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No dia 7 de março
de 1557 chegou a Guanabara um grupo de huguenotes (calvinistas
franceses) com o propósito de ajudar a estabelecer um refúgio para
os calvinistas perseguidos na França. Perseguidos também na
Guanabara em virtude de sua fé reformada, alguns conseguiram
escapar; outros, foram condenados à morte por Villegaignon, foram
enforcados e seus corpos atirados de um despenhadeiro, em 1558.
Antes de morrer, entretanto, foram obrigados a professar por escrito
sua fé, no prazo de doze horas, respondendo uma série de perguntas
que lhes foram entregues. Eles assim o fizeram, e escreveram a
primeira confissão de fé na América (ver Apêndice 2), sabendo que
com ela estavam assinando a própria sentença de morte.
Segundo a doutrina de S. Pedro
Apóstolo, em sua primeira epístola, todos os cristãos devem
estar sempre prontos para dar razão da esperança que neles há, e
isso com toda a doçura e benignidade, nós abaixo assinados, Senhor
de Villegaignon, unanimemente (segundo a medida de graça que o
Senhor nos tem concedido) damos razão, a cada ponto, como nos haveis
apontado e ordenado, e começando no primeiro artigo:
I. Cremos em um só Deus, imortal,
invisível, criador do céu e da terra, e de todas as coisas, tanto
visíveis como invisíveis, o qual é distinto em três pessoas: o Pai,
o Filho e o Santo Espírito, que não constituem senão uma mesma
substância em essência eterna e uma mesma vontade; o Pai, fonte e
começo de todo o bem; o Filho, eternamente gerado do Pai, o qual,
cumprida a plenitude do tempo, se manifestou em carne ao mundo,
sendo concebido do Santo Espírito, nasceu da virgem Maria, feito sob
a lei para resgatar os que sob ela estavam, a fim de que
recebêssemos a adoção de próprios filhos; o Santo Espírito,
procedente do Pai e do Filho, mestre de toda a verdade, falando pela
boca dos profetas, sugerindo as coisas que foram ditas por nosso
Senhor Jesus Cristo aos apóstolos. Este é o único Consolador em
aflição, dando constância e perseverança em todo bem.
Cremos que é mister somente adorar e
perfeitamente amar, rogar e invocar a majestade de Deus em fé ou
particularmente.
II. Adorando nosso Senhor Jesus
Cristo, não separamos uma natureza da outra, confessando as duas
naturezas, a saber, divina e humana nele inseparáveis.
III. Cremos,
quanto ao Filho de Deus e ao Santo Espírito, o que a Palavra de
Deus e a doutrina apostólica, e o símbolo,
nos ensinam.
IV. Cremos que nosso Senhor Jesus
Cristo virá julgar os vivos e os mortos, em forma visível e
humana como subiu ao céu, executando tal juízo na forma em que nos
predisse no capítulo vinte e cinco de Mateus, tendo todo o poder de
julgar, a Ele dado pelo Pai, sendo homem.
E, quanto ao que dizemos em nossas
orações, que o Pai aparecerá enfim na pessoa do Filho, entendemos
por isso que o poder do Pai, dado ao Filho, será manifestado no dito
juízo, não todavia que queiramos confundir as pessoas, sabendo que
elas são realmente distintas uma da outra.
V. Cremos que no santíssimo
sacramento da ceia, com as figuras corporais do pão e do vinho,
as almas fiéis são realmente e de fato alimentadas com a própria
substância do nosso Senhor Jesus, como nossos corpos são alimentados
de alimentos, e assim não entendemos dizer que o pão e o vinho sejam
transformados ou transubstanciados no seu corpo, porque o pão
continua em sua natureza e substância, semelhantemente ao vinho, e
não há mudança ou alteração.
Distinguimos todavia este pão e vinho
do outro pão que é dedicado ao uso comum, sendo que este nos é um
sinal sacramental, sob o qual a verdade é infalivelmente recebida.
Ora, esta recepção não se faz senão por meio da fé e nela não convém
imaginar nada de carnal, nem preparar os dentes para comer, como
santo Agostinho nos ensina, dizendo: “Porque preparas tu os dentes e
o ventre? Crê, e tu o comeste.”
O sinal, pois, nem nos dá a verdade,
nem a coisa significada; mas Nosso Senhor Jesus Cristo, por seu
poder, virtude e bondade, alimenta e preserva nossas almas, e as faz
participantes da sua carne, e de seu sangue, e de todos os seus
benefícios.
Vejamos a interpretação das palavras de
Jesus Cristo: “Este pão é meu corpo.” Tertuliano, no livro quarto
contra Marcião, explica estas palavras assim: “este é o sinal e a
figura do meu corpo.”
S. Agostinho diz: “O Senhor não evitou
dizer: — Este é o meu corpo, quando dava apenas o sinal de seu corpo.”
Portanto (como é ordenado no primeiro
cânon do Concílio de Nicéia), neste santo sacramento não devemos
imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que
nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao
céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus,
sentado à destra de Deus, seu Pai.
