
Se crer que o homem está “tão morto” no pecado que ele é incapaz de vir a Cristo por si mesmo é
“Calvinismo extremado”, então, o Senhor Jesus antecedeu em 1500 anos a
Calvino com a Sua pregação na sinagoga em Cafarnaum, registrada em João 6.
Aqui temos o Senhor ensinando quase tudo o que Norman Geisler identifica
como “Calvinismo extremado”. Jesus ensina que Deus é soberano e age
independentemente das "livres escolhas" dos homens. Ele, da mesma forma,
ensina que o homem é incapaz de ter a fé salvadora, aparte da capacitação
do Pai. Ele então limita este trazer [do Pai, João 6:44] aos mesmos
indivíduos dados pelo Pai ao Filho. Ele então ensina a graça irresistível
sobre os eleitos (não sobre os “dispostos”) quando Ele afirma que
todos aqueles que são dados a Ele, virão a Ele. João
6:37-45 é a mais clara exposição na Bíblia do que EML [Eleitos, Mas Livres]
chama de “Calvinismo extremado”. E ainda, EML ignora a maioria das
passagens, oferece uma resposta ao versículo 44 que é simplesmente
incompreensível, e oferece uma sentença em resposta ao versículo 45. Já
vimos que João 6:37 é citado algumas vezes, mas nenhuma interpretação dele
é oferecida.
Há uma boa razão porque EML tropeça neste
ponto: não há nenhuma exegese não-reformada significante disponível sobre
a passagem avaliada. Não obstante as inúmeras tentativas dos exegetas
Arminianos de encontrar alguma solução para esses versículos, nem
mesmo uma única solução plausível tem sido oferecida que não requeira uma
completa desmantelação do texto, uma redefinição das palavras ou uma
inserção de conceitos extremamente estranhos. Uma coisa é absolutamente
certa: Jesus ensinou a completa soberania da graça às pessoas que estavam
reunidas na sinagoga de Cafarnaum, há aproximadamente dois milênios. Se
desejarmos honrar a Sua verdade, não podemos fazer menos do que disso.
Ouçamos Jesus ensinar o “Calvinismo extremado” quase 1500 anos antes de
Calvino nascer, nas palavras do evangelho de João.
João 6:37-40
Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que
vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não
para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a
vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me
deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade
daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele,
tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.
A despeito da riqueza dessa passagem, um
esforço honesto será feito para que sejamos breve no comentário fornecido. O cenário é importante: Jesus fala a uma multidão reunida na
sinagoga de Cafarnaum. Eles tinham seguido-O após a alimentação dos cinco
mil no dia anterior. Eles estavam buscando mais milagres, e mais alimento.
Jesus não saciou as suas "necessidades físicas", mas foi diretamente ao
assunto real: quem Ele era e como Ele é o centro da obra de redenção de
Deus. Ele identifica-se como o "Pão da Vida" (v. 35), a fonte
de todo
alimento espiritual. Em nosso cenário moderno, podemos não sentir a força
de Suas palavras como eles devem ter sentido naquela manhã. "Quem é este
homem para falar dessa forma de Si mesmo?", eles devem ter pensado. Nem
mesmo os maiores profetas de Israel instruíram as pessoas a ter fé
neles mesmos ! Nem mesmo um Abraão ou um Isaías desejaria reivindicar
ter descido do céu, nem jamais diriam "aquele que vem a mim, de modo algum
terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede". Devemos tentar sentir o
impacto impetuoso dessas palavras à medida que elas foram faladas.
O bendito Senhor foi totalmente duro com a
Sua audiência. Ele sabia que eles não possuíam uma fé verdadeira. "Mas
como já vos disse, vós me tendes visto, e contudo não credes" (v. 36).
Eles tinham visto-O com os seus olhos, mas a menos que a visão física seja
unida com a iluminação espiritual, ela não será de proveito algum.
Freqüentemente a importância dessa declaração é negligenciada. O verso 36
é um ponto crítico no capítulo. Jesus agora explica a incredulidade deles.
