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A
Confissão
fe Fé Belga*
(1561)
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Guido de Brès
ARTIGO
1
O ÚNICO DEUS
Todos nós cremos com
o coração e confessamos com a bocal que há um só Deus2,
um único e simples ser espiritual3. Ele é eterno4,
incompreensível5 invisível6, imutável7,
infinito8, todo-poderoso9; totalmente sábiol0,
justol1 e bom12, e uma fonte muito abundante
de todo bem7.
1 Rm
10:10. 2 Dt 6:4; 1Co 8:4,6; 1Tm 2:5. 3 Jo
4:24. 4 S1 90:2. 5 Rm 11:33. 6 Cl
1:15; 1Tm 6:16. 7 Tg 1:17. 8 1Rs 8:27; Jr
23:24. 9 Gn 17:1; Mt 19:26; Ap 1:8. 10 Rm
16:27. 11 Rm 3:25,26; Rm 9:14; Ap 16:5,7. 12
Mt 19:17. Veja também Is 40, 44 e 46.
ARTIGO
2
COMO CONHECEMOS A DEUS
Nós O conhecemos por
dois meios. Primeiro: pela criação, manutenção e governo do mundo
inteiro, visto que o mundo, perante nossos olhos, é como um livro
formoso1, em que todas as criaturas, grandes e pequenas,
servem de letras que nos fazem contemplar "os atributos invisíveis
de Deus", isto é, "o seu eterno poder e a sua divindade", como diz
o apóstolo Paulo (Romanos 1:20. Todos estes atributos são
suficientes para convencer os homens e torná-los indesculpáveis.
Segundo: Deus se fez
conhecer, ainda mais clara e plenamente, por sua sagrada e divina
Palavra2, isto é, tanto quanto nos é necessário nesta
vida, para sua glória e para a salvação dos que Lhe pertencem.
1 Sl
19:1-4. 2 Sl 19:7,8; 1Co 1:18-21.
ARTIGO
3
A PALAVRA DE DEUS
Confessamos que a
palavra de Deus não foi enviada nem produzida "por vontade humana,
mas homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo",
como diz o apóstolo Pedro (2 Pedro 1:21).
Depois, Deus, por seu
cuidado especial para conosco e para com a nossa salvação, mandou
seus servos, os profetas e os apóstolos, escreverem sua palavra
revelada1. Ele mesmo escreveu com o próprio dedo as
duas tábuas da lei2.
Por isso, chamamos
estas escritas: sagradas e divinas Escrituras3.
1 Êx
34:27; Sl 102:18; Ap 1:11,19. 2 Êx 31:18. 3
2Tm 3:16.
ARTIGO
4
OS LIVROS CANÔNICOS
A Sagrada Escritura
consiste de dois volumes: O Antigo e o Novo Testamento, que são
canônicos e não podem ser contraditos de forma alquma.
A Igreja de Deus
reconhece a lista seguinte:
Os livros do Antigo
Testamento:
Gênesis, Êxodo,
Levítico, Números, Deuteronômio (os cinco livros de Moisés);
Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas,
Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes,
Cantares; Isaías, Jeremias (com Lamentaçoes), Ezequiel, Daniel (os
quatro profetas maiores); Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas,
Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias
(os doze profetas menores);
Os livros do Novo
Testamento:
Mateus, Marcos,
Lucas, João (os quatro evangelistas); Atos dos Apóstolos; Romanos,
1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses,
Colossenses, 1 e 2
Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemom (as treze epístolas
do apóstolo Paulo); Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro,
1, 2 e 3 João, Judas
e Apocalipse.
ARTIGO
5
A AUTORIDADE DA SAGRADA ESCRITURA
Recebemos1
todos estes livros, e somente estes, como sagrados e canônicos,
para regular, fundamentar e confirmar nossa fé2.
Acreditamos, sem dúvida nenhuma, em tudo que eles contêm, não
tanto porque a igreja aceita e reconhece estes livros como
canônicos, mas principalmente porque o Espírito Santo testifica em
nossos corações que eles vêm de Deus3, como eles mesmos
provam. Pois até os cegos podem sentir que as coisas, preditas
neles, se cumprem4.
1 1Ts
2:13. 2 2Tm 3:16,17. 3 1Co 12:3; 1Jo 4:6;
1Jo 5:6b. 4 Dt 18:21,22; 1Rs 22:28; Jr 28:9; Ez 33:33.
