que querem viver não podem separar-se da Igreja de
Cristo.
A Igreja não
está limitada aos seus sinais. Entretanto, pelos sinais
acima mencionados, não restringimos a Igreja ao ponto de ensinarmos
que estão fora dela todos aqueles que ou não participam dos
sacramentos, pelo menos não voluntariamente ou por desprezo, mas
antes, forçados pela necessidade, involuntariamente se abstêm deles
ou deles são privados, ou em quem a fé algumas vezes falha, embora
não seja inteiramente extinta e não cesse de todo; ou em quem se
encontram as imperfeições e erros devidos à fraqueza. Sabemos que
Deus teve alguns amigos no mundo fora da comunidade de Israel.
Sabemos do que aconteceu ao povo de Deus no cativeiro da Babilônia,
onde foram privados dos seus sacrifícios por setenta anos. Sabemos o
que aconteceu a São Pedro, que negou o Mestre, e o que costuma
acontecer diariamente aos eleitos de Deus e às pessoas fiéis que se
desviam e são fracas. Sabemos, mais, que tipo de igrejas eram as
existentes na Galácia e em Corinto nos dias dos apóstolos, nas quais
o apóstolo encontrou muitos e sérios pecados; apesar disso ele as
chama santas igrejas de Cristo (I Co 1.2; Gal 1.2).
A Igreja às
vezes parece estar extinta. Sim, muitas vezes acontece que
Deus, em seu justo juízo, permite que a verdade da sua Palavra, a fé
católica e o culto verdadeiro de Deus sejam de tal forma
obscurecidos e deformados, que a Igreja parece quase extinta e não
mais existir, como vemos ter acontecido nos dias de Elias (I Reis
19.10, 14), e em outras ocasiões. Não obstante, Deus tem, neste
mundo e nestas trevas, os seus verdadeiros adoradores, que não são
poucos, chegando mesmo a sete mil e mais (I Reis 19.18, Apoc 7.4,
9). Pois o apóstolo exclama: “O firme fundamento de Deus permanece,
tendo este selo, ‘O Senhor conhece os que lhe pertencem’”, etc. (II
Tim 2.19). Vem daí que pode a Igreja de Deus ser designada
invisível; não que os homens dos quais ela é formada sejam
invisíveis, mas porque, estando oculta de nossos olhos e sendo
conhecida só de Deus, ela às vezes secretamente foge ao juízo
humano.
Nem todos os
que estão na Igreja são da Igreja. Por outro lado, nem todos
os que são contados no número da Igreja são santos ou membros vivos
e verdadeiros da Igreja. Pois há muitos hipócritas que externamente
ouvem a palavra de Deus e publicamente recebem os sacramentos, e
parecem invocar a Deus somente por meio de Cristo, confessar que
Cristo é a sua única justiça, e adorar a Deus e exercer os deveres
de caridade e por algum tempo suportar com paciência as desgraças.
E, não obstante, interiormente, estão completamente destituídos da
verdadeira iluminação do Espírito, de fé e de sinceridade de
coração, e de perseverança até o fim. Mas finalmente o caráter
destes homens, em sua maior parte, será manifestado. O apóstolo São
João diz: “Eles saíram de nosso meio, mas não eram dos nossos;
porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (I
João 2.19). Todavia, conquanto simulem piedade, não são da Igreja,
ainda que sejam considerados estarem na Igreja, exatamente como os
traidores numa república estão incluídos no número de seus cidadãos,
antes que sejam descobertos; e, como o joio e a palha se encontram
no trigo, e como inchaços e tumores se acham no corpo sadio, quando
ao contrário são doenças e deformidades e não genuínos membros do
corpo. E assim a Igreja de Deus é muito adequadamente comparada a
uma rede que retira peixes de todas as espécies, e a um campo no
qual se encontram joio e trigo (Mat 13.24 ss, 47 ss).
Não devemos
julgar irrefletida e prematuramente. Conseqüentemente,
devemos ser muito cuidadosos, não julgando antes da hora, nem
tentando excluir e rejeitar ou separar aqueles aos quais o Senhor
não quer excluídos nem rejeitados, e nem aqueles que não podemos
eliminar sem prejuízo para a Igreja. Por outro lado, devemos estar
vigilantes para que, enquanto os piedosos ressonam, os ímpios não
ganhem terreno e causem mal à Igreja.
A unidade da
Igreja não consiste em ritos externos. Além disso,
diligentemente ensinamos que se deve tomar grande cuidado naquilo em
que consistem de modo especial a verdade e a unidade da Igreja, para
não provocarmos nem alimentarmos cismas na Igreja, irrefletidamente.
A unidade não consiste em cerimônias e ritos externos, mas antes na
verdade e unidade da fé católica. A fé católica não nos é
transmitida pelas leis humanas, mas pelas Santas Escrituras, das
quais é um resumo o Credo Apostólico. E, assim, lemos nos escritores
antigos que havia grande diversidade de cerimônias, mas que eram
livres e ninguém jamais pensava que a unidade da Igreja era, desse
modo, dissolvida. Assim, ensinamos que a verdadeira harmonia da
Igreja consiste em doutrinas e na verdadeira e unânime pregação do
Evangelho de Cristo, nos ritos que foram expressamente transmitidos
pelo Senhor. E aqui insistimos na palavra do apóstolo: “Todos, pois,
que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se porventura
pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia,
andemos de acordo com o que já alcançamos” (Fil 3.11 ss).
18. Dos ministros da Igreja, sua instituição e deveres
Deus usa
ministros na edificação da Igreja. Deus sempre usou
ministros para reunir ou estabelecer para si a Igreja, e para o
governo e preservação da mesma; e ainda os usa e sempre os usará,
enquanto a Igreja permanecer na terra. Portanto, a origem, a
instituição e o ofício de ministros é uma ordenação muito antiga de
Deus mesmo e não inovação de homens. Instituição e origem de
ministros. É verdade que Deus poderia, pelo seu poder, sem qualquer
meio, congregar para si mesmo uma Igreja de entre os homens; mas ele
preferiu tratar com os homens pelo ministério de homens. Por isso os
ministros devem ser considerados não como ministros apenas por si
mesmos, mas como ministros de Deus, visto que por meio deles Deus
realiza a salvação de homens.
O ministério
não deve ser depreciado. Por essa razão, chamamos a atenção
dos homens para que tomem cuidado para não atribuirmos o que diz
respeito à nossa conversão e instrução ao poder secreto do Espírito
Santo, fazendo pouco do ministério eclesiástico. Pois convém termos
sempre em mente as palavras do apóstolo: “Como, porém, invocarão
aquele
em que não creram?
e como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não
há quem pregue? ... E assim, a fé vem pela pregação e a pregação
pela palavra de Cristo” (Rom 10.14, 17). E também o que o Senhor
disse no Evangelho: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem recebe
aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe
aquele que me enviou” (João 13.20). De igual modo, um homem da
Macedônia, que apareceu numa visão a São Paulo, enquanto este se
encontrava na Ásia, secretamente o admoestou dizendo: “Passa à
Macedônia, e ajuda-nos” (At 16.9). E em outro lugar o mesmo apóstolo
diz: “Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício
de Deus sois vós” (I Co 3.9).
Por outro lado, no
entanto, devemos precaver-nos para não atribuirmos demasiado aos
ministros e ao ministério; aqui também lembrando-nos das palavras de
nosso Senhor no Evangelho: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me
enviou não o trouxer” (João 6.44), e as palavras do apóstolo: “Quem
é Apolo? e quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto
conforme o Senhor concedeu a cada um ... Eu plantei, Apolo regou;
mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é
alguma cousa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento” (I Co
3. 5, 7). Deus move os corações dos homens. Então, creiamos que Deus
nos ensina pela sua palavra, externamente por meio dos seus
ministros e internamente move os corações dos seus eleitos à fé pelo
seu Espírito Santo; e que, portanto, devemos atribuir a Deus toda a
glória de todo este benefício. Mas deste assunto já tratamos no
primeiro capítulo desta Explanação.
Quem são os
ministros e de que sorte são os que Deus deu ao mundo. E em
verdade desde o princípio do mundo Deus usou os mais eminentes
homens no mundo inteiro (ainda que muitos deles fossem simples na
sabedoria terrena ou na filosofia, no entanto na verdadeira teologia
eram excelentes), a saber, os patriarcas, com os quais ele falou
freqüentemente pelos anjos. Pois os patriarcas eram os profetas e
mestres dos seus dias, aos quais, por essa razão, quis Deus que
vivessem por vários séculos, para que fossem, por assim dizer pais e
luzes do mundo. Foram seguidos por Moisés e os profetas famosos pelo
mundo inteiro.
Cristo o
mestre. Depois destes o Pai celestial enviou o seu Filho
unigênito, o mais perfeito mestre do mundo, em quem está escondida a
sabedoria de Deus, a qual veio até nós através da mais santa,
simples e perfeita de todas as doutrinas. Ele escolheu discípulos
para si mesmo, aos quais fez apóstolos. Estes saíram por todo o
mundo e em toda parte congregaram igrejas pela pregação do
Evangelho, e depois ordenaram pastores ou mestres (doutores) em
todas as igrejas do mundo, segundo o mandamento de Cristo; mediante
seus sucessores ele ensinou e governou a Igreja até hoje. Portanto,
como Deus deu ao seu povo antigo os patriarcas, juntamente com
Moisés e os profetas, assim também ao seu povo do Novo Testamento
ele enviou seu Filho unigênito e, com ele, os apóstolos e doutores
da Igreja.
Ministros do
Novo Testamento. Além disso, os ministros do novo povo são
designados por diversos nomes. São chamados apóstolos, Profetas,
evangelistas, bispos, anciãos, pastores e mestres (I Co 12.28; Ef
4.11). Os apóstolos. Os apóstolos não permaneciam num lugar
determinado, mas por todo o mundo iam congregando diversas igrejas.
Uma vez estas estabelecidos, deixou de haver apóstolos, e, em seu
lugar, apareceram pastores, cada um em sua igreja. Profetas. Nos
primeiros tempos eram videntes, conhecendo o futuro; mas também
interpretavam as Escrituras. Tais homens são encontrados também
hoje. Evangelistas. Os escritores da história evangélica eram
chamados Evangelistas; mas eram também arautos do Evangelho de
Cristo; como o apóstolo São Paulo ordena a Timóteo: “Faze o trabalho
de evangelista” (II Tim 4.5). Bispos. Bispos são os supervisores e
vigias da Igreja, que administram o alimento e outras necessidades
da vida da Igreja. Presbíteros. Os presbíteros são os anciãos e, por
assim dizer, os senadores e pais da Igreja, governando-a com sadio
conselho. Pastores. Os pastores não só guardam o rebanho do Senhor,
como também providenciam as coisas necessárias a ele. Mestres. Os
mestres instruem e ensinam a verdadeira fé e piedade. Portanto, os
ministros da Igreja podem, agora, ser chamados bispos, anciãos,
pastores e mestres.