Neste sentido podíamos jurar o artigo
da Ascensão, com muitas outras sentenças de Santo Agostinho, que
omitimos, temendo ser longas.
VI. Cremos que, se fosse necessário
pôr água no vinho, os evangelistas e São Paulo não teriam
omitido uma coisa de tão grande conseqüência.
E quanto ao que os doutores antigos têm
observado (fundamentando-se sobre o sangue misturado com água que
saiu do lado de Jesus Cristo, desde que tal observância não tem
fundamento na Palavra de Deus, visto mesmo que depois da instituição
da Santa Ceia isso aconteceu), nós não podemos hoje admitir
necessariamente.
VII. Cremos que não há outra
consagração senão a que se faz pelo ministro, quando se celebra a
ceia, recitando o ministro ao povo, em linguagem conhecida, a
instituição desta ceia literalmente, segundo a forma que nosso
Senhor Jesus Cristo nos prescreveu, admoestando o povo quanto à
morte e paixão do nosso Senhor. E mesmo, como diz santo Agostinho, a
consagração é a palavra de fé que é pregada e recebida em fé. Pelo
que, segue-se que as palavras secretamente pronunciadas sobre os
sinais não podem ser a consagração como aparece da instituição que
nosso Senhor Jesus Cristo deixou aos seus apóstolos, dirigindo suas
palavras aos seus discípulos presentes, aos quais ordenou tomar e
comer.
VIII. O santo sacramento da ceia não
é alimento para o corpo como para as almas (porque nós não
imaginamos nada de carnal, como declaramos no artigo quinto)
recebendo-o por fé, a qual não é carnal.
IX. Cremos que o batismo é
sacramento de penitência, e como uma entrada na igreja de Deus, para
sermos incorporados em Jesus Cristo. Representa-nos a remissão
de nossos pecados passados e futuros, a qual é adquirida plenamente,
só pela morte de nosso Senhor Jesus.
De mais, a mortificação de nossa carne
aí nos é representada, e a lavagem, representada pela água lançada
sobre a criança, é sinal e selo do sangue de nosso Senhor Jesus, que
é a verdadeira purificação de nossas almas. A sua instituição nos é
ensinada na Palavra de Deus, a qual os santos apóstolos observaram,
usando de água em nome do Pai, do Filho e do Santo Espírito. Quanto
aos exorcismos, abjurações de Satanás, crisma, saliva e sal, nós os
registramos como tradições dos homens, contentando-nos só com a
forma e instituição deixada por nosso Senhor Jesus.
X. Quanto ao livre arbítrio,
cremos que, se o primeiro homem, criado à imagem de Deus, teve
liberdade e vontade, tanto para bem como para mal, só ele conheceu o
que era livre arbítrio, estando em sua integridade. Ora, ele nem
apenas guardou este dom de Deus, assim como dele foi privado por seu
pecado, e todos os que descendem dele, de sorte que nenhum da
semente de Adão tem uma centelha do bem.
Por esta causa, diz São Paulo, o homem
natural não entende as coisas que são de Deus. E Oséias clama aos
filho de Israel: “Tua perdição é de ti, ó Israel.” Ora isto
entendemos do homem que não é regenerado pelo Santo Espírito.
Quanto ao homem cristão, batizado no
sangue de Jesus Cristo, o qual caminha em novidade de vida, nosso
Senhor Jesus Cristo restitui nele o livre arbítrio, e reforma a
vontade para todas as boas obras, não todavia em perfeição, porque a
execução de boa vontade não está em seu poder, mas vem de Deus, como
amplamente este santo apóstolo declara, no sétimo capítulo aos
Romanos, dizendo: “Tenho o querer, mas em mim não acho o realizar.”
O homem predestinado para a vida
eterna, embora peque por fragilidade humana, todavia não pode cair
em impenitência.
A este propósito, S. João diz que ele
não peca, porque a eleição permanece nele.
XI. Cremos que pertence só à Palavra
de Deus perdoar os pecados, da qual, como diz santo Ambrósio, o
homem é apenas o ministro; portanto, se ele condena ou absolve, não
é ele, mas a Palavra de Deus que ele anuncia.
Santo Agostinho, neste lugar diz que
não é pelo mérito dos homens que os pecados são perdoados, mas pela
virtude do Santo Espírito. Porque o Senhor dissera aos seus
apóstolos: “recebei o Santo Espírito;” depois acrescenta: “Se
perdoardes a alguém os seus pecados,” etc.
Cipriano diz que o servo não pode
perdoar a ofensa contra o Senhor.
XII. Quanto à imposição das mãos,
essa serviu em seu tempo, e não há necessidade de conservá-la agora,
porque pela imposição das mãos não se pode dar o Santo Espírito,
porquanto isto só a Deus pertence.
No tocante à ordem eclesiástica, cremos
no que S. Paulo dela escreveu na primeira epístola a Timóteo, e em
outros lugares.