Como é que esses homens poderiam estar diante do próprio Filho de Deus, o
Verbo feito carne, e não crer? Qualquer pessoa que não toma
seriamente a morte do homem no pecado deveria contemplar essa cena. O
próprio Criador em forma humana está diante de homens que eram bem
versados nas Escrituras e aponta para a incredulidade deles. Ele então
explica o porque e, todavia, pouquíssimos hoje ouvirão e crerão.
“Todo o que o Pai me dá virá a mim”. Essas
são as primeiras palavras que vieram do Senhor na explicação da
incredulidade do homem. Não ousamos nos engajar na brincadeira de
amarelinha em cima desse texto e ignorar a própria ordem do ensino que Ele
provê. A primeira afirmativa é uma da completa soberania divina. Cada
palavra diz muita coisa.
“Todo o que o Pai me dá”. O Pai dá alguns a
Cristo. Os eleitos são vistos como um todo singular, dados pelo Pai ao Filho. O Pai tem o direto de dar uma pessoa ao Filho. Ele é o soberano
Rei, e esta é uma transação divina.
Todos os que são dados pelo Pai ao
Filho vêm ao Filho. Não alguns, não muitos, mas todos.
Todos aqueles dados pelo Pai ao Filho
virão ao Filho. É vital ver a verdade que é comunicada por essa
frase: o ato do Pai dar ao Filho precede e determina a vinda da pessoa
a Cristo. A ação de dar pelo Pai vem antes da ação de vir a
Cristo pelo indivíduo. E visto que todos daqueles assim dados
virão infalivelmente , temos aqui tanto a eleição condicional bem
como a graça irresistível, e isto no espaço de nove palavras! Torna-se um
óbvio exercício na eisegesis [interpretação pessoal de um texto
(especialmente da Bíblia), usando suas próprias idéias; não confundir com
exegese] dizer: "Bem, o que o Senhor realmente quis dizer é que todos que
o Pai viu que creriam em Cristo, virão a Cristo". Esta é uma declaração
sem sentido. Visto que o ato de vir é dependente da ação de
dar , podemos ver que simplesmente não é exegeticamente possível
dizer que não podemos determinar a relação entre as duas ações. O ato de
dar de Deus resulta no vir do homem. A salvação é do Senhor.
Mas note também que é para o Filho
que eles virão. Eles não virão para um sistema religioso. Eles virão
a Cristo. Esse é um relacionamento pessoal, uma fé pessoal, e, visto
que aqueles que vêm são descritos através de toda a passagem pelo
particípio do tempo passivo, ela não é apenas uma vinda que acontece uma
só vez. Essa é uma fé contínua, um olhar contínuo para Cristo como a fonte
da vida espiritual. Os homens a quem o Senhor estavam falando "vieram" a
Ele por um tempo: em breve eles O deixariam e não O seguiriam mais. O
verdadeiro crente está vindo a Cristo sempre. Essa é a natureza
da fé salvadora.
“E o que vem a mim de maneira nenhuma o
lançarei fora”. O verdadeiro crente, aquele que "vem" a Cristo, tem essa
promessa do Senhor: usando a forma mais forte de negação possível, Jesus afirma a eterna segurança do crente. Jesus é Aquele que dá
vida e levanta os Seus no último dia. Ele promete que não há qualquer
possibilidade de que alguém que esteja vindo a Ele em verdadeira
fé possa encontrá-Lo indisposto para salvá-lo. Mas essa tremenda promessa
é a segunda metade de uma sentença . Ela é baseada sobre a
verdade que foi primeiramente proclamada. Essa promessa é para aqueles que
são dados pelo Pai ao Filho e a ninguém mais . Certamente,
veremos no versículo 44 que ninguém senão aqueles que são assim dados,
virão a Cristo em fé de qualquer jeito: mas há certamente aqueles que,
como muitos daquela audiência em Cafarnaum, estão dispostos a seguir
por um tempo , dispostos a crer por um tempo. Essa promessa
não é deles.