Ordens dos
papistas. Com o passar o tempo, muitas outras designações de
ministros na Igreja foram introduzidas na Igreja de Deus. Alguns
foram ordenados patriarcas, outros arcebispos, outros sufragâneos;
também metropolitanos, arquidiáconos, diáconos, subdiáconos,
acólitos, exorcismas, cantores, porteiros e não sei quantos outros,
como cardeais, reitores e priores; abades maiores e menores; ordens
mais elevadas e inferiores. Não estamos preocupados, porém, acerca
de todas estas, de como foram uma vez e são agora. Basta-nos a
doutrina apostólica no que concerne aos ministros.
A respeito
dos monges. Como sabemos com certeza que os monges e as
ordens, ou seitas de monges, não são instituídas nem por Cristo, nem
pelos apóstolos, ensinamos que elas nada valem para a Igreja de
Deus; antes são perniciosas. Pois, embora anteriormente fossem
toleráveis - quando eram solitários, ganhando a vida com suas
próprias mãos, e não eram carga para ninguém e, como os leigos, eram
por toda parte obedientes aos pastores das igrejas - agora, porém, o
mundo todo vê e sabe a que são semelhantes. Eles formulam não sei
que votos; mas levam vida totalmente contrária aos seus votos, de
modo que os melhores deles merecem ser incluídos entre aqueles de
quem o apóstolo fala: “Estamos informados de que entre vós há
pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando” etc. (II Tes
3.11 ). Portanto, não temos tais pessoas em nossas igrejas, nem
ensinamos que devem existir nas igrejas de Cristo.
Os ministros
devem ser chamados e eleitos. Ninguém deve usurpar a honra
do ministério eclesiástico; isto é, apoderar-se dele por suborno ou
quaisquer enganos, ou por sua própria escolha. Que os ministros da
Igreja sejam chamados e eleitos por eleição legal e eclesiástica;
isto é, que sejam eleitos escrupulosamente pela Igreja ou por
aqueles que dela receberam delegação para tal fim, na devida ordem,
sem qualquer tumulto, divisões ou rivalidade. Não se eleja qualquer
um, mas homens idôneos, que se distingam por suficiente cultura
sagrada, piedosa eloqüência, sabedoria simples, e por fim, pela
moderação e reputação honrada, segundo a regra apostólica fixada
pelo apóstolo em I Tim, cap. 3, e Tit, cap. 1.
Ordenação.
E os que foram eleitos sejam ordenados pelos anciãos com orações
públicas e imposição das mãos. Aqui condenamos todos quantos
concorrem por conta própria, não sendo nem escolhidos, nem enviados,
nem ordenados (Jer. cap. 23). Condenamos os ministros ineptos e os
desprovidos dos dons necessários a um pastor.
Ao mesmo tempo,
reconhecemos que a inocente simplicidade de certos pastores na
Igreja Antiga por vezes aproveitou mais à Igreja do que a erudição
multiforme, refinada e elegante mas demasiado infatuada de outros.
Por esse motivo não rejeitamos, nem mesmo hoje, a simplicidade
honesta de alguns, que não é, porém, de modo algum ignorante.
O sacerdócio
de todos os crentes. Sem dúvida, os apóstolos de Cristo
designam todos os que crêem em Cristo como “sacerdotes”, não por
causa de qualquer ofício, mas porque, por Cristo, todos os fiéis,
feitos reis e sacerdotes, podemos oferecer sacrifícios espirituais a
Deus (Êx 19.6; I Ped 2.9; Apoc 1.6). Portanto, o sacerdócio e o
ministério são bem diferentes um do outro. O sacerdócio, como
acabamos de dizer, é comum a todos os cristãos; o mesmo não acontece
com o ministério. Nem abolimos o ministério da Igreja pelo fato de
termos repudiado o sacerdócio papístico da Igreja de Cristo.
Sacerdotes e
sacerdócio. Sem dúvida nenhuma, na nova aliança de Cristo
não existe mais essa forma de sacerdócio como existia entre o povo
antigo; o qual incluía unção externa, roupagens santas e inúmeras
cerimônias que eram tipos de Cristo, que aboliu tudo isso pela sua
vinda e cumprimento desses tipos. Mas ele mesmo permanece o único
sacerdote para sempre e para não subtrairmos qualquer coisa dele,
não chamamos sacerdote a nenhum dos ministros. Pois o próprio Senhor
nosso não nomeou nenhum sacerdote na Igreja do Novo Testamento, que,
tendo recebido autoridade do sufragâneo, ofereçam sacrifício
diariamente, isto é, a própria carne e sangue do Senhor, pelos vivos
e mortos, mas ministros que ensinem e administrem os sacramentos.
A natureza
dos ministros do Novo Testamento. São Paulo expõe de modo
simples e conciso o que devemos pensar dos ministros do Novo
Testamento ou da Igreja Cristã, e o que devemos atribuir-lhes:
“Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de
Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus” (I Co 4.1). Por isso,
o apóstolo quer que estimemos os ministros como ministros. Ora, o
apóstolo os chamou hyperétas, “remadores”, que têm os olhos
fixos unicamente no timoneiro, e são, assim, homens que não vivem
para si mesmos ou segundo sua própria vontade, mas para os outros -
a saber, para os seus senhores, de cujas ordens dependem
inteiramente. Pois em todos os seus deveres todo ministro da Igreja
recebe ordens, não de satisfazer a sua vontade, mas de executar
apenas o que está nos mandamentos recebidos do seu Senhor. E neste
caso declarasse, expressamente, quem é o Senhor, isto é, Cristo, a
quem os ministros estão sujeitos em todas as questões do ministério.
Os ministros,
despenseiros dos mistérios de Deus. Contudo, para explicar
mais completamente o ministério, o apóstolo acrescenta que os
ministros da Igreja são ecónomos ou despenseiros dos
mistérios de Deus. Ora, em muitas passagens, especialmente em
Efésios, cap. 3, São Paulo chamou “mistérios de Deus” ao Evangelho
de Cristo. E os escritores antigos também chamaram “mistérios” aos
sacramentos de Cristo. Assim, é para isto que os ministros da Igreja
são vocacionados - para pregarem o Evangelho de Cristo aos fiéis e
para administrarem os sacramentos. Lemos, ainda, em outro lugar do
Evangelho, a respeito do “mordomo fiel e prudente” a quem “o senhor
confiará os seus conservas para dar-lhes o sustento a seu tempo”
(Luc 12.42). Além disso, em outra passagem do Evangelho, um homem
parte de viagem para um pais estrangeiro e, deixando sua casa, passa
os seus bens e a sua autoridade nesta a seus servos, dando a cada um
a sua tarefa.
Do poder dos
ministros da Igreja. Agora, pois, convém falarmos algo
também acerca do poder e do dever dos ministros da Igreja. Sobre
esse poder alguns têm discutido diligentemente, e a ele sujeitaram
tudo o que há de supremo valor na terra, e o fizeram contrariamente
ao mandamento do Senhor, que proibiu aos seus discípulos o domínio e
recomendou com insistência a humildade (Luc 22.
24 ss; Mat 18.3 ss; 20.25 ss). Há, na verdade, outro poder
que é simples e absoluto, chamado o poder do direito. Segundo esse
poder, todas as coisas do mundo inteiro estão sujeitas a Cristo, o
Senhor, como ele mesmo declarou, dizendo: “Toda a autoridade me foi
dada no céu e na terra” (Mat 28.18). E ainda: “Eu sou o primeiro e o
último, e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo
pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e do inferno”
(Apoc 1.18). Igualmente: “... aquele que tem a chave de David, que
abre e ninguém fechará, e que fecha e ninguém abre” (Apoc 3.7).
O Senhor
reserva para si o verdadeiro poder. Esse poder o Senhor o
reserva para si, e não o transfere a nenhum outro, ficando ao lado
ocioso, como espectador, enquanto os seus ministros trabalham. É
Isaías que diz: “Porei sobre o seu ombro a chave da casa de David”
(Is 22.22). E outra vez: “O governo está sobre os seus ombros” (Is
9.6). Ele não lança o governo sobre os ombros de outros homens, mas
ainda conserva e usa o seu próprio poder, governando todas as
coisas.
O poder do
ofício e o ministerial. Entretanto, há outro poder, o do
oficio, ou poder ministerial, limitado por aquele que usa do poder
pleno. E este é mais semelhante a um ministério do que a um império.
As chaves. Um senhor concede poder ao seu mordomo e para isso
dá-lhes as chaves, com as quais ele introduz na casa ou dela exclui
quem o seu senhor gostaria de introduzir ou excluir. Em virtude
desse poder o ministro, pelo seu oficio, realiza aquilo que o Senhor
ordenou que ele fizesse, e o Senhor confirma aquilo que ele faz e
deseja que o que o seu servo fez seja considerado e reconhecido como
se ele mesmo o tivesse feito. Indubitavelmente, é a isto que se
referem estas sentenças evangélicas: “Dar-te-ei as chaves do reino
dos céus: o que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e o que
desligares na terra, terá sido desligado nos céus” (Mat 16.19).
Ainda: “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se
lhos retiverdes, são retidos” (João 20.23). Mas, se o ministro não
agir em todas as coisas como o Senhor lhe ordenou, mas transgredir
os limites da fé, então o Senhor certamente invalida aquilo que ele
fez. Eis por que o poder eclesiástico dos ministros da Igreja é
aquela função pela qual eles de fato governam a Igreja de Deus, mas
fazem todas as coisas na Igreja como o Senhor as ordenou em sua
Palavra. Quando essas coisas são feitas, os fiéis as consideram como
feitas pelo próprio Senhor. Quanto às chaves, delas já se fez acima
uma menção.
O poder dos
ministros é um e o mesmo em todos. Ora, o mesmo e igual
poder ou função é concedido a todos os ministros na Igreja.
Certamente, no princípio os bispos ou presbíteros governavam a
Igreja em comum; nenhum homem se elevava acima de qualquer outro,
ninguém usurpava maior poder ou autoridade sobre seus
co-epíscopos. Lembrados das palavras do Senhor “Aquele que
dirige seja como o que serve” (Luc 22.26) conservavam-se em
humildade, e pelo serviço mútuo ajudavam-se no governo e na
preservação da Igreja.
A ordem a ser
preservada. Entretanto, por causa da preservação da ordem,
algum dos ministros convocava reunião da assembléia, e perante ela
propunha assuntos a serem apresentados, reunia as opiniões dos
demais e, enfim, o quanto estava nele, providenciava para que não
surgisse confusão. Assim procedeu São Pedro, segundo lemos nos Atos
dos Apóstolos, o qual contudo não era, por essa razão, preferido
pelos demais, nem revestido de maior autoridade que os outros. Mui
acertadamente disse o Mártir São Cipriano, no seu De Simplicitate
Clericorum: “Os outros apóstolos eram, seguramente, o que era
Pedro, dotados de semelhante associação de honra e poder; mas, [seu]
primado procede da unidade para que a Igreja seja manifesta como
sendo uma”.