XIII. A separação entre o homem e a
mulher legitimamente unidos por casamento não se pode fazer
senão por causa de adultério, como nosso Senhor ensina (Mateus
19:5). E não somente se pode fazer a separação por essa causa, mas
também, bem examinada a causa perante o magistrado, a parte não
culpada, se não podendo conter-se, deve casar-se, como São Ambrósio
diz sobre o capítulo sete da Primeira Epístola aos Coríntios. O
magistrado, todavia, deve nisso proceder com madureza de conselho.
XIV. São Paulo, ensinando que
o bispo deve ser marido de uma só mulher, não diz que não lhe
seja lícito tornar a casar, mas o santo apóstolo condena a bigamia a
que os homens daqueles tempos eram muito afeitos; todavia, nisso
deixamos o julgamento aos mais versados nas Santas Escrituras, não
se fundando a nossa fé sobre esse ponto.
XV. Não é lícito votar a Deus, senão
o que ele aprova. Ora, é assim que os votos monásticos só tendem
à corrupção do verdadeiro serviço de Deus. É também grande
temeridade e presunção do homem fazer votos além da medida de sua
vocação, visto que a santa Escritura nos ensina que a continência é
um dom especial (Mateus 15 e 1 Coríntios 7). Portanto, segue-se que
os que se impõem esta necessidade, renunciando ao matrimônio toda a
sua vida, não podem ser desculpados de extrema temeridade e
confiança excessiva e insolente em si mesmos.
E por este meio tentam a Deus, visto
que o dom da continência é em alguns apenas temporal, e o que o teve
por algum tempo não o terá pelo resto da vida. Por isso, pois, os
monges, padres e outros tais que se obrigam e prometem viver em
castidade, tentam contra Deus, por isso que não está neles o cumprir
o que prometem. São Cipriano, no capítulo onze, diz assim: “Se as
virgens se dedicam de boa vontade a Cristo, perseverem em castidade
sem defeito; sendo assim fortes e constantes, esperem o galardão
preparado para a sua virgindade; se não querem ou não podem
perseverar nos votos, é melhor que se casem do que serem
precipitadas no fogo da lascívia por seus prazeres e delícias.”
Quanto à passagem do apóstolo S. Paulo, é verdade que as viúvas
tomadas para servir à igreja, se submetiam a não mais casar,
enquanto estivessem sujeitas ao dito cargo, não que por isso se lhes
reputasse ou atribuísse alguma santidade, mas porque não podiam bem
desempenhar os deveres, sendo casadas; e, querendo casar,
renunciassem à vocação para a qual Deus as tinha chamado, contudo
que cumprissem as promessas feitas na igreja, sem violar a promessa
feita no batismo, na qual está contido este ponto: “Que cada um deve
servir a Deus na vocação em que foi chamado.” As viúvas, pois, não
faziam voto de continência, senão porque o casamento não convinha ao
ofício para que se apresentavam, e não tinha outra consideração que
cumpri-lo. Não eram tão constrangidas que não lhes fosse antes
permitido casar que se abrasar e cair em alguma infâmia ou
desonestidade.
Mas, para evitar tal inconveniência, o
apóstolo São Paulo, no capítulo citado, proíbe que sejam recebidas
para fazer tais votos sem que tenham a idade de sessenta anos, que é
uma idade normalmente fora da incontinência. Acrescenta que os
eleitos só devem ter sido casados uma vez, a fim de que por essa
forma, tenham já uma aprovação de continência.
XVI. Cremos que Jesus Cristo é o
nosso único Mediador, intercessor e advogado, pelo qual temos
acesso ao Pai, e que, justificados no seu sangue, seremos livres da
morte, e por ele já reconciliados teremos plena vitória contra a
morte.
Quanto aos santos mortos, dizemos que
desejam a nossa salvação e o cumprimento do Reino de Deus, e que o
número dos eleitos se complete; todavia, não nos devemos dirigir a
eles como intercessores para obterem alguma coisa, porque
desobedeceríamos o mandamento de Deus. Quanto a nós, ainda vivos,
enquanto estamos unidos como membros de um corpo, devemos orar uns
pelos outros, como nos ensinam muitas passagens das Santas
Escrituras.
XVII. Quanto aos mortos, São
Paulo, na Primeira Epístola aos Tessalonicenses, no capítulo quatro,
nos proíbe entristecer-nos por eles, porque isto convém aos pagãos,
que não têm esperança alguma de ressuscitar. O apóstolo não manda e
nem ensina orar por eles, o que não teria esquecido se fosse
conveniente. S. Agostinho, sobre o Salmo 48, diz que os espíritos
dos mortos recebem conforme o que tiverem feito durante a vida; que
se nada fizeram, estando vivos, nada recebem, estando mortos.
Esta é a resposta que damos aos artigo por vós enviados,
segundo a medida e porção da fé, que Deus nos deu, suplicando que
lhe praza fazer que em nós não seja morta, antes produza frutos
dignos de seus filhos, e assim, fazendo-nos crescer e perseverar
nela, lhe rendamos graças e louvores para sempre.
Assim seja.
Jean du Bourdel,
Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André la Fon.
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