A promessa aos eleitos, contudo, não pode
ser mais preciosa. Visto que Cristo é capaz de salvar perfeitamente (Ele
não depende da vontade ou da cooperação do homem), Sua promessa significa
que o eleito jamais pode se perder. Visto que Ele não lançará fora, e que
não há poder maior do que o Seu, aquele que vem a Cristo encontrará nEle
um Salvador todo-suficiente e perfeito. Essa é a única base da
"segurança eterna" ou da perseverança dos santos: eles olham para um
Salvador que é capaz de salvar. E a capacidade de Cristo para
salvar que significa que o redimido não pode se perder. De fato, se
houvesse uma relação sinergística, não poderia haver nenhum fundamento
para uma absoluta confiança e segurança.
Muitos param no verso 37 e perdem a
tremenda revelação que somos privilegiados de receber nos versos
seguintes. Por que Cristo nunca lançará fora aqueles que vêm a Ele? O
verso 38 começa com uma conjunção que indica uma continuação do
pensamento: o verso 38 e 39 explicam o verso 37. Cristo guarda todos
aquele que vem a Ele porque Ele está cumprindo a vontade do Pai. “Eu desci
do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me
enviou”. O Messias divino sempre faz a vontade do Pai. O capítulo
precedente no Evangelho de João deixa isto muito claro. Há perfeita
harmonia entre a obra do Pai e a do Filho.
E qual é a vontade do Pai para o Filho? Em
termos simples, a vontade do Pai é que o Filho salve perfeitamente
. “ E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos
aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia”. É vital
lembrar que isso continua a explicação do porque Ele não lança fora aquele
que vem a Ele. Devemos ver isso, pois alguém pode ser tentado a dizer que
o Pai confiou todas as coisas nas mãos do Filho, e que essa passagem não
está dizendo nada mais de que o Filho agirá de forma apropriada com
respeito àqueles que o Pai Lhe deu. Mas o contexto é claro: o verso 37
fala do pai "dando" os eleitos ao Filho, e o verso 39 continua o mesmo
pensamento. Aqueles que são dados, infalivelmente virão ao Filho no verso
3, e são esses mesmos, os eleitos, que são ressuscitados no último dia. Ressurreição é uma obra de
Cristo, e nessa passagem, é comparada com o doar da vida eterna (veja v.
40). Cristo dá vida eterna a todos aqueles que são dados a Ele e que, como
resultado, vêm a Ele.
Devemos perguntar ao Arminiano que promove
a idéia de que uma pessoa verdadeiramente salva pode se perder: isto não
significa que Cristo pode falhar em fazer a vontade do Pai? Se a vontade
do Pai para o Filho é que Ele não perca nenhum daqueles que Lhe
foram dados, não se segue inexoravelmente que Cristo é capaz de
realizar a vontade do Pai? E isto não nos força a crer que o Filho é capaz
de salvar sem a introdução da vontade do homem como autoridade final
no assunto ? Pode algum sinergista (alguém que ensina, como o Dr.
Geisler o faz, que a graça de Deus opera "sinergisticamente" e que o
livre-arbítrio do homem é uma parte vitalmente importante do processo da
salvação, e que nenhum homem é salvo a menos que esse homem deseje isso)
crer nessas palavras? Pode alguém que diz que Deus tenta salvar
tantos quantos "possível", mas não pode salvar ninguém sem a
cooperação do homem, crer no que esse verso ensina? Não é a vontade do Pai
que Cristo tente salvar, mas que Ele salve perfeitamente um
povo particular . Ele não perderá nenhum de todos aqueles
que o Pai lhe deu. Como pode ser isso se, na verdade, a decisão final
descansa com o homem, e não com Deus? É a vontade do Pai que resulta na
ressurreição para a vida de qualquer indivíduo. Isso é eleição
nos mais fortes termos, e ela é ensinada com clareza nas Escrituras.
O verso 39 começa com “A vontade daquele
que me enviou é esta”, e o verso 40 faz o mesmo: “A vontade do Pai que me
enviou é esta”. Mas no verso 39 temos a vontade do Pai para o Filho.