Como e quando
um foi colocado diante dos outros. Também São Jerônimo, em
seu Comentário à Epístola de Paulo a Tito, diz algo não muito
diferente disto: “Antes que começasse a ligação a pessoas em
religião, pela instigação do diabo, as igrejas eram governadas pelo
conselho comum dos anciãos; mas, depois que cada um passou a pensar
que aqueles que ele havia batizado eram seus e não de Cristo,
decretou-se que um dos anciãos fosse escolhido e colocado sobre os
demais, em quem recairia o cuidado de toda a Igreja, e que se
removessem todas as sementes de cismas”. Contudo, São Jerônimo não
recomenda este decreto como divino; pois ele logo acrescenta: “Assim
como os anciãos sabem pelo costume da Igreja que se acham sujeitos
ao que foi posto sobre eles, assim saibam os bispos, que se acham
sobre os anciãos mais pelo costume do que pela verdade de uma
disposição do Senhor, e que devem governar a Igreja em comum com
eles”. Até aqui São Jerônimo. Por conseguinte, ninguém tem o direito
de proibir o retorno à antiga constituição da Igreja de Deus, e
recorrer a isso com apoio no costume humano.
Os deveres do
ministro. São vários os deveres dos ministros, no entanto,
em geral se restringem a dois, nos quais todos os outros estão
incluídos: o ensino evangélico de Cristo e a legítima administração
dos sacramentos. É dever dos ministros reunir a assembléia sagrada e
nela expor a Palavra de Deus, e aplicar toda a doutrina à razão e ao
uso da Igreja, de modo que o que for ensinado seja útil aos ouvintes
e edifique os fiéis. É dever dos ministros, afirmo, ensinar os
ignorantes e exortar; e estimular os indecisos ou ainda os que
caminham lentamente à avançar no caminho do Senhor, consolar e
confirmar os pusilânimes, e armá-los contra as multiformes tentações
de Satanás; corrigir os que pecam; reconduzir ao caminho os
transviados; levantar os caídos; convencer os contradizentes;
expulsar do rebanho do Senhor os lobos; repreender, prudente e
severamente os crimes e os criminosos; não serem coniventes nem se
calarem perante o crime. Mas, além de tudo isso, é seu dever
administrar os sacramentos, recomendar o uso justo deles e, pela sã
doutrina, preparar todos para recebê-los; conservar também os fiéis
numa santa unidade; e impedir os cismas, enfim catequizar os
ignorantes, recomendar à Igreja as necessidades dos pobres, visitar,
instruir e conservar no caminho da vida os enfermos e os afligidos
por várias tentações. Além disso, devem cuidar das orações públicas
ou das súplicas em ocasiões de necessidade, juntamente com o jejum,
isto é, procurar uma santa abstinência; e cuidar o mais
diligentemente possível de tudo o que diz respeito à tranqüilidade,
à paz e à salvação das igrejas.
E para que o
ministro possa realizar todas estas coisas da melhor maneira e mais
facilmente, requer-se especialmente dele que tema a Deus, seja
constante na oração, entregue-se à leitura sagrada e, em todas as
coisas e em todas as ocasiões, seja vigilante, e pela pureza de vida
deixe sua luz brilhar diante de todos os homens.
Disciplina.
E, visto que a disciplina é absolutamente necessária na Igreja, e
que a excomunhão foi outrora usada, entre os antigos, e havia, entre
o povo de Deus julgamentos eclesiásticos, nos quais esta disciplina
era exercida por homens sábios e piedosos, será também dever dos
ministros regular essa disciplina para edificação, de acordo com as
circunstâncias dos tempos, do estado público e com a necessidade.
Todas as vezes que se deve observar a regra, tudo se deve fazer para
edificação, decente e honestamente, sem tirania e divisão. Pois o
apóstolo atesta que lhe foi outorgada pelo Senhor autoridade na
Igreja “para edificação, e não para destruição” (II Co 10.8). E o
Senhor mesmo proibiu arrancar o joio no campo do Senhor, porque
haveria o perigo de ser arrancado o trigo juntamente com ele (Mat
13.29 ss).
Mesmo os maus
ministros devem ser ouvidos. Ademais, detestamos
energicamente o erro dos donatistas, que consideram a doutrina e a
administração dos sacramentos eficazes ou ineficazes, segundo a vida
boa ou má dos ministros. Porquanto sabemos que a voz de Cristo deve
ser ouvida, mesmo dos lábios de maus ministros; porque o Senhor
mesmo disse: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem,
porém, não os imiteis nas suas obras” (Mat 23.3). Sabemos que os
sacramentos são santificados pela instituição e pela palavra de
Cristo, e que são válidos para o fiel, embora administrados por
ministros indignos. Sobre este assunto Santo Agostinho, o
bem-aventurado servo de Deus, muitas vezes argumentou com base nas
Escrituras, contra os donatistas.
Sínodos.
Apesar disso, deve haver disciplina adequada entre os ministros. Nos
Sínodos a doutrina e a vida dos ministros devem ser cuidadosamente
examinadas. Os que pecam devem ser repreendidos pelos anciãos e
reconduzidos ao caminho certo, se forem curáveis; e, se forem
incuráveis, devem ser depostos, e, como lobos, expulsos do rebanho
do Senhor pelos verdadeiros pastores. Se são falsos mestres, não
podem ser de modo algum tolerados. Nem desaprovamos os concílios
ecumênicos, se convocados segundo o exemplo dos apóstolos, para a
salvação da Igreja e não para sua destruição.
O obreiro é
digno do seu salário. Todos os ministros fiéis, como bons
obreiros, são também dignos do seu salário e não pecam quando
recebem estipêndios e todas as coisas necessárias a eles mesmos e
suas famílias. O apóstolo mostra em I Co, cap. 9 e em I Tim, cap. 5,
bem como em outras passagens, que tais coisas são, de direito, dadas
pela Igreja e recebidas pelos ministros. Os anabaptistas, que
condenam e difamam os ministros que vivem do seu ministério, são
também refutados pelo ensino apostólico.
19. Dos sacramentos e da Igreja de Cristo
Os
sacramentos (são) adicionais à Palavra e o que são eles.
Deus, desde o princípio, acrescentou à pregação da Palavra em sua
Igreja os sacramentos ou sinais sacramentais. É o que a Sagrada
Escritura claramente testifica. Sacramentos são símbolos místicos,
ou ritos santos, ou atos sagrados instituídos pelo próprio Deus,
consistindo segundo a sua Palavra, de sinais e de coisas
significadas, por meio das quais ele, na Igreja, conserva a memória
dos grandes benefícios por ele concedidos ao homem - renovando-a
freqüentemente - por meio dos quais, também, ele sela as suas
promessas e, externamente as representa e, como que nos põe diante
dos olhos aquelas coisas que internamente ele nos concede, e assim
fortalece e aumenta a nossa fé pela operação do Espírito de Deus em
nossos corações. Finalmente, por meio deles, ele nos separa de todos
os outros povos e religiões, e nos consagra e nos liga a si só, e
nos dá a entender o que ele requer de nós.
Alguns são
sacramentos do Velho, outros do Novo Testamento. Alguns
sacramentos são do velho povo, outros do novo. Os sacramentos do
velho povo eram a Circuncisão e o Cordeiro Pascal, que era imolado;
por essa razão, ele se relaciona com os sacrifícios celebrados desde
o princípio do mundo.
O número dos
sacramentos do novo povo. Os sacramentos do novo povo são o
Batismo e a Ceia do Senhor. Alguns há que reconhecem sete
sacramentos do novo povo. Destes, reconhecemos que o arrependimento,
a ordenação de ministros - não a ordenação papista, mas a apostólica
- e o matrimônio são instituições úteis de Deus, não porém
sacramentos. A confirmação e a extrema unção são simples invenções
dos homens, que a Igreja pode dispensar sem nenhum prejuízo. Na
verdade, não as temos em nossas igrejas, pois elas contêm certas
coisas que de modo nenhum podemos aprovar. Acima de tudo, detestamos
todo o comércio que exercem os romanistas na dispensação dos
sacramentos.
O autor dos
sacramentos. O autor de todos os sacramentos não é nenhum
homem, mas Deus somente. Os homens não podem instituir sacramentos.
Estes fazem parte do culto de Deus. E não é da competência do homem
estabelecer e prescrever o culto de Deus, mas receber e preservar o
que por Deus foi entregue. Além disso, os símbolos têm juntas as
promessas que requerem fé. E a fé se apóia exclusivamente na Palavra
de Deus; e a Palavra de Deus assemelha-se a escritos ou cartas, e os
sacramentos a selos, que somente Deus coloca nas cartas.
Cristo ainda
opera nos sacramentos. E sendo Deus o autor dos sacramentos,
assim ele continuamente opera na Igreja, em que os sacramentos são
devidamente celebrados; de modo que os fiéis, quando recebem dos
ministros os sacramentos, reconhecem que Deus opera em sua própria
instituição, e portanto, recebem os sacramentos como da mão do
próprio Deus; e os defeitos do ministro (ainda que sejam muito
grandes) não podem prejudicá-lo, se eles reconhecem que a
integridade dos sacramentos depende da instituição do Senhor.
Deve-se
distinguir entre o autor e o ministro dos sacramentos. Por
conseguinte, na administração dos sacramentos distinguem eles,
também claramente, entre o Senhor mesmo e o ministro do Senhor,
confessando que a substância dos sacramentos lhes é dada pelo
próprio Senhor e os símbolos pelos ministros do Senhor.
A essência ou
coisa principal nos sacramentos. Mas, a coisa principal que
Deus propõe em todos os sacramentos e para a qual todos os piedosos
de todos os tempos voltam a atenção que outros chamam substância e
matéria nos sacramentos é Cristo o Salvador, o sacrifício único, o
Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, a rocha, também,
da qual todos os nossos pais beberam, por quem todos os eleitos são
circuncidados não por mãos, pelo Espírito Santo, e são lavados de
todos os seus pecados e alimentados com o próprio corpo e sangue de
Cristo para a vida eterna.
Semelhança e
diferença dos sacramentos do velho e do novo povo de Deus.
Com respeito ao que é o principal e a própria matéria, os
sacramentos de ambos os povos são iguais. Pois Cristo, o único
Salvador e Mediador dos fiéis, é o principal elemento e a própria
substância dos sacramentos em ambos; porquanto o mesmo Deus é o
autor dos dois sacramentos.
Eles foram dados
aos dois povos como sinais e selos da graça e das promessas de Deus,
para que tragam à mente e renovem a lembrança dos grandíssimos
benefícios de Deus e para que distinguissem os fiéis de todas as
outras religiões do mundo; finalmente, para que fossem recebidos
espiritualmente pela fé e ligassem à Igreja os participantes, e os
lembrassem dos seus deveres. Nesses e em outros pontos semelhantes
digo que os sacramentos de ambos os povos não são diferentes como
parecem, embora exteriormente o sejam. E, na verdade. no que diz
respeito aos sinais, fazemos uma maior distinção. Os nossos são mais
firmes e mais duradouros, visto que nunca serão mudados até o fim do
mundo. Mais ainda, os nossos testificam que tanto a substância como
a promessa foram cumpridas ou consumadas em Cristo; os anteriores
significavam o que estava para ser cumprido. Os nossos são também,
mais simples e menos complicados, menos pomposos e menos envolvidos
com cerimônias. E ainda mais, pertencem a um povo mais numeroso,
disperso por toda a face da terra. E, porque são mais excelentes e
pelo Espírito Santo despertam maior fé, resultam ainda, em maior
abundância do Espírito.