ARTIGO
6
A DIFERENÇA ENTRE OS LIVROS CANÔNICOS E APOCRIFOS
Distinguimos estes
livros sagrados dos livros apócrifos que são os seguintes: 3 e 4
Esdras, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, os
Acréscimos ao livro de Ester e Daniel, a Oração de Manassés e 1 e
2 Macabeus.
A igreja pode, sim,
ler estes livros e tirar deles ensino, na medida em que concordem
com os livros canonicos. Porém, os apocrifos não tem tanto poder e
autoridade que o testemunho deles possa confirmar qualquer artigo
da fé ou da religião cristã; e muito menos podem eles diminuir a
autoridade dos sagrados livros.
ARTIGO
7
A SAGRADA ESCRITURA : PERFEITA E COMPLETA
Cremos que esta
Sagrada Escritura contém perfeitamente a vontade de Deus e
suficientemente ensina tudo o que o homem deve crer para ser salvo1.
Nela, Deus descreveu, por extenso, toda a maneira de servi-Lo. por
isso, não e lícito aos homens, mesmo que fossem apóstolos "ou um
anjo vindo do céu", conforme diz o apóstolo Paulo (Gálatas 1:8),
ensinarem outra doutrina, senão aquela da Sagrada Escritura2.
É proibido "acrescentar algo a Pa lavra de Deus ou tirar algo dela"3
(Deuteronômio 12:32; Apocalipse 22:18,19). Assim se mostra
claramente que sua doutrina é perfeitíssima e, em todos os
sentidos, completa4.
Não se pode igualar
escritos de homens, por mais santos que fossem os autores, às
Escrituras divinas. Nem se pode igualar à verdade de Deus costumes,
opiniões da maioria, instituições antigas, sucessão de tempos ou
de pessoas, ou concílios, decretos ou resoluções5. Pois
a verdade está acima de tudo e todos os homens são mentirosos
(Salmo 116:11) e "mais leves que a vaidade" (Salmo 62:9).
Por isso, rejeitamos,
de todo o coração, tudo que não está de acordo com esta regra
infalível6, conforme os apóstolos nos ensinaram: "Provai
os espíritos se procedem de Deus" (l João 4:1), e: "Se alguém vem
ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa" (2
João :10).
1 2Tm
3:16,17; 1Pe 1:10-12. 2 1Co 15:2; 1Tm 1:3. 3
Dt 4:2; Pv 30:6; At 26:22; 1Co 4:6. 4 Sl 19:7; Jo
15:15; At 18:28; At 20:27; Rm 15:4. 5 Mc 7:7-9; At
4:19; Cl 2:8; 1Jo 2:19. 6 Dt 4:5,6; Is 8:20; 1Co 3:11;
Ef 4:4-6; 2Ts 2:2; 2Tm 3:14,15.
ARTIGO
8
A TRINDADE: UM SÓ DEUS, TRÊS PESSOAS
Conforme esta verdade
e esta palavra de Deus, cremos em um só Deus1, que é um
único ser, em que há três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito
Santo2. Estas são, realmente e desde a eternidade,
distintas conforme os atributos próprios de cada Pessoa.
O Pai é a causa, a
origem e o princípio de todas as coisas visíveis e invisíveis3.
O Filho é o Verbo, a sabedoria e a imagem do Pai . O Espírito
Santo, que procede do Pai e do Filho, é a eterna força e o poder5.
Esta distinção não
significa que Deus está dividido em três. Pois a Sagrada Escritura
nos ensina que cada um destes três, o Pai e o Filho e o Espírito
Santo, tem sua própria existência, distinta por seus atributos, de
tal maneira, porém, que estas três pessoas são um só Deus. É
claro, então, que o Pai não é o Filho e que o Filho não é o Pai;
que, também, o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho.
Entretanto, estas
Pessoas, assim distintas, não são divididas nem confundidas entre
si. Porque somente o Filho se tornou homem, não o Pai ou o
Espírito Santo. O Pai jamais existiu sem seu Filho6 e
sem seu Espírito Santo, pois todos os três têm igual eternidade,
no mesmo ser. Não há primeiro nem último, pois todos os três são
um só em verdade, em poder, em bondade e em misericórdia.
1 1Co
8:4-6. 2 Mc 3:16,17; Mt 28:19. 3 Ef 3:14,15.