Agora temos a vontade do Pai para o eleito. “Que todo aquele que vê o
Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último
dia”. Espantosamente, arrancam esse texto fora do seu contexto, se
equivocam com a referência ao "todo aquele que vê...todo aquele que crê
nEle", e dizem, "Veja, não há eleição divina aqui! Qualquer um pode fazer
isso!". Mas é óbvio que, quando o texto é tomado como um todo, esta não é
a intenção da passagem. Quem é aquele que "vê" o Filho e "crê" nEle?
Ambos os termos estão no presente particípio, referindo-se a uma ação
contínua, da mesma forma como vimos na "vinda de alguém" a Cristo no verso
37. Jesus ressuscitará no último dia todos aqueles que Lhe foram
dados (v. 39) e todos aqueles que estão olhando e crendo nEle (v.
40). Devemos crer que há grupos diferentes? Certamente que não. Jesus
ressuscita somente um grupo para a vida eterna. Mas visto que isso é
assim, não se segue que todos aqueles dados a Ele olharão para Ele e
crerão nEle? Mais do que certo que sim. A fé salvadora, então, é exercida
por todos aqueles dados ao Filho pelo Pai (uma das razões pelas quais,
como veremos, a Bíblia afirma claramente que a fé salvadora é um dom de
Deus).
João 6:41-45
Murmuravam, pois, dele os judeus, porque
dissera: Eu sou o pão que desceu do céu; e perguntavam: Não é Jesus, o
filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz agora: Desci
do céu? Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a
mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último
dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto
todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.
Os judeus estavam murmurando por causa
desse ponto no discurso: eles rejeitaram a Sua reivindicação de origem
divina, assumindo em vez disso que Ele era apenas um mero homem, o filho
de José. Jesus não se desvia de Sua apresentação por causa dos pensamentos
e confusão vagueadoras deles. Ele os instrui a parar de murmurar (v. 43) e
então explica a incredulidade persistente deles.
“Ninguém pode vir a mim”. Literalmente
Jesus diz: "Nenhum homem é capaz de vir a mim". Essas são palavras de
incapacidade e elas são colocadas num contexto universal. Todos os
homens compartilham isso em comum: eles são carentes da capacidade de vir
a Cristo em e de si mesmos. A incapacidade compartilhada é devido a uma
natureza caída compartilhada. Isto é o "morto em pecado" (Efésios 2:1) e
i "incapaz de agradar a Deus" (Romanos 8:8) de Paulo. É a doutrina
Reformada da depravação total: a incapacidade do homem ensinada pelo
Senhor que conhece os corações de todos os homens. Se o texto terminasse
aqui, não haveria nenhuma esperança, nenhuma boas novas. Mas ele não pára
aqui.
"Ninguém pode vir a mim, a menos que o Pai
que Me enviou, o traga" [versão do autor - New American Standard Version].
As boas novas é que há um "a menos" em João 6:44, assim como há um "Mas
Deus" em Efésios 2:4. Em ambos os casos não é o livre-arbítrio do homem
que vem para salvar, mas o livre-arbítrio de Deus. Todos os homens seriam
deixados numa posição sem esperança de "incapacidade para vir" a menos
que Deus aja, e Ele o faz trazendo os homens a Cristo. Fora desta
capacitação divina (conforme 6:65) nenhum homem pode vir a Cristo. Nenhum
homem pode "querer" vir a Cristo fora desse trazer divino.