Nossos
sacramentos sucedem aos antigos, que foram abolidos.
Certamente, visto que Cristo, o verdadeiro Messias, nos é
apresentado e a abundância da graça é derramada sobre o povo do Novo
Testamento, os sacramentos do velho povo de Deus foram abolidos e
cessaram; e em seu lugar colocaram-se os símbolos do Novo Testamento
- o Batismo em lugar da Circuncisão, a Ceia do Senhor em lugar do
Cordeiro Pascal e dos sacrifícios.
Em que
consistem os sacramentos. E como outrora os sacramentos
consistiam da palavra, do sinal e da coisa significada, assim também
agora eles se compõem, por assim dizer, dessas mesmas partes. Pois,
a Palavra de Deus os faz sacramentos, o que antes não eram. A
consagração dos sacramentos. São consagrados pela Palavra e
declarados santificados por aquele que os instituiu. Santificar ou
consagrar uma coisa a Deus é dedicá-la a usos sagrados isto é,
retirá-la do uso comum ou profano e destiná-la a uso sagrado, pois,
os sinais nos sacramentos se derivam do uso comum, de coisas
externas e visíveis. No Batismo, o sinal externo é o elemento da
água e a ablução visível, feita pelo ministro; a coisa significada é
a regeneração e purificação de pecados. Na Ceia do Senhor, o sinal
externo é o pão e o vinho, tomados do uso comum do comer e do beber;
a coisa significado é o corpo do Senhor que foi entregue, e seu
sangue vertido por nós, ou a comunhão do corpo e do sangue do
Senhor. Por isso, a água, o pão, o vinho, segundo sua natureza e à
parte da instituição divina e do uso sagrado, são somente aquilo que
são chamados, e que experimentamos. Mas, quando a Palavra do Senhor
lhes é acrescentada, com a invocação do nome divino e a renovação de
sua primeira instituição e santificação, então esses sinais são
consagrados e se mostram santificados por Cristo. A primeira
instituição de Cristo e a consagração dos sacramentos permanece
sempre eficaz na Igreja de Deus, de tal modo que aqueles que
celebram os sacramentos, não de modo diferente daquele que o Senhor
mesmo estabeleceu desde o princípio, ainda hoje desfrutam daquela
primeira e sobre-excelente consagração. E por isso, na celebração
dos sacramentos, são repetidas as próprias palavras de Cristo.
Os sinais
recebem o nome das coisas significadas. Porque aprendemos da
Palavra de Deus que estes sinais foram instituídos para outro fim,
diverso do uso comum, ensinamos que eles agora, em seu santo uso,
assumem em si os nomes das coisas significados e não são mais
chamados apenas água, pão ou vinho, mas também, regeneração ou o
lavar com água e o corpo e sangue do Senhor, ou símbolos e
sacramentos do corpo e sangue do Senhor. Não que os símbolos se
transformem nas coisas significados ou cessem de ser o que são por
sua natureza. Pois de outro modo não poderiam ser sacramentos. Se
fossem apenas a coisa significado, não seriam sinais.
A união
sacramental. Portanto, os sinais adquirem os nomes das
coisas, porque são símbolos místicos de coisas sagradas, e porque os
sinais e as coisas significados estão sacramentalmente ligados;
ligam-se, digo, ou unem-se pela significação mística e pela vontade
e conselho daquele que instituiu os sacramentos. A água, o pão e o
vinho não são sinais comuns, mas sagrados. E aquele que instituiu a
água no batismo não a instituiu com a vontade e intenção de que os
fiéis apenas fossem aspergidos pela água do batismo; e aquele que
mandou comer o pão e beber o vinho na ceia não queria que os fiéis
recebessem apenas pão e vinho sem qualquer mistério, da maneira como
comem pão em suas casas, mas, que participassem espiritualmente das
coisas significados, sendo pela fé verdadeiramente lavados de seus
pecados e participantes de Cristo.
As seitas.
Portanto, não podemos absolutamente aprovar os que atribuem a
santificação dos sacramentos a não sei que propriedades e fórmulas
ou ao poder de palavras pronunciadas por alguém que é consagrado e o
que tem a intenção de consagrar, ou por outros acidentes quaisquer,
que nem Cristo nem os apóstolos nos entregaram por palavras ou
exemplo. Nem aprovamos tampouco a doutrina daqueles que falam dos
sacramentos apenas como sinais comuns, não santificados nem
eficazes. Nem aprovamos os que desprezam o aspecto visível dos
sacramentos por causa do invisível, e assim crêem que os sinais são
supérfluos porque pensam que já gozam as próprias coisas
significados, como dizem que os messalianos sustentavam.
A coisa
significada não está incluída nos sacramentos nem a eles ligada.
Não aprovamos a doutrina daqueles que ensinam que a graça e as
coisas significadas estão de tal modo ligadas aos sinais e neles
incluídas que, todos aqueles que participarem externamente dos
sinais, não importando que espécie de pessoas sejam, são também
interiormente participantes da graça e das coisas significados.
No entanto, como
não julgamos o valor dos sacramentos pela dignidade ou indignidade
dos ministros, assim também não os avaliamos pela condição daqueles
que os recebem. Pois, sabemos que o valor dos sacramentos depende da
fé e da veracidade e exclusiva bondade de Deus. Assim como a Palavra
de Deus permanece a verdadeira Palavra de Deus que, em sendo
pregada, não são meras palavras repetidas, mas ao mesmo tempo, as
coisas significadas ou anunciadas em palavras são oferecidas por
Deus, embora os ímpios e incrédulos as ouçam e compreendam, contudo
não aproveitam as coisas significadas, porque não as recebem pela
verdadeira fé, assim os sacramentos, que pela Palavra consistem de
sinais e de coisas significadas, continuam sendo sacramentos
verdadeiros e invioláveis, significando não somente coisas sagradas
mas, pelo oferecimento de Deus, as próprias coisas significadas,
embora os incrédulos não percebam as coisas oferecidas. Neste caso,
a culpa não é de Deus que as dá e as oferece, mas dos homens que as
recebem sem fé e de modo ilegítimo, cuja incredulidade, porém, não
invalida a fidelidade de Deus (Rom 3.3 ss).
O fim para o
qual os sacramentos foram instituídos. Desde que o fim para
o qual os sacramentos foram instituídos foi também explanado, de
passagem, quando logo no começo de nossa exposição se mostrou o que
eles são, não há necessidade de se fazer a repetição molesta daquilo
que já foi dito. Conseqüentemente, portanto, falaremos agora,
separadamente, dos sacramentos do novo povo.
20. Do santo batismo
A instituição
do batismo. O batismo foi instituído e consagrado por Deus.
Primeiro João batizou, tendo imergido Cristo na água do Jordão. Dele
passou para os apóstolos, que também batizavam com água.
Ordenou-lhes expressamente o Senhor que pregassem o Evangelho e
batizassem “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mat
28.19). E nos Atos disse São Pedro aos judeus que perguntaram o que
deviam fazer: “... e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus
Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do
Espírito Santo” (At 2.38). Em conseqüência disso, o batismo é
chamado por alguns, sinal de iniciação para o povo de Deus, visto
que por ele os eleitos de Deus são consagrados a Deus.
Um só batismo.
Há um só batismo na Igreja de Deus; e é suficiente ser uma só vez
batizado ou consagrado a Deus. Pois o batismo, uma vez recebido,
continua por toda a vida; e é o selo perpétuo de nossa adoção.
O que
significa ser batizado. Ser batizado em nome de Cristo é ser
arrolado, incluído e recebido na aliança e na família, e assim na
herança dos filhos de Deus; sim, e nesta vida ser chamado segundo o
nome de Deus, isto é, ser chamado filho de Deus; ser purificado
também da impureza dos pecados, e receber a multiforme graça de Deus
para uma vida nova e inocente. O batismo, portanto, retém na memória
e renova o grande benefício que Deus dispensou à raça dos mortais.
Pois todos nascemos na impureza do pecado e somos filhos da ira. Mas
Deus, que é rico em misericórdia, nos purifica gratuitamente dos
nossos pecados pelo sangue de seu Filho, e, nele nos adota como seus
filhos, e por uma santa aliança nos une a si mesmo e nos enriquece
com inúmeros dons, para podermos viver uma nova vida. Todas estas
coisas são consignadas pelo batismo. Internamente, somos
regenerados, purificados e renovados por Deus mediante o Espírito
Santo; e exteriormente recebemos o selo dos maiores dons na água,
pela qual são também representados os maiores benefícios, e como que
colocados diante dos nossos olhos para serem observados.
Somos
batizados com água. Por isso, somo batizados, isto é,
lavados ou aspergidos com a água visível. Pois a água lava as
impurezas, resfria e refresca os corpos quentes e cansados. E a
graça de Deus realiza estas coisas para as almas, e o faz de modo
invisível ou espiritual.
A obrigação
do batismo. Deus também nos separa de todas as religiões e
povos estranhos pelo símbolo do batismo, e nos consagra a si mesmo
como sua propriedade. Confessamos, portanto, nossa fé quando somos
batizados, e sujeitamo-nos a Deus pela obediência, mortificação da
carne e novidade de vida, e, com isso, alistamo-nos na santa milícia
de Cristo para lutarmos durante toda a nossa vida contra o mundo,
Satanás e nossa própria carne. Ademais, somos batizados no corpo da
Igreja para, com todos os seus membros, podermos de modo distinto,
participar de uma só e da mesma religião e dos serviços mútuos.
A forma do
batismo. Cremos que a mais perfeita forma de batismo é
aquela pela qual Cristo foi batizado e pela qual os apóstolos
batizaram. Aquilo, portanto, que pelo expediente do homem foi
acrescentado posteriormente, e usado na Igreja, não consideramos
necessário à perfeição do batismo. Por exemplo, o exorcismo, o uso
de velas acesas, óleo, sal, cuspo e outras coisas semelhantes como a
idéia de que o batismo deve ser administrado duas vezes por ano com
um grande número de cerimônias. Cremos que um só batismo da Igreja
foi santificado na primeira instituição realizada por Deus, e que
ele é consagrado pela Palavra, e é também eficaz ainda hoje, em
virtude da primeira bênção de Deus.
O ministro do
batismo. Ensinamos que o batismo não deve ser administrado
na Igreja por mulheres ou por parteiras. São Paulo vetou à mulher os
ofícios eclesiásticos. E o batismo pertence aos ofícios
eclesiásticos.
Anabatistas.
Condenamos os anabatistas, que negam que as criancinhas
recém-nascidas dos fiéis devam ser batizadas. Mas, segundo o ensino
evangélico, “dos tais é o Reino de Deus”, e as mesmas se encontram
na aliança de Deus. Por que, então, não deve o sinal da aliança de
Deus ser conferido a elas? Por que não devem aqueles que são
propriedade de Deus e estão na sua Igreja ser iniciados pelo santo
batismo? Condenamos os anabatistas em outras das suas doutrinas
peculiares, que eles sustentam em oposição à Palavra de Deus. Não
somos, portanto, anabatistas e nada temos em comum com eles.