4 Pv 8:22-31; Jo 1:14; Jo 5:17-26; 1Co 1:24; Cl
1:15-20; Hb 1:3; Ap 19:13. 5 Jo 15:26. 6 Mq
5:1; Jo 1:1,2.
ARTIGO
9
O TESTEMUNHO DA ESCRITURA SOBRE A TRINDADE
Tudo isto sabemos
tanto pelo testemunho da Sagrada Escritura1, como pelas
obras das três Pessoas, principalmente por aquelas que percebemos
em nós. Os testemunhos das Sagradas Escrituras, que nos ensinam a
crer nesta Trindade, se acham em muitos lugares do Antigo
Testamento. Não é preciso alistá-los, somente escolhê-los
cuidadosamente. Em Gênesis 1:26 e 27, Deus
diz: "Façamos o homem
a nossa imagem, conforme a nossa semelhança" etc. "Criou Deus,
pois, o homem a sua imagem; homem e mulher os criou".
Assim também em
Gênesis 3:22: "Eis que o homem se tornou como um de nós". Com isto
se mostra que há mais de uma pessoa em Deus, porque Ele
diz: "Façamos o homem
a nossa imagem"; e, em seguida, Ele indica que há um só Deus,
quando diz: "Deus criou". É verdade que Ele não diz quantas
pessoas há, mas o que é um tanto obscuro, para nós, no Antigo
Testamento, é bem claro no Novo. Pois quando nosso Senhor foi
batizado no rio Jordão, ouviu-se a voz do Pai, que falou: "Este é
o meu filho amado" (Mateus 3:17); enquanto o Filho foi visto na
água e o Espírito Santo se manifestou em forma de pomba2.
A1ém disto, Cristo
instituiu, para o batismo de todos os fiéis, esta forma: Batizai
todas as nações "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mateus
28:19). No evangelho segundo Lucas, o anjo Gabriel diz a Maria,
mãe do Senhor: "Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do
Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente
santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus" (Lucas 1:35).
Do mesmo modo: "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus,
e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós" (2 Coríntios
13:13). * Em todos estes lugares, nos é ensinado que há três
Pessoas em um só ser divino. E embora esta doutrina ultrapasse o
entendimento humano, cremos nela, baseados na Palavra, e esperamos
gozar de seu pleno conhecimento e fruto no céu.
Devemos considerar,
também, a obra própria que cada uma destas três Pessoas efetua em
nós: o Pai é chamado nosso Criador, por seu poder; o Filho é nosso
Salvador e Redentor, por seu sangue; o Espírito Santo é nosso
Santificador, porque habita em nosso coração.
A verdadeira igreja
sempre tem mantido esta doutrina da Trindade, desde os dies dos
apóstolos até hoje, contra os judeus, os muçulmanos e falsos
cristãos e hereges como Marcião, Mani, Práxeas, Sabélio, Paulo de
Samósata, Ário e outros. A igreja antiga os condenou, com toda a
razão. por isso, nesta matéria, aceitamos, de boa vontade, os três
Credos ecumênicos, a saber: o Apostólico, o Niceno e o Atanasiano;
e também o que a igreja antiga determinou em conformidade com
estes credos.
1 Jo
14:16; Jo 15:26; At 2:32,33; Rm 8:9; Gl 4:6; Tt 3:4-6; 1Pe 1:2;
1Jo 4:13,14; 1Jo 5:1-12; Jd :20,21; Ap 1:4,5. 2 Mt
3:16.
* Originalmente o
texto incluía aqui as seguintes palavras: "E: "há três que dão
testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes
três são um" (1 Jo 5:7)". A referência a 1 João 5:7b e duvidosa,
porque este texto não se acha nos manuscritos antigos.
ARTIGO
10
JESUS CRISTO É DEUS
Cremos que Jesus
Cristo, segundo sua natureza divina, é o único Filho de Deusl,
gerado desde a eternidade. Ele não foi feito, nem criado - pois,
assim, Ele seria uma criatura, - mas é de igual substância do pai,
co-eterno, "o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser"
(Hebreus 1:3), igual a Ele em tudo2.
Ele é o Filho de Deus,
não somente desde que assumiu nossa natureza, mas desde a
eternidade3, como os seguintes testemunhos nos ensinam,
ao serem comparados uns aos outros:
Moisés diz que Deus
criou o mundo4, e o apóstolo João diz que todas as
coisas foram feitas por intermédio do Verbo que ele chama Deus5.