Certamente, a resposta imediata de muitos
é, "Sim, deveras, Deus deve prover algum tipo de graça preveniente, algum
tipo de trazer, antes que alguém possa escolher crer". Mas é isto o que o
texto está dizendo? Lembre-se que essas palavras vêm imediatamente após a
afirmação de que todos que o Pai dá ao Filho, virão ao
Filho (v. 37). Os eruditos Reformados afirmam que aqueles que são trazidos
são aqueles que são dados pelo Pai ao Filho: isto é, os eleitos. Eles
apontam para o contexto imediato que identifica aqueles que vêm a Cristo
como os eleitos. Mas o resto do versículo 44 explica porque isso deve
ser assim: "e Eu o ressuscitarei no último dia". Quem Jesus
ressuscitará no último dia? O verso 39 diz que Ele ressuscitará todos
aqueles dados a Ele pelo Pai; o verso 40 diz que Ele ressuscitará
todos aqueles que estão olhando e crendo nEle; o verso 44 diz que Ele
ressuscitará todos aqueles que são trazidos pelo Pai. A
identidade daqueles ressuscitados no último dia para a vida eterna é
absolutamente co-extensiva com a identidade daqueles que são
trazidos! Se uma pessoa é trazida, ela será também ressuscitada para a
vida eterna. Obviamente, então, não pode ser afirmado que Cristo, neste
contexto, está dizendo que o Pai está trazendo todo ser humano em
particular, porque 1) o contexto limita isto àqueles dados pelo Pai
ao Filho, 2) esta passagem ainda está explicando a incredulidade
dos Judeus, a qual não teria nenhum sentido s e de fato o Pai está
trazendo esses incrédulos a Jesus, e 2) se assim fosse, o universalismo
seria o resultado, porque todos que são trazidos são da mesma forma
ressuscitados no último dia.
João Calvino é admitido, até mesmo por seus
inimigos, ter sido um tremendo exegeta das Escrituras. Claros e
criteriosos, os comentários de Calvino continuam a ter nesses dias grande
utilidade e benefício para o estudante das Escrituras. Aqui está seu
comentário sobre João 6:44:
Vir a Cristo sendo aqui
usado metaforicamente para crer, o Evangelista, a fim de colocar a
metáfora na cláusula adequada, diz que as pessoas que são trazidas são
aquelas cujos entendimentos Deus iluminou e cujos corações Ele dirigiu e
transformou à obediência de Cristo. A declaração se resume nisto: que não
devemos nos maravilhar se muitos recusam abraçar o Evangelho; porque
nenhum homem jamais será de si mesmo capaz de vir a Cristo, mas Deus deve
primeiro trazê-lo pelo Seu Espírito; e, portanto, segue-se que nem todos
são trazidos, mas que Deus concede essa graça àqueles que Ele elegeu. É
verdade, todavia, com respeito ao tipo desse trazer, que ele não é
violento, de forma que compele os homens por uma força externa; mas ainda
é um impulso poderoso do Espírito Santo, que faz com que os homens que
anteriormente eram indispostos e relutantes, sejam dispostos. É uma falsa
e profana afirmação, portanto, dizer que ninguém é trazido, senão aqueles
que estão dispostos a serem trazidos, como se o homem por si mesmo se
fizesse obediente a Deus por seus próprios esforços; porque a disposição
com a qual os homens seguem a Deus é o que eles já tinham por si mesmos,
que foi formada em seus corações para obedecê-Lo".
Jesus continua esse pensamento no verso 45,
citando uma profecia de Isaías, e diz: “Todo aquele que do Pai ouviu e
aprendeu vem a mim”. Ouvir e aprender do Pai é paralelo com ser trazido no
verso 44. Jesus usou o mesmo tipo de terminologia quando Ele ensinou que
somente aqueles que "pertencem a Deus" podem ouvir Suas palavras (João
8:47).
Resumindo, então, Jesus certamente ensinou
a absoluta soberania de Deus, a incapacidade do homem, a eleição
incondicional de um povo para salvação, a graça eficiente de Deus que
infalivelmente traz salvação aos eleitos e a perseverança final
desses eleitos para a vida eterna. Esse é um dos textos chaves
que apóiam a posição Reformada identificada como "Calvinismo extremado" em
EML.
A Resposta de EML
Assim como com todas as outras passagens
chaves (Romanos 8,9, Efésios 1 e João 6), EML não oferece nenhum exegese
da passagem baseada contextualmente e cuidadosamente. Vimos na introdução
que João 6:37, embora citado, nunca é discutido. Nada é dito sobre seu
testemunho da eleição incondicional ou da graça irresistível. Ele é
simplesmente ignorado. O livro é coberto de reivindicações de apresentar
um estudo definido do assunto da soberania divina e do livre arbítrio. Tal
estudo requereria uma obra extensiva sobre aquelas passagens chaves. Nada
é oferecido, e o que é oferecido não é exegético em sua natureza.
