Além
do culto público em congregação, misericordiosamente estabelecido
nesta terra em grande pureza, é apropriado e necessário que o
culto individual de cada pessoa à sós e o culto familiar sejam
estimulados e organizados, para que, com a reforma nacional, a
profissão e o poder da piedade, tanto pessoal como domésticos
prosperem.
A Necessidade do Culto
Individual
I. Primeiramente,
com relação ao culto individual, é extremamente necessário que
cada um à parte, e por si mesmo, se dê à oração e meditação. O
indizível benefício advindo disso é melhor conhecido por aqueles
que são mais exercitados nesta prática. Este é o meio pelo qual,
de modo especial, a comunhão com Deus é nutrida, e uma correta
preparação para todos os demais deveres é alcançada. Portanto,
cabe aos pastores, entre seus diversos deveres, pressionar toda
sorte de pessoas a executarem esse dever pela manhã e à noite, e
em outras oportunidades. É também dever do cabeça de cada família
zelar no sentido de que ele mesmo, e todos os que estão sob sua
autoridade, sejam diligentes nisso diariamente.
Ordem
para o Culto Familiar
II. Os deveres
ordinários compreendidos no exercício da piedade que devem ser
realizados em famílias quando reunidas com este propósito são os
seguintes: Primeiro, oração e louvores, com referência
especial, tanto à condição pública da igreja de Deus neste reino,
como à presente situação da família e de cada um dos seus membros.
A seguir, leitura das Escrituras e explicação de um modo
claro, a fim de que a compreensão dos mais simples possa ser
melhor capacitada a tirar proveito das ordenanças públicas e a
entenderem melhor as Escrituras; bem como conversas piedosas
com vistas à edificação de todos os membros na mais santa fé;
assim como, admoestação e repreensão, quando há justa razão,
por parte daqueles que estiverem em posição de autoridade na
família.
Uso
Apropriado das Escrituras no Culto Familiar
III. O ofício de
interpretar as Escrituras Sagradas é parte da vocação ministerial,
o qual ninguém (embora de outro modo qualificado) deveria atribuir
a si mesmo em nenhum lugar, exceto aquele que é chamado para isso
por Deus e por sua igreja. Entretanto, em cada família onde houver
alguém que possa ler, as Escrituras devem ser lidas ordinariamente
para a família; e é recomendável que depois disso confiram, e por
meio de conferência (conversas), façam bom uso do que foi lido e
ouvido. Assim, se por exemplo algum pecado for reprovado pela
palavra lida, deve-se fazer uso dela no sentido de que toda a
família se torne prudente e vigilante contra o mesmo; ou, em se
tratando da menção de algum julgamento, deve-se fazer uso do texto
lido a fim de que toda a família tema, de sorte que não recaia
sobre ela julgamento semelhante ou pior; e finalmente, se algum
dever for requerido, ou algum conforto oferecido em uma promessa,
deve-se fazer uso disso para estimular a família a buscar força em
Cristo a fim de serem habilitados a cumprir o dever requerido, e a
aplicar o conforto oferecido. Tudo deve ser dirigido pelo cabeça
da família; e qualquer de seus membros pode propor uma pergunta ou
dúvida para ser solucionada.
A
Responsabilidade do Marido/Pai
IV. O cabeça da
família deve zelar a fim de que nenhum membro da família deixe de
participar de qualquer parte do culto familiar; e, visto que a
realização ordinária de todas as partes do culto familiar pertence
propriamente ao cabeça da família, o ministro deve estimular os
que forem preguiçosos e instruir os que forem fracos, a fim de que
se habilitem para estes exercícios. É possível, porém, que pessoas
habilitadas, aprovadas pelo presbitério, realizem esta instrução.
Nos casos em que o chefe da família for incapacitado, outra pessoa
da família, aprovada pelo ministro e pela sessão (concílio), pode
ser empregada nesse serviço, devendo o presbitério ser notificado.
E se um ministro, pela providência divina, vier a alguma família,
ele não deve reunir apenas uma parte dela para o culto, excluindo
os demais, exceto em casos especiais que envolvam estas pessoas em
particular e quando (pela prudência cristã) os demais não devam
tomar conhecimento.
Líderes
de Fora Não Permitidos
V. Não permitam
que nenhum desocupado, não vocacionado, ou pessoa sem atividade ou
com o pretexto de um chamamento, realizem culto nas famílias;
visto que pessoas corrompidas, com erros ou que procuram divisão,
podem estar prontos para penetrar sorrateiramente nas casas e
cativar pessoas néscias e instáveis.