21. Da santa Ceia do Senhor
A Ceia do
Senhor. A Ceia do Senhor - também chamada Mesa do Senhor e
Eucaristia, isto é, Ação de Graças - é em geral chamada ceia porque
foi instituída por Cristo em sua última ceia, e ainda a representa,
e porque nela os fiéis são espiritualmente alimentados e
dessedentados.
O autor e
consagrador da Ceia. O autor da Ceia do Senhor não é nenhum
anjo ou homem, mas o próprio Filho de Deus, nosso Senhor Jesus
Cristo, que primeiro a consagrou para sua Igreja. Essa consagração
ou bênção ainda permanece entre todos quantos celebram não outra
ceia, mas aquela mesma, que o Senhor instituiu e na qual eles
recitam as palavras da Ceia do Senhor, e em tudo voltam o olhar com
verdadeira fé para o único Cristo, e recebem, como de suas mãos,
aquilo que recebem pelo ministério dos ministros da Igreja.
Um memorial
das bênçãos de Deus. Por este rito sagrado o Senhor deseja
manter em viva lembrança a maior bênção que concedeu aos mortais, a
saber, que pelo dom do seu corpo e pelo derramamento do seu sangue
ele perdoou todos os nossos pecados e nos redimiu da morte eterna e
do poder do Diabo, e agora nos alimenta com a sua carne e nos dá a
beber o seu sangue, os quais, recebidos espiritualmente com
verdadeira fé, nos alimentam para a vida eterna. E essa bênção tão
grande se renova tantas vezes quantas é celebrada a Ceia do Senhor.
Eis o que disse o Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. Esta santa
Ceia sela, também, para nós, que o próprio corpo de Cristo foi
verdadeiramente entregue por nós, e seu sangue vertido para remissão
dos nossos pecados, a fim de que em nada a nossa fé venha a vacilar.
O sinal e a
coisa significada. E isto é visivelmente representado de
modo exterior por este sacramento pelo ministrante e, como que
exposto aos olhos para ser contemplado, aquilo que pelo Espírito
Santo é concedido interiormente na alma de maneira invisível. O pão
é exteriormente oferecido pelo ministro, e ouvem-se as palavras do
Senhor: “Tomai, comei; este é o meu corpo”; e “Recebei e reparti
entre vós. Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue”. Portanto,
os fiéis recebem o que é dado pelo ministro do Senhor, e comem o pão
do Senhor e bebem do cálice do Senhor. Ao mesmo tempo, pela obra de
Cristo por meio do Espírito Santo, interiormente recebem também a
carne e o sangue do Senhor e deles se alimentam para a vida eterna.
Pois a carne e o sangue de Cristo são o verdadeiro alimento e a
verdadeira bebida para a vida eterna; e Cristo mesmo, desde que foi
entregue por nós e é nosso Salvador, é o principal elemento na Ceia,
e não permitimos que nenhuma outra coisa seja colocada em seu lugar.
Mas, para que se
compreenda mais retamente e com clareza corno a carne e o sangue de
Cristo são o alimento e a bebida dos fiéis, e são recebidos pelos
fiéis para a vida eterna, acrescentaríamos estas poucas coisas. Há
mais de uma espécie de comer. Há o comer corporal, pelo qual o
alimento é posto pelo homem na boca, mastigado com os dentes e
deglutido para o estômago. No passado, os cafarnauenses acharam que
a carne do Senhor devia ser comida desse modo, mas são refutados
pelo próprio Senhor, em João, cap. 6. Desde que a carne de Cristo
não pode ser comida corporalmente, sem infâmia e selvageria, assim
ela não é alimento para o estômago. Todos os homens são obrigados a
admitir isso. Desaprovamos, portanto, o cânon nos decretos do papa,
Ego Berengariust (De Consecrat., Dist. 2). Nem
a piedosa antiguidade cria, nem cremos nós que o corpo de Cristo
possa ser corporalmente e essencialmente comido pela boca.
O comer o
Senhor espiritualmente. Há também um comer espiritual do
corpo de Cristo; não que pensemos que, por isso, o próprio alimento
se mude em espírito, mas o corpo e o sangue do Senhor, embora
permanecendo em sua própria essência e propriedade, nos são
espiritualmente comunicados, certamente não de modo corporal, mas
espiritual, pelo Espírito Santo, que aplica em nós e nos confere
estas coisas que nos foram preparadas pelo sacrifício do corpo e do
sangue do Senhor por nós, a saber, a remissão de pecados, o
livramento e a vida eterna; de tal modo que Cristo vive em nós e nós
vivemos nele, sendo que ele nos possibilita recebê-lo pela
verdadeira fé para que possa tornar-se, para nós, esse alimento e
bebida espirituais, isto é, nossa vida.
Cristo como
nosso alimento sustenta-nos a vida. Assim como o alimento e
a bebida corporal não só refazem e fortalecem nossos corpos, mas
também os conservam vivos, também a carne de Cristo, entregue por
nós e seu sangue vertido por nós não só refazem e fortalecem nossas
almas, mas também as conservam vivas, não na medida em que sejam
corporalmente comidos e bebidos, mas na medida em que nos são
comunicados espiritualmente pelo Espírito de Deus, como diz o
Senhor: “O pão que darei pela vida do mundo, é a minha carne” (João
6.51), e “a carne” (sem dúvida, corporalmente comida) “para nada
aproveita; o espírito é o que vivifica” (v. 63). E mais: “As
palavras que eu vos tenho dito, são espírito e são vida”.
Cristo
recebido pela fé. E como devemos, pelo comer, receber
alimento em nossos corpos para que ele atue em nós e prove a sua
eficácia em nós - visto que ele não é de comum proveito quando
retido fora de nós - assim é necessário que recebamos Cristo pela
fé, para que ele se torne nosso e viva em nós e nós nele. Pois, ele
diz: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim, jamais terá fome; e o
que crê em mim, jamais terá sede” (João 6.35); e também: “Quem de
mim se alimenta, por mim viverá... permanece em mim e eu nele” (vs.
57, 56).
Alimento
espiritual. De tudo isto, fica claro que por alimento
espiritual não queremos dizer algum alimento imaginário que não se
sabe bem o que seja mas o próprio corpo do Senhor dado por nós, que
entretanto é recebido pelos fiéis não corpórea, mas espiritualmente
pela fé. Nesta questão seguimos o ensino do próprio Salvador, Cristo
o Senhor, segundo João, cap. 6
O comer é
necessário à salvação. E este comer da carne e beber do
sangue do Senhor é tão necessário à salvação, que sem ele, nenhum
homem pode ser salvo. Mas este comer e beber, espiritualmente,
ocorrem também à parte da Ceia do Senhor, sempre e onde quer que o
homem creia em Cristo. A isto talvez se aplique a frase de Santo
Agostinho: “Por que preparas os dentes e o estômago? Crê e terás
comido”.
O comer
sacramental do Senhor. Além do comer altamente espiritual há
também o comer sacramental do corpo do Senhor, pelo qual o crente
participa não só espiritual e interiormente do verdadeiro corpo e
sangue do Senhor, mas também, pela aproximação à Mesa do Senhor,
recebe externamente o sacramento visível do corpo e do sangue do
Senhor. Sem dúvida alguma, já antes, quando creu, recebeu o crente o
alimento que lhe dá a vida, e ainda o usufrui. Portanto, quando ele
agora recebe o sacramento não é que não receba algo. Pois ele
progride na comunicação contínua do corpo e do sangue do Senhor, e
assim sua fé se aviva e se desenvolve mais e mais, sendo revigorada
pelo alimento espiritual. Enquanto vivemos, nossa fé aumenta
continuamente. Ora, aquele que, externamente, recebe o sacramento
com verdadeira fé, não recebe apenas o sinal, mas também, como
dissemos, desfruta a própria realidade. Além disso, obedece ele à
instituição e ao mandamento do Senhor, e com mente alegre rende
graças pela própria redenção e a da humanidade toda, realizando uma
fiel comemoração da morte do Senhor, dando testemunho diante da
Igreja, de cujo corpo é membro. Assegura-se também, aos que recebem
o sacramento que o corpo do Senhor foi dado e seu sangue derramado,
não apenas pelos homens em geral, mas, particularmente por todo fiel
comungante, para quem ele é alimento e bebida para a vida eterna.
Os incrédulos
recebem o sacramento para seu julgamento. Mas, aquele que se
aproxima da sagrados da Mesa do Senhor sem fé, participa somente do
sacramento e não recebe a essência do sacramento, de onde provém
vida e salvação; e tais pessoas participam indignamente da Mesa do
Senhor. Ora, os que comem o pão e bebem o cálice do Senhor de modo
não digno, tornam-se culpados do corpo e do sangue do Senhor comendo
e bebendo para si mesmo condenação (I Co 11.26-29). Não se
aproximando com verdadeira fé, desonram a morte de Cristo e,
conseqüentemente, comem e bebem condenação para si mesmos.
A presença de
Cristo na Ceia. Nós, pois, não identificamos o corpo do
Senhor e seu sangue com o pão e o vinho a ponto de dizer que o
próprio pão é o corpo de Cristo, exceto no sentido sacramental; ou
que o corpo de Cristo está oculto corporeamente sob o pão, de modo
que deve ser adorado sob a forma de pão; ou ainda que, quem quer que
receba o sinal, recebe também a própria realidade. O corpo de Cristo
está nos céus, à mão direita do Pai; e, portanto, nossos corações
devem elevar-se para o alto e não se fixarem no pão, nem deve o
Senhor ser adorado no pão. Contudo, o Senhor não está ausente de sua
Igreja, quando esta celebra a Ceia. O sol, que está afastado de nós,
nos céus, encontra-se, entretanto, efetivamente presente em nosso
meio. Quanto mais o Sol da justiça, Cristo, embora estando ausente
de nós nos céus, pelo seu corpo, não estará presente conosco, não
corporal, mas, espiritualmente, pela sua operação vivificadora, como
ele mesmo declarou, por ocasião da última Ceia, que haveria de estar
presente conosco (João, caps. 14, 15 e 16). Decorre dai que não
temos uma Ceia sem Cristo, mas uma Ceia incruenta e mística, como
foi universalmente chamada pela antiguidade.
Outros
propósitos da Ceia do Senhor. Além do mais, na celebração da
Ceia do Senhor, somos admoestados a estarmos conscientes de cujo
corpo nos tornamos membros, e portanto, a sermos uma só mente com
todos os irmãos; a viver uma vida santa e a não nos corrompermos com
a iniqüidade e com religiões estranhas; mas, perseverando na
verdadeira fé até o fim da vida, esforçarmo-nos para alcançar a
excelência da santidade de vida.