Somente três argumentos são oferecidos no
livro em resposta a João 6:44, e um a João 6:45. Visto que a relação ao
restante da passagem não é nem mesmo mencionada, não é surpresa que as
passagens não sejam analisadas exegeticamente dentro do seu contexto. De
fato, pouco é dito sobre as reais palavras do texto. Em vez disso, o
significado claro é explicado fazendo-se referências a outras passagens.
Comecemos com João 6:44:
Em segundo lugar, João
12:32 deixa claro que a palavra "atrair" não pode significar "graça
irresistível" sobre o eleito por uma simples razão: Jesus disse: "Mas eu,
quando for levantado da terra, atrairei todos a mim". Nenhum
calvinista autêntico crê que todos os homens serão salvos.
Esta é a resposta mais comum: ao invés de
seguirem o curo do sermão entregue por Jesus, os Arminianos imediatamente
abandonam João 6 e citam João 12:32. O significado de "atrair" [ou
"trazer" - no inglês a palavra usada em João 6:44 e João 12:32 é a mesma,
ou seja, "draw"], totalmente discernível a partir do texto de
João 6, é lida a partir de um significado assumido em João 12. Este é um
método faltoso de exegese por muitos motivos. Mas mesmo aqui, a tentativa
dos Arminianos falha, porque João 12:32 não ensina o universalismo mais do
que João 6:44 o faz. Note o contexto da passagem:
Ora, entre os que tinham subido a adorar na
festa havia alguns gregos. Estes, pois, dirigiram-se a Felipe, que era de
Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a
Jesus. Felipe foi dizê-lo a André, e então André e Felipe foram dizê-lo a
Jesus. (João 12:20-22)
João 12 narra os eventos finais do
ministério público de Jesus. Depois desse incidente particular, o Senhor
passaria um período de ministério privado aos Seus discípulos exatamente
antes dEle ir a cruz. As palavras finais do ensino público do Senhor são
estimuladas pela chegada dos gregos que estavam procurando Jesus. Essa
importante mudança de eventos causa o ensino que se segue. Jesus está
agora sendo procurado pelos não-judeus, os gentios. É quando Jesus é
informado sobre isso que Ele diz, " É chegada a hora de ser glorificado o
Filho do homem. "
Este, então, é o contexto que nos leva às
palavras de Jesus no verso 32:
Agora a minha alma está perturbada; e que
direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas para isto vim a esta hora. Pai,
glorifica o teu nome. Veio, então, do céu esta voz: Já o tenho
glorificado, e outra vez o glorificarei. A multidão, pois, que ali estava,
e que a ouvira, dizia ter havido um trovão; outros diziam: Um anjo lhe
falou. Respondeu Jesus: Não veio esta voz por minha causa, mas por causa
de vós. Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste
mundo. E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto
dizia, significando de que modo havia de morrer. (João 12:27-33)
Há duas chaves para se entender porque o
que os Arminianos entendem dessa passagem é extremamente indefensável: a
primeira é que temos que ver que foi a chegada dos gregos procurando Jesus
que ocasionou essas palavras. Os exegetas reformados crêem que "todos" se
referem aos judeus e gentios, não a cada indivíduo particularmente, e o
contexto aponta para essa direção. Mas mais devastadora para o
entendimento Arminiano é uma simples questão: a cruz atrai todas as
pessoas individualmente? É isso o que a Bíblia realmente ensina sobre a
cruz? Certamente que não! A cruz é loucura para os gentios e uma pedra de
tropeço para os judeus, como Paulo ensinou:
Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os
gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é pedra de
tropeço para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são
chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de
Deus. (1 Coríntios 1:22-24)
Paulo conhecia essa verdade da mesma forma
como Jesus a ensinou: "para os que são chamados, tanto judeus como
gregos... ". Para quem Cristo é o poder e a sabedoria de Deus? Para
"os chamados". O que é a pregação da cruz para aqueles que são chamados?