Os Que
São Admitidos no Culto Familiar
VI. Um cuidado
especial deve ser tomado a fim de que cada família se reúna
sozinha para o culto familiar; não requerendo, convidando nem
admitindo membros de outras famílias, a menos que se trate de
pessoas hospedadas, ou que participem da mesa da família, ou que
se encontrem com eles em alguma ocasião legítima.
VII. Por melhores
que tenham sido os efeitos e frutos de encontros de pessoas de
famílias diferentes, em tempos de corrupção e dificuldades (em
cujas circunstâncias muitas coisas tornam-se recomendáveis, embora
sejam intoleráveis em circunstâncias normais), ainda assim, quando
Deus nos abençoa com a paz e pureza do evangelho, tais reuniões de
pessoas de famílias diversas (exceto nos casos mencionados nestas
Instruções) devem ser reprovadas, por tenderem a ser um empecilho
ao exercício espiritual de cada família por si mesma, por serem
prejudiciais ao ministério público, por afastar as famílias das
suas congregações, e com o decorrer do tempo, de toda a igreja.
Além disso, muitos erros podem advir dessa prática, os quais
endurecem o coração dos homens carnais, e entristecem os piedosos.
A
Família no Dia do Senhor
VIII. No dia do
Senhor, após cada membro da família à parte, e toda a família
reunida haverem buscado o Senhor (em cujas mãos está a preparação
do coração do homem), para prepará-los para o culto público e
abençoar as ordenanças públicas, o cabeça da família deve zelar a
fim de que todos os que estão sob seus cuidados estejam presentes
no culto público e se unam aos demais membros da congregação; e,
terminado o culto público, após a oração, devem considerar o que
ouviram, e gastar o restante do dia livre em estudos e conversas
familiares sobre a palavra de Deus; ou então, cada um à parte,
deve aplicar-se à leitura, meditação e oração, a fim de que possam
confirmar e aumentar sua comunhão com Deus; de modo que os
benefícios adquiridos por meio das ordenanças públicas sejam
desenvolvidos e promovidos, e eles sejam mais edificados para a
vida eterna.
Oração
Familiar
IX. Todos os que
podem conceber a oração, devem fazer uso deste dom de Deus. Embora
os rudes e mais fracos possam começar com orações fixas, não devem
fazê-lo de modo a se tornarem lerdos em estimularem em si mesmos
(de acordo com suas necessidades diárias) o espírito de oração, o
qual é conferido em alguma medida a todos os filhos de Deus. Para
isso, eles devem ser mais fervorosos (sinceros) e freqüentes na
oração em secreto a Deus, pedindo que seu coração seja habilitado
a conceber, e sua língua a expressar desejos apropriados por sua
família. Enquanto isso, para o maior encorajamento dessas pessoas,
elas devem meditar e fazer uso dos seguintes assuntos em suas
orações:
Confessem a Deus o quão
indignos são para virem à Sua presença, e quão despreparados estão
para cultuar Sua Majestade; e, conseqüentemente, supliquem
diligentemente que Deus lhes confira espírito de oração.
Confessem seus pecados,
e os pecados da família, acusando, julgando e condenando a si
mesmos por isso, até que suas almas experimentem alguma medida de
verdadeira humilhação.
Derramem suas almas
diante de Deus, em nome de Cristo, por intermédio do Espírito,
suplicando pelo perdão dos pecados, por graça para arrepender-se,
para crer e para viver sóbria, reta e piedosamente; e para servir
a Deus com alegria e prazer, andando na Sua presença.
Agradeçam a Deus por
Suas muitas misericórdias para com o Seu povo, e para com vocês
mesmos, especialmente por seu amor em Cristo, e pela luz do
evangelho.
Orem pedindo os
benefícios particulares, espirituais e temporais, que estejam
necessitando no momento, na saúde ou na doença, na prosperidade ou
na adversidade.
Intercedam pela Igreja
de Cristo em geral, por todas as igrejas reformadas, e por sua
igreja em particular, e por todos os que estão sofrendo pelo nome
de Cristo; por todas as nossas autoridades superiores, pelo rei,
pela rainha e seus filhos; pelos magistrados, ministros, e por
todo o corpo da congregação da qual são membros, bem como por seus
vizinhos ausentes envolvidos com os seus afazeres legais, bem como
por todos os que estejam em casa.
A oração pode ser
encerrada com a expressão de um sincero desejo que Deus seja
glorificado na vinda do reino do Seu Filho, do cumprimento da Sua
vontade, e da convicção de que vocês são aceitos, e de que o que
pediram de acordo com a Sua vontade será feito.