Preparação
para a Ceia. Convém, portanto, que tendo de participar da
Ceia, primeiro examinemo-nos a nós mesmos, segundo o mandamento do
apóstolo, especialmente quanto à fé que temos, se cremos que Cristo
veio para salvar os pecadores e chamá-los ao arrependimento, e se
cremos que pertencemos ao número dos que foram libertados e salvos
por Cristo; e se estamos resolvidos a mudar nossa vida ímpia, a fim
de levarmos uma vida santa e, com o auxílio do Senhor, a perseverar
na verdadeira religião e na harmonia com os irmãos, e a render
graças devidas a Deus pelo seu livramento.
A observância
da Ceia com pão e vinho. Julgamos que o rito, a maneira ou
forma da Ceia mais simples e excelente seja aquela que mais se
aproxime da primeira instituição do Senhor e da doutrina dos
apóstolos. Consiste na proclamação da Palavra de Deus, em orações
piedosas, na ação do Senhor mesmo, e em sua repetição, comendo do
corpo do Senhor, e bebendo de seu sangue; relembrando a morte do
Senhor e ele fiel ação de graças; e numa santa participação na união
do corpo da Igreja.
Desaprovamos, pois,
os que privaram os fiéis de um dos elementos do sacramento, a saber,
do cálice do Senhor. Estes pecam seriamente contra a ordem do
Senhor, que diz: “Bebei dele todos”; o que ele não disse de modo tão
expresso a respeito do pão.
Não estamos
discutindo, agora, que espécie de missa existiu outrora entre os
antigos, se deve ser tolerada ou não. Mas, dizemos isto abertamente:
a missa agora usada em toda a Igreja Romana foi abolida em nossas
igrejas por muitas e boas razões, as quais, para sermos breve, não
enumeramos agora em pormenores. Não poderíamos aprovar a mudança de
uma ação salutar em um espetáculo inútil, e num meio de alcançar
mérito, e celebrado por um preço. Nem poderíamos aprovar a afirmação
de que na mesma, o sacerdote efetua o próprio corpo do Senhor, e
realmente o oferece pela remissão dos pecados dos vivos e dos
mortos, e ainda para a honra, veneração e lembrança dos santos no
céu, etc.
22. Do culto e das reuniões na Igreja
Como deve ser
o culto. Embora se permita a todos os homens lerem as
Escrituras particularmente em casa, pela instrução edificando-se
mutuamente na verdadeira religião, no entanto, para que a Palavra de
Deus seja anunciada convenientemente ao povo, e se façam
publicamente orações e súplicas, bem como sejam os sacramentos
administrados de modo próprio, e se levantem ofertas para os pobres
e para o pagamento de todas as despesas da Igreja, e para a
conservação das relações sociais, é muito necessário que se
mantenham as reuniões de culto ou da Igreja. Pois, é certo que na
Igreja apostólica e primitiva, havia tais assembléias, freqüentadas
por todos os piedosos.
As reuniões
para culto não devem ser negligenciadas. Todos quantos
negligenciam as reuniões de culto, delas ficando ausentes, desprezam
a verdadeira religião, devendo ser exortados pelos pastores e
magistrados piedosos para não continuarem ausentes dos cultos.
As reuniões
devem ser públicas. As reuniões da Igreja não devem ser
ocultas ou às escondidas, mas públicas e bem freqüentadas, a não ser
que a perseguição movida pelos inimigos de Cristo e da Igreja não
permita que sejam públicas. Pois, sabemos como sob a tirania dos
imperadores romanos, as reuniões da Igreja Primitiva realizavam-se
em lugares secretos.
Lugares
decentes de reunião. Além disso, os lugares onde os fiéis se
congregam devem ser decentes, e em tudo próprios para a Igreja de
Deus. Portanto, devem-se escolher prédios com bastante espaço ou
templos, mas expurgados de tudo o que não seja adequado a uma
Igreja. E tudo deve concorrer para o decoro, a necessidade e a
piedosa decência, a fim de que nada fique faltando, nada que seja
indispensável ao culto e às obras necessárias da Igreja.
Nas reuniões,
devem-se observar a modéstia e a humildade. E como cremos
que Deus não habita em templos feitos por mãos, também sabemos que,
por causa da Palavra de Deus e do uso sagrado, os lugares dedicados
a Deus e ao seu culto não são profanos, mas sagrados, e os que neles
estão presentes devem conduzir-se com reverência e com modéstia,
reconhecendo que se encontram em lugar sagrado, na presença de Deus
e de seus santos anjos.
A verdadeira
ornamentação dos santuários. Portanto, todo aparato, orgulho
e tudo o que seja impróprio à humildade, à disciplina e à modéstia
cristãs, deve ser banido dos santuários e lugares de oração dos
cristãos. Pois, a verdadeira ornamentação das igrejas não consiste
em marfim, ouro e pedras preciosas, mas na frugalidade, na piedade e
nas virtudes daqueles que estão na Igreja. Que todas as coisas sejam
feitas com decência e ordem na igreja e, finalmente, que todas as
coisas concorram para a edificação.
Culto na
linguagem comum. Calem-se, pois, todas as línguas estranhas
nas reuniões de culto, e sejam todas as coisas expressas na língua
do povo, compreendida por todas as pessoas presentes.
23. Das orações da Igreja, do cântico e das horas canônicas
Vernáculo.
Certo é que se permite a quem quer que seja orar em particular em
qualquer língua que entenda, mas as orações públicas nas reuniões de
culto devem ser feitas em vernáculo, a língua conhecida do povo.
Oração. Que todas as orações dos fiéis sejam dirigidas somente a
Deus, pela mediação única de Cristo, procedentes da fé e do amor. O
sacerdócio de Cristo, o Senhor, e a verdadeira religião proíbem
invocar os santos no céu, ou usá-los como intercessores. Devem-se
fazer orações pelos magistrados, pelos reis e por todos quantos
estão investidos de autoridade, pelos ministros da Igreja e por
todas as necessidades das igrejas. Em calamidades, especialmente em
se tratando da Igreja, deve-se orar sem cessar, tanto em particular
como publicamente.
Oração livre.
Ademais, deve a oração ser voluntária, sem constrangimento e não
buscar recompensa. Não convém mesmo que se limite,
supersticiosamente a oração a um lugar, como se não fosse permitido
orar em qualquer lugar, exceto num templo. Nem é necessário que as
orações públicas sejam as mesmas quanto à forma e ao tempo, em todas
as igrejas. Que cada igreja use de liberdade neste sentido. Diz
Sócrates, em sua história: “Em todas as regiões do mundo não
encontrareis duas igrejas, que concordem inteiramente quanto à
oração” (Hist. ecclesiast. V. 22,57). Os autores de tais
diferenças - é de supor-se - foram aqueles, que se encontravam à
frente das igrejas em certas ocasiões. No entanto, se concordam,
recomenda-se com insistência que o exemplo seja imitado por outras.
O método para
as orações públicas. Como em todas as coisas, também nas
orações públicas deve haver um padrão, a fim de que não se tornem
longas demais e cansativas. A maior parte das reuniões de culto
deve, portanto, destinar-se ao ensino evangélico, tomando-se o
cuidado para que a congregação não se aborreça com as orações muito
longas, de forma que ao chegar a hora de ouvir a pregação do
Evangelho, os presentes, já exaustos, deixem a reunião ou queiram
suprimi-la. Para tais pessoas o sermão parece muito longo, quando de
outra forma, seria breve. Convém pois, que os pregadores saibam
manter a medida.
Cântico.
De igual forma, deve o cântico ser usado com moderação no culto. O
Cântico chamado Gregoriano encerra muitas coisas tolas; daí com
justa razão ser ele rejeitado por muitas de nossas igrejas. Não se
deve condenar as igrejas, que embora tendo bom sermão não têm um bom
cântico. Nem todas podem contar com a vantagem de ter boa música.
Sabemos pelo testemunho da antiguidade que se o hábito de cantar é
muito velho nas Igrejas Orientais, só tardiamente foi aceito no
Ocidente.
Horas
canônicas. A antiguidade nada conhecia das horas canônicas,
isto é, das orações preparadas para certas horas do dia, cantadas ou
recitadas pelos papistas, o que se comprova pelos seus breviários e
por outras fontes. Há nelas não poucos absurdos, dos quais nada
direi mais; são elas, com razão, omitidas pelas igrejas que
colocaram em seu lugar coisas benéficas para toda a Igreja de Deus.
24. Dos dias santos, dos jejuns e da escolha dos alimentos
O tempo
necessário para o culto. Embora não esteja a religião
limitada pelo tempo, contudo não pode ser cultivada ou praticada sem
distribuição e arranjo próprio do tempo. Toda igreja, portanto,
escolhe determinado horário para as orações públicas, a pregação do
Evangelho e a celebração dos sacramentos, não sendo permitido a
ninguém transtornar esse horário da igreja a seu bel prazer. Pois, a
não ser que algum tempo livre seja reservado ao exercício da
religião, sem dúvida os homens absorvidos pelos seus negócios,
estariam afastados dela.
O Dia do
Senhor. Por isso vemos que nas igrejas antigas não havia
apenas certas horas da semana destinadas às reuniões, mas que também
o Dia do Senhor, desde o tempo dos apóstolos, fora separado para as
mesmas, e para o santo repouso, prática essa, acertadamente
preservada por nossas igrejas para fins de culto e serviço de amor.
Superstição.
Neste ponto, entretanto, não cedemos às observâncias dos judeus e às
superstições. Pois, não cremos que um dia seja mais santo do que
outro, nem pensamos que o repouso em si mesmo seja aceitável a Deus.
Além disso, guardamos o Dia do Senhor, e não o sábado como livre
observância.
As festas de
Cristo e dos santos. Ademais, se na liberdade cristã, as
igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do
Senhor, a circuncisão, a paixão, a ressurreição e sua ascensão ao
céu, bem como o envio do Espírito Santo sobre os discípulos,
damos-lhes plena aprovação. Não aprovamos, contudo, as festas
instituídas em honra de homens ou dos santos. Os dias santificados
têm a ver com a primeira Tábua da Lei e só a Deus pertencem.
Finalmente, os dias santificados, instituídos em honra dos santos,
os quais abolimos, têm muito de absurdo e inútil, e não devem ser
tolerados. Entretanto, confessamos que a lembrança dos santos, em
hora e lugar apropriados, pode ser recomendada de modo aproveitável
ao povo em sermões, e os seus santos exemplos, apresentados como
dignos de serem imitados por todos.
Jejum.
Ora, quanto mais seriamente a Igreja de Cristo condena a gula, a
embriaguez e toda a espécie de lascívia e intemperança, tanto mais e
com insistência, recomenda-nos o jejum cristão. Pois, jejuar nada
mais é do que a abstinência e moderação dos piedosos e uma
disciplina, cuidado e castigo de nossa carne, exercitados segundo a
necessidade do momento, pelos quais nos humilhamos diante de Deus,
privando nossa carne de seu combustível, de modo que possa mais
espontânea e facilmente obedecer ao Espírito. Portanto, aqueles que
não dão atenção a tais coisas não jejuam, mas imaginam que o fazem
se abarrotam o estômago uma vez por dia e a certa hora ou em horário
prescrito abstêm-se de certos alimentos, pensando que, pelo fato de
terem praticado essa obra agradam a Deus e estão fazendo algo de
bom. O jejum vem a ser um auxílio para as orações dos santos e para
todas as virtudes. Mas, como se vê nos livros dos profetas, o jejum
dos judeus, que se abstinham de alimento, não porém da iniqüidade,
não agradava a Deus.
Jejum público
e particular. Há jejum público e pessoal. Nos tempos antigos
celebravam-se jejuns públicos, em tempos de calamidade ou em
situações difíceis da Igreja. Abstendo-se totalmente de alimento até
o anoitecer, dedicavam-se todo o tempo a santas orações, ao culto a
Deus e ao arrependimento. Eles diferiam pouco do luto, havendo
freqüente menção do mesmo nos Profetas, especialmente em Joel, cap.
2. Tal jejum deve ser observado ainda hoje, sempre que a Igreja se
encontre em situação difícil. Os jejuns particulares podem ser
praticados por qualquer um de nós, quando se sente afastado do
Espírito. Pois, dessa maneira, priva-se a carne de seu combustível.
Características do jejum. Todo jejum deve partir de um
espírito livre, espontâneo e realmente humilde, e não simulado, só
para conquistar o aplauso ou favor dos homens, e muito menos para
que por meio dele pretenda o homem ser merecedor de justiça. Mas,
que cada um jejue para este fim - não dar lugar aos desejos da carne
e servir a Deus mais fervorosamente.
Quaresma.
O jejum da Quaresma tem o testemunho dos antigos, mas não dos
escritos apostólicos, pelo que não deve e não pode ser imposto aos
fiéis. É certo que no princípio havia várias formas ou costumes de
jejum. Por isso, diz Irineu, escritor muito antigo: “Uns pensam que
se deve observar o jejum somente um dia, outros, dois dias, outros
mais dias, e alguns, quarenta dias. Tal diversidade na observância
do jejum não começou em nossos tempos, porém, muito antes de nós por
aqueles, suponho, que não se apegavam simplesmente ao que lhes havia
sido entregue desde o princípio, mas passaram a outro costume por
negligência ou ignorância” (Fragm. 3,
ed. Stieren, I, 824 s). Além disso, Sócrates, o historiador,
diz: “Visto que não se encontra nenhum texto antigo acerca deste
assunto, penso que os apóstolos o deixaram à opinião de cada pessoa,
de modo que cada qual pudesse fazer o que é bom, sem temor ou
constrangimento” (Hist. ecclesiast, V. 22,40).
A escolha dos
alimentos. Quanto à escolha dos alimentos, julgamos que no
jejum se deve negar à carne tudo o que possa torná-la mais arrogante
e deleitá-la mais, aguçando-lhe o desejo de peixe, ou carne, ou
condimentos, ou de guloseimas e bons vinhos. Além do mais, sabemos
que todas as criaturas de Deus foram feitas para o uso e serviço dos
homens. Tudo o que Deus fez é bom, devendo ser usado no temor de
Deus e com moderação (Gen 2.15 s). Diz o apóstolo: “Todas as coisas
são puras para os puros” (Tit I.15), e mais: “Comei de tudo o que se
vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência”
(I Co 10.25). O mesmo apóstolo chama a doutrina daqueles que ensinam
abstenção de carnes “doutrina de demônios”; pois “... alimentos, que
Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis, e
por quantos conhecem plenamente a verdade; pois, tudo o que Deus
criou é bom e, recebido com ações de graça, nada é recusável” (I Tim
4.1 ss).
Seitas.
Portanto, condenamos inteiramente os tacianos e os encratitas, bem
como todos os discípulos de Eustátio, contra quem foi convocado o
Sinodo Gangrense.
25. Da catequese, do conforto e das visitas aos doentes
A juventude
deve ser instruída na piedade. O Senhor ordenou ao seu povo
antigo que tivesse o maior cuidado no sentido de que a mocidade,
desde a infância, fosse devidamente instruída, e mais do que isso,
expressamente ordenou em sua Lei, que a ensinasse e lhe
interpretasse os mistérios dos sacramentos. Sabe-se pelos escritos
dos evangelistas bem como dos apóstolos que não é menor o interesse
de Deus hoje, pela juventude do povo da nova aliança, pois
claramente nos dá testemunho disso, dizendo: “Deixai vir a mim os
pequeninos, não os embaraces, porque dos tais é o reino de Deus” (Mc
10.14). Por isso, os pastores das igrejas agem de maneira a mais
sábia, quando desde cedo e com cuidado, catequizam a juventude,
transmitindo-lhe os primeiros fundamentos da fé, fielmente
ensinando-lhe os rudimentos da nossa religião pela explicação dos
Dez Mandamentos, do Credo Apostólico, da Oração Dominicial e da
doutrina dos sacramentos, com outros princípios semelhantes e
tópicos principais da nossa religião. Que a Igreja mostre a sua fé e
diligência trazendo as crianças para serem catequizadas, desejosa e
feliz de ter seus filhos bem instruídos.
A visitação
dos doentes. Visto que os homens nunca estão mais expostos
às mais penosas tentações do que quando enfraquecidos por
enfermidades do espírito ou do corpo, sendo afligidos por elas, não
há dúvida de que nada é mais próprio aos pastores das igrejas do que
zelar com o maior cuidado pelo bem-estar do rebanho, em doenças ou
fraquezas. Portanto, que visitem os enfermos, prontamente, e que
sejam chamados em tempo pelos doentes, se as circunstâncias assim o
exigirem. Que os confortem e confirmem na verdadeira fé, ajudando-os
a lutar contra as perniciosas sugestões de Satanás. Devem também
orar pelos doentes no lar, e se necessário, orar por eles também no
culto público; e cuidem para que sintam felizes ao partir desta
vida. Dissemos anteriormente, que não aprovamos a visitação papista
ao doente com a extrema unção, por ser absurda, não tendo a
aprovação das Escrituras canônicas.
26. Do sepultamento dos
fiéis e do cuidado que se deve ter com os mortos;
do purgatório e da aparição de espíritos
O
sepultamento dos corpos. Sendo os corpos dos fiéis o templo
do Espírito Santo, que seguramente cremos hão de ser ressuscitados
no último dia, as Escrituras mandam que sejam entregues à terra,
honrosamente e sem superstição, e também que se façam referências
honrosas aos santos, que dormiram no Senhor, bem como se cumpram
todos os deveres de piedade familiar para com suas viúvas e órfãos.
Não ensinamos que se tenha qualquer outro cuidado com os mortos.
Portanto, damos ênfase ao fato de que desaprovamos os cínicos, que
negligenciavam os corpos dos mortos e descuidada e desdenhosamente
os lançavam à terra, nunca pronunciando uma boa palavra acerca do
falecido, ou se preocupando com os seus que ficaram.
O cuidado
pelos mortos. Por outro lado, não aprovamos aqueles que se
preocupam excessiva e indevidamente com os mortos; que, à semelhança
dos pagãos, lamentam os seus mortos (embora não censuremos o luto
moderado, que o apóstolo permite em I Tes 4.13, julgando até
desumano não entristecer-se alguém de modo nenhum); e que oferecem
sacrifícios pelos mortos, murmuram certas orações, não sem
paramento, com o fim de, por meio de tais cerimônias, libertar os
entes queridos dos tormentos em que foram imersos pela morte, e
pensam serem capazes assim de libertá-los por meio de tal magia.
O estado da
alma que deixou o corpo. Cremos que os fiéis, depois da
morte do corpo, vão diretamente para Cristo e, portanto, não há
necessidade de sufrágios e orações dos vivos pelos mortos, nem de
seus ofícios. Igualmente, cremos que os incrédulos são imediatamente
lançados no inferno, do qual não há saída possível para os ímpios
por quaisquer ofícios dos vivos.
Purgatório.
O que alguns ensinam a respeito do fogo do purgatório se opõe à fé
cristã, a saber, “creio no perdão de pecados e na vida eterna”, e à
perfeita purificação mediante Cristo, bem como a estas palavras de
Cristo, nosso Senhor: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a
minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não
entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (João 5.24). E
estas: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés;
quanto ao mais está todo limpo” (João 13.10).
A aparição de
espíritos. No tocante aos espíritos, ou às almas dos mortos,
que algumas vezes aparecem aos vivos e pedem a estes certos
trabalhos, pelos quais possam ser libertados, incluímos tais
aparições entre os ludíbrios, as artimanhas e os enganos do Diabo,
que, como pode transformar-se em anjo de luz, assim se esforça para,
ou transtornar a verdadeira fé, ou lançar dúvida sobre a mesma. No
Velho Testamento, o Senhor proibiu a busca da verdade com os mortos
e toda espécie de contacto com os espíritos (Deut 18.11). Ao rico
glutão, que estava em tormentos, como narra a verdade evangélica, se
negou a faculdade de voltar a seus irmãos. Assim diz o divino
oráculo: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Se não ouvem a
Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que
ressuscite alguém dentre os mortos” (Luc 16.29 ss)
27. Dos ritos, cerimônias e coisas indiferentes
Cerimônias e
ritos. Ao povo do Velho Testamento foram dadas no passado,
certas cerimônias, como uma espécie de instrução para os que estavam
sob a Lei, como sob um pedagogo ou tutor. Mas, quando veio Cristo, o
Libertador, e a Lei foi abolida, nós os fiéis, não estamos mais
debaixo da Lei (Rom 6.14), e as cerimônias desapareceram; por isso
os apóstolos não quiseram conservá-las ou restaurá-las na Igreja de
Cristo, a tal ponto que, abertamente declararam não desejarem pôr
nenhuma carga sobre a Igreja. Portanto, pareceria estarmos
introduzindo e restaurando o Judaísmo, se multiplicássemos as
cerimônias e os ritos na Igreja de Cristo, segundo o costume da
Igreja antiga. Por isso, de nenhum modo aprovamos a opinião daqueles
que pensaram que a Igreja de Cristo deve ser regulamentada por
diferentes ritos, como uma espécie de treinamento. Pois, se os
apóstolos não quiseram impor ao povo cristão cerimônias ou ritos,
que foram indicados por Deus, quem, pergunto eu, em perfeito juízo
haveria de impor-lhes invenções imaginadas pelo homem? Quanto mais
aumenta o volume de ritos na Igreja, tanto mais ela se despoja da
liberdade cristã, de Cristo, e de sua fé nele, enquanto o povo busca
nos ritos aquilo que deveria buscar somente pela fé no Filho de
Deus, Jesus Cristo. Por conseguinte, basta aos crentes, alguns ritos
moderados e simples, que não sejam contrários à Palavra de Deus.
Diversidade
de ritos. Se nas igrejas se encontram ritos diferentes,
ninguém deve pensar que por isso estejam as mesmas em desacordo. Diz
Sócrates: “Seria impossível colocar junto no papel todos os ritos
das igrejas, em todas as cidades e países. Nenhuma religião observa
os mesmos ritos, ainda que reconheça a mesma doutrina a respeito
deles. Pois, os que pertencem à mesma fé discordam entre si mesmos
acerca dos ritos” (Hist. ecclesiast. V. 22, 30, 62). Isto é o
que diz Sócrates. E nós, hoje, tendo em nossas igrejas diferentes
ritos na celebração da Ceia do Senhor e em algumas outras coisas,
contudo não discordamos na doutrina e na fé; nem é, por esse fato,
rasgada em pedaços a unidade e a comunidade de nossas igrejas.
Sempre tiveram as igrejas sua liberdade em tais ritos, como sendo
coisas indiferentes. O mesmo fazemos nós hoje.
Coisas
indiferentes. Mas, ao mesmo tempo as admoestamos a se
manterem em guarda, a fim de não considerarem indiferentes coisas
que de fato não o são, como querem alguns em relação à missa e ao
uso das imagens em lugares de culto. “Indiferente”, escreveu São
Jerônimo a Santo Agostinho, “é aquilo que não é bom nem mau, de modo
que, se você o fizer ou não fizer, não é justo nem injusto”.
Portanto, quando para dar validade às coisas indiferentes se torce a
confissão de fé, deixam as mesmas de ser indiferentes. São Paulo
mostra que está certo o homem comer carne, desde que alguém não o
informe de que foi oferecida aos ídolos; pois, de outra forma
estaria errado, visto que comendo, parece aprovar a idolatria (I Co
8.9 ss; 10.25 ss).
28. Dos bens da Igreja
Os bens da
Igreja e seu justo uso. A Igreja de Cristo conta com
recursos provindos da generosidade de príncipes e da liberalidade
dos fiéis, que doaram seus bens à Igreja. Necessita a Igreja de tais
recursos, e desde os tempos antigos têm-nos tido para a manutenção
de tudo o que lhe é necessário. Ora, o verdadeiro uso dos bens da
Igreja era outrora, e ainda o é, o de manter o ensino nas escolas e
nas reuniões religiosas, bem como o culto, ritos e edifícios
sagrados; manter mestres, discípulos e ministros, juntamente com
outras coisas necessárias, e especialmente ajudar a alimentar os
pobres. Administração. Além disso, homens sábios e tementes a Deus,
destacados na administração dos negócios devem ser escolhidos para
administrar legitimamente os bens da Igreja.
O mau uso dos
bens da Igreja. Mas, se por uma calamidade ou por causa da
ousadia, ignorância ou avareza de alguns, os bens da Igreja forem
malbaratados, devem ser restaurados para o uso sagrado por homens
fiéis e sábios. Pois, não se pode ser conivente com o abuso, o que
seria o maior sacrilégio. Portanto, ensinamos que as escolas e
instituições, que se tenham corrompido na doutrina, no culto e na
moral, devem ser reformadas, e que o serviço aos pobres deve ser
organizado de uma forma responsável, prudente e de boa fé.
29. Do celibato, casamento e administração dos negócios domésticos.
Pessoas
solteiras. Os que têm do céu o dom do celibato, de modo que,
de coração ou de toda a alma podem ser puros e continentes e não são
levados pelos ardores do sexo, sirvam ao Senhor nessa vocação,
enquanto se sentirem dotados do dom divino. E não se julguem
melhores do que os outros, mas sirvam o Senhor continuamente em
simplicidade e humildade (I Co 7.7 ss). Estes estão mais aptos a
lidar com as coisas divinas do que aqueles que se distraem com os
interesses particulares de uma família. Mas, no caso de ser-lhes
retirado o dom, e sentirem um durável ardor, lembrem-se das palavras
do apóstolo: “É melhor casar do que viver abrasado” (I Co 7.9).
Casamento.
O casamento (que é o remédio da incontinência e é a própria
continência) foi instituído pelo Senhor Deus mesmo, que o abençoou
da maneira mais generosa, e que desejou que o homem e a mulher se
unissem um ao outro inseparavelmente e vivessem juntos em completo
amor e concórdia (Mat 19.4 ss). Sobre isso sabemos o que disse o
apóstolo: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o
leito sem mácula” (Heb 13,4). E outra vez: “Se a virgem se casar,
por isso não peca” (I Co 7.28).
As seitas.
Condenamos, portanto, a poligamia e os que condenam o segundo
casamento.
Como deve ser
contraído o casamento. Ensinamos que o casamento deve ser
contraído legalmente no temor do Senhor, e não contra as leis, que
proíbem certos graus de consangüinidade, a fim de que o casamento
não seja incestuoso. O casamento deve ser feito com o consentimento
dos pais, ou dos que estão em lugar dos pais, e acima de tudo para o
fim para o qual o Senhor instituiu o casamento. Além disso, devem
conservar-se santos, com a máxima fidelidade, piedade, amor e pureza
dos que se uniram. Portanto, evitem-se as discussões, as dissenções,
a lascívia e o adultério.
Fórum
matrimonial. Devem estabelecer-se cortes legais na Igreja,
tendo juizes santos, que possam cuidar dos casamentos, reprimir a
impureza e a imprudência, diante dos quais se resolvam os conflitos
matrimoniais.
A criação dos
filhos. Devem os filhos ser criados pelos pais, no temor do
Senhor; e devem os pais prover o sustento dos seus filhos,
lembrando-se do que disse o apóstolo: “Ora, se alguém não tem
cuidado dos seus e especialmente dos de sua própria casa, tem negado
a fé, e é pior do que o descrente” (I Tm 5.8). Mas, devem
principalmente ensinar a seus filhos para terem uma carreira ou
profissões honestas com que possam manter-se a si mesmos. Devem
conservá-los afastados da ociosidade, e em tudo inculcar neles a
verdadeira fé em Deus, a fim de que, pela falta de confiança ou
demasiada segurança ou pela feia avareza venham a tornar-se
dissolutos, e a fracassar na vida.
Aliás, é muito
certo que as obras praticadas pelos pais com verdadeira fé, mediante
os deveres domésticos e administração de sua casa, são, aos olhos de
Deus, santas e verdadeiramente boas obras. Não são menos agradáveis
a Deus do que as orações, os jejuns e as obras de beneficência.
Pois, assim ensinou o apóstolo em suas epístolas, especialmente nas
dirigidas a Timóteo e a Tito. E com o mesmo apóstolo incluímos entre
os ensinos de demônios a doutrina dos que proíbem o casamento e
abertamente o criticam ou indiretamente o desacreditam, como se não
fosse santo e puro.
Execramos também, a
vida impura dos solteiros, a lascívia secreta ou às claras, e a
fornicação dos hipócritas, que simulam continência, sendo os mais
incontinentes de todos. A todos estes julgará Deus. Não desaprovamos
as riquezas dos que as possuem, quando são piedosos e fazem bom uso
delas. Mas, rejeitamos a seita dos Apostólicos, etc.
30. Da magistratura
A
magistratura vem de Deus. A magistratura em todas as suas
formas foi instituída por Deus mesmo para a paz e a tranqüilidade do
gênero humano, devendo pois, ter o lugar mais importante no mundo.
Se o magistrado for inimigo da Igreja poderá entravar a sua ação e
perturbá-la muito; mas sendo amigo ou membro da Igreja, torna-se o
mais útil e excelente entre os seus membros, podendo ajudá-la muito
e dar-lhe assistência melhor do que todos os demais.
O dever do
magistrado. O principal dever do magistrado é garantir e
preservar a paz e a tranqüilidade pública. Indubitavelmente, ele
nunca realizará isso com tanto sucesso como quando é de fato temente
a Deus e religioso. Quer isso dizer, quando segundo o exemplo dos
mais santos reis e príncipes do povo do Senhor, promove o magistrado
a pregação da verdade e a fé sincera, extirpa as mentiras e toda a
superstição, juntamente com toda impiedade e idolatria e defende a
Igreja de Deus. Certamente, ensinamos que o cuidado da religião
pertence especialmente ao santo magistrado.
Tenha ele, pois, em
suas mãos a Palavra de Deus, tomando cuidado de que não se ensine
nada contrário à mesma. Governe também o povo, que lhe foi confiado
por Deus, por meio de boas leis, elaboradas segundo a Palavra de
Deus, conservando-o na disciplina, no dever e na obediência. Exerça
o seu ofício de magistrado, julgando com justiça. Não faça acepção
de pessoas, nem aceite subornos. Proteja as viúvas, os órfãos e os
aflitos. Use sua autoridade para punir os criminosos e até bani-los,
bem como aos impostores e bárbaros. Pois, não é sem motivo que ele
traz a espada. (Rom 13.4).
Portanto,
desembainhe a espada de Deus contra todos os malfeitores,
sediciosos, ladrões, homicidas, opressores, blasfemadores, perjuros,
e contra todos aqueles, a quem Deus lhe ordenou punir e mesmo
executar. Reprima os hereges incorrigíveis (verdadeiramente
heréticos), que não cessam de blasfemar contra a majestade de Deus,
e de perturbar e mesmo pôr em perigo a Igreja de Deus.
Guerra.
E, se for necessário preservar pela guerra a segurança do povo, que
o magistrado declare guerra em nome de Deus, desde que tenha
primeiramente procurado por todos os meios possíveis fazer a paz,
não podendo pois, salvar seu povo a não ser pela guerra. Quando,
pela fé pratica o magistrado estas coisas, serve a Deus por aquelas
obras, que são verdadeiramente boas, e recebe a bênção do Senhor.
Condenamos os
Anabaptistas que, ao negarem possa o cristão exercer o ofício de
magistrado, negam também que o homem possa ser, com justiça,
condenado à morte pelo magistrado, ou que este possa declarar
guerra, ou que se prestem juramentos ao magistrado, e coisas
semelhantes.
O dever dos
súditos. Como Deus efetua a segurança do povo através do
magistrado, a quem deu ao mundo para ser como uma espécie de pai,
assim ordena a todos os súbditos que reconheçam este favor de Deus
no magistrado. Que os súditos, pois, honrem e respeitem o magistrado
como ministro de Deus; que o estimem, colaborem com ele, orem por
ele como por um pai, e obedeçam às suas decisões justas e legítimas.
Finalmente, paguem fiel e prontamente todos os impostos e taxas e
todos os demais direitos. E se a segurança pública do país e a
justiça o exigirem, e vir-se o magistrado obrigado a empreender uma
guerra, dêem até suas vidas e derramem o seu sangue pela segurança
pública e pela do magistrado. E o façam em nome de Deus,
espontaneamente, com bravura e alegria. Pois, quem se opõe ao
magistrado provoca contra si mesmo a severa ira de Deus.
Seitas e
sedições. Condenamos, portanto, todos quantos desprezam o
magistrado - os rebeldes, os inimigos do estado, os vilões
sediciosos, enfim, todos os que aberta ou astuciosamente se recusam
a cumprir qualquer das obrigações, que lhes competem. Oramos a Deus,
nosso mui misericordioso Pai do Céu, para que abençoe os
governantes, a nós e a todo o seu povo, mediante Jesus Cristo, nosso
único Senhor e Salvador, a quem seja o louvor e a glória, e as ações
de graças, para todo o sempre. Amém.
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Revisão: Pr. Franklin Ferreira. |