Algo que os atrai [ou traz], ou que os repele? A resposta é óbvia. A cruz
de Cristo é loucura para o mundo. Essas considerações, juntamente com o
contexto imediato dos gentios procurando Cristo, deixa claro que Jesus
estava dizendo que se Ele fosse levantado na crucificação, Ele traria
todos os homens, judeus e gentios, para si mesmo. Isso é o mesmo que dizer
que havia ovelhas que não eram daquele rebanho (João 10:16), os gentios,
que se tornaram um corpo em Cristo (Efésios 2:13-16).
Finalmente, se lemos essa errante
interpretação de João 12:32 apoiada em João 6:44 (e para fazer assim,
requere-se algum tipo de demonstração de que a simples palavra "atrair"
[trazer] deve ter o mesmo exato significado e objetos em
ambos os contextos, algo que EML nem mesmo tenta provar) faremos
exatamente como Geisler afirma: criaremos o universalismo, mas não porque
a visão Reformada é um erro. Já temos visto que todos que são
trazidos são também ressuscitados no último dia. Ao invés de usar esse
argumento para derrubar o claro ensinamento de 6:44, EML deveria ver que o
grupo que está sendo traído não é cada indivíduo em particular, mas os
eleitos (como indicado pelo contexto),e que o resultado é deveras
a visão Reformada da graça irresistível:
Em terceiro lugar, a
palavra "todos" não pode significar somente alguns homens em João 12.32.
Pouco antes (João 2:24,25), quando Jesus afirmou conhecer a "todos",
estava claro que não se referia apenas aos eleitos. Por que, então,
deveria "todos" significar "alguns" em João 12:32? Se quisesse dizer
"alguns", facilmente teria feito assim.
Novamente, esse tipo de argumentação é
completamente falaciosa. Primeiro, João diz que Jesus "conhecia todos os
homens", não apenas "todos os homens pecaminosos". Essa é simplesmente uma
leitura incorreta do texto. Em segundo lugar, EML não tenta provar que a
frase "todos os homens" em João 2:24 é para ser entendida como sinônimo
com o uso dela em João 12:32.
Finalmente, o fato de ser
atraídos por Deus estava condicionado à fé. O contexto dessa atração
(6:37) é "aquele que crê" (6:35) ou "todo o que nele crer" (6:40). Os que
crêem que são capacitados por Deus para ser atraídos a Jesus. Jesus
acrescenta: "É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a
não ser que isto lhe seja dado pelo Pai" (6:65). Um pouco depois, ele diz:
"Se alguém decidir fazer a vontade de Deus, descobrirá se o meu
ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo" (João 7:17). Disso fica
evidente que o entendimento que possuíam do ensino de Jesus e de serem
atraídos ao Pai resultam da própria livre escolha deles.
Como vimos com Romanos 9:16, é simplesmente
impressionante que uma passagem que é tão diretamente contraditória à
teoria Arminiana do livre-arbítrio possa ser transformada numa afirmação
de "livre escolha". De todas as declarações em EML, admitimos que esta é
uma das mais difíceis de entender, porque ela tem a menor conexão possível
com o assunto que supostamente está tratando. Lembre-se que esse verso
começa com a frase, " Ninguém pode vir a mim ", e todavia, a primeira
linha da resposta é, " Finalmente, o fato de ser atraídos por Deus estava
condicionado à fé. " Esta afirmação sem fundamento não tem conexão com o
texto, seja qual for, e a tentativa de prová-la somente compõe o erro
eisegético. Dado que esta é uma passagem vital e a resposta tão indicativa
da incapacidade dos escritores Arminianos de manuseá-lo, apontaremos cada
erro como ele é apresentado:
O contexto dessa atração
(6:37) é "aquele que crê" (6:35) ou "todo o que nele crer" (6:40).
Realmente, a palavra "trazer" não aparece
em 6:37; ao invés disso, esse verso (que não recebe resposta em EML) diz
que o Pa dá um povo ao Filho, e como resultado disso, aquele povo
infalivelmente, sem fracasso, vem ao Filho. Esse verso definitivamente
fornece um importante elemento do contexto: um ignorado por EML. Somos
informados que esse contexto é "aquele que crê" (6:35) ou "todo o que
crer" (6:40). Temos visto que aqueles que crêem assim o fazem, nesse
texto, porque o Pai lhes deu ao Filho. Temos visto que Jesus está
explicando porque esses homens não crêem (6:36). Esses elementos
contextuais são ignorados por EML. Ao invés disso, a importantíssima
afirmação do livre-arbítrio é inserida na passagem sem nenhuma tentativa
de prover um fundamento para assim o fazer. Mas isso é seguido com a mais
impressionante de todas as afirmações em EML:
Os que crêem que são
capacitados por Deus para ser atraídos a Jesus.
Para ser honesto, essa sentença não faz
nenhum sentido. Ela soa como se estivesse dizendo que ser "trazido" a Deus
não é salvífico: isto é, é mais parecida com um "trazer para mais perto de
Deus" em devoção ou alguma coisa semelhante. Em qualquer caso, o
significado certamente não tem nada a ver com o texto: obviamente, vir a
Cristo é crer nEle: eles são sinônimos em João. Assim, essa
passagem não está dizendo que Deus "traz" crentes para uma relação mais
íntima com Cristo. Pelo contrário, ela está dizendo que ninguém é capaz de
vir a Cristo em fé, a menos que seja trazido pelo Pai, e que todos
que são trazidos serão ressuscitados, porque todos que o Pai dá ao
Filho, virão ao Filho com fé salvadora. Esta vinda é
obviamente o ato da fé salvadora, porque Jesus diz que aquele que vir
a Ele, Ele não lançará fora.
Além do mais, deve ser assinalado que não
há nada na passagem sobre fé acontecendo antes do ser trazido: o trazer
resulta em fé. Não há nada no texto sobre Deus capacitando dos homens
a serem trazidos . Deus traz, ponto. Não podemos fazer nada, senão
apontar quão completamente inversa a essa interpretação é a do
texto real. Mas, continuemos:
"E continuou: Por isso vos disse que
ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai". (João
6:65)
Esta é simplesmente uma redeclaração de
6:44 com a mudança de "dado" (NASB: "lhe concedido"; como na ARC e na ARA)
por "trazido". Em ambos os casos a mesma verdade está sendo apresentada.
O que é perdido na citação é o fato que Jesus "está dizendo" isto, usando
o tempo perfeito, indicando que Ele estava repetindo isto. Os discípulos
tinham ido embora, e Jesus explica a deserção e incredulidade da multidão
da mesma forma como antes: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja
concedido pelo Pai. E já temos visto que o pai concede isto aos eleitos de
Deus somente .
Um pouco depois Ele diz: " Se alguém quiser
fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo
por mim mesmo ". (João 7:17)
O contexto de João 7 é completamente
diferente, e nenhuma tentativa é feita para explicar o porque os dois
versos são relevantes um ao outro. Mas aparte disso, é evidente que a
idéia é que pecadores podem "livremente" fazer a vontade de Deus. E
justamente quem escolherá fazer isso? Aqueles que foram dados pelo Pai ao
Filho. Aqueles que não são dos eleitos nem mesmo ouvem Suas
palavras,
Disso fica evidente que o entendimento que
possuíam do ensino de Jesus e de serem atraídos ao Pai resultam da própria
livre-escolha deles.
Não temos idéia de como essa declaração
pode ser logicamente conectada, mesmo através da mais tortuosa linha de
raciocínio, com o texto que está sendo examinado. Como alguém pode partir
de "ninguém pode" e chegar até "resultam da própria livre-escolha
deles", não podemos dizer. Não podemos nem mesmo imaginar o que é se quer
dizer por "entendimento que possuíam". Essa é uma referência a João 6 ou
João 7? "Entender ensino" e "ser trazido" são duas coisas completamente
diferentes de dois contextos completamente diferentes, todavia, eles são
unidos impressionantemente numa conclusão confusa que brada a palavra
"eisegese".
EML falha completamente em prover uma resposta a esta gloriosa passagem
que ensina a graça soberana com grande simplicidade. E dado o mau uso de
outras passagens já citados (Mateus 23:37, 1 Timóteo 2:4, 2 Pedro 3:9),
pode verdadeiramente ser dito que EML não tem base exegética sobre a qual
se fundamentar.