A
Urgência do Culto Familiar
X. Estes
exercícios devem ser realizados com grande sinceridade, sem
procrastinação, colocando de lado todas as atividades seculares ou
impedimentos, a despeito da zombaria dos homens ateus e profanos,
em respeito às grandes misericórdias de Deus para com esta terra,
e às severas correções às quais Ele anteriormente fez vir sobre
nós. Com vistas ao cumprimento desses exercícios, pessoas
eminentes (e todos os presbíteros da igreja), não apenas devem
estimular-se a si mesmos e suas famílias a serem diligentes nesse
dever, mas também devem agir efetivamente, no sentido de que em
todas as outras famílias sob seus cuidados ou influência, estes
exercícios sejam conscientemente realizados.
Ocasiões Especiais para o Culto Familiar
XI. Além desses
deveres familiares ordinários, mencionados acima, deveres
extraordinários, tanto de humilhação como de agradecimento, devem
ser cuidadosamente levados a efeito nas famílias, sempre que o
Senhor os requeira, por meio de ocasiões extraordinárias privadas
ou públicas.
A
Necessidade de Edificação Mútua
XII. Visto que a
Palavra de Deus requer que nos consideremos uns aos outros, para
nos estimularmos ao amor e às boas obras, em todas as épocas, e
especialmente nesta, quando a impiedade abunda, e os
escarnecedores, andando em suas próprias concupiscências,
estranham que outros não concorram com eles ao mesmo excesso de
devassidão; cada membro desta igreja deve estimular-se a si mesmo
e uns aos outros aos deveres de edificação mútua, pela instrução,
admoestação, repreensão, exortando uns aos outros a manifestar a
graça de Deus, renegando a impiedade e as paixões mundanas, e
vivendo sensata, justa e piedosamente neste presente século,
confortando os fracos, e orando uns pelos outros. Estes deveres
devem ser levados a efeito especialmente em ocasiões especiais
oferecidas pela providência Divina; como, por exemplo, quando
ocasiões de calamidade, adversidade ou grandes dificuldades,
exigem conselho e conforto; ou quando um ofensor precisa ser
admoestado privadamente, e, não sendo isso suficiente, a presença
de mais uma ou duas pessoas se faça necessária, de acordo com a
regra de Cristo, a fim de que pela boca de duas ou três
testemunhas, toda a verdade possa ser estabelecida.
Aconselhamento
XIII. Visto que
não é dado a todos falar de modo apropriado a pessoas que
necessitam de aconselhamento, conforto ou repreensão, faz-se
necessário que tais pessoas, nessa situação, não encontrando paz
após terem feito uso de todos os meios ordinários privados e
públicos, dirijam-se ao seu pastor, ou a outro crente experiente.
Se contudo, a pessoa com dificuldade de consciência, for de uma
condição ou sexo que a discrição, modéstia ou temor de escândalo
requeira que um amigo íntimo, sóbrio e sério esteja presente com
eles em tal difícil ocasião, é imprescindível que tal amigo se
faça presente.
Casos
excepcionais
XIV.
Quando pessoas de famílias
diferentes forem reunidas pela providência Divina, seja devido à
vocação comum, ou por qualquer outra circunstância necessária,
visto que devem ter sempre a presença do Senhor deles consigo
aonde quer que forem, tais pessoas devem falar com Deus, e não
negligenciar o dever da oração e da ação de graças. Devem, contudo,
ter prudência para que a oração seja feita por aquele que, dentre
o grupo, for julgado capacitado para tal. Devem, de modo
semelhante, ter prudência para que conversas corrompidas não lhes
saiam da boca, mas apenas o que for bom para a edificação, e para
ministrar graça aos ouvintes.
As
Principais Razões destas Instruções
O propósito e
escopo destas Instruções não é outro senão, por um lado, nutrir e
promover o poder e a prática da piedade entre ministros e membros
desta igreja, de conformidade com suas diversas posições e
vocações; e reprimir toda impiedade e fingimento dos exercícios
religiosos. E, por outro lado, impedir que, sob o nome e pretexto
de exercícios religiosos, seja permitida qualquer reunião ou
prática que possa degenerar em erro, escândalo, divisão, desacato
ou desconsideração para com as ordenanças públicas e ministros, ou
negligência dos deveres dos chamados particulares, ou quaisquer
outros males, os quais são obras não do Espírito, mas da carne, e
são contrárias à verdade e à paz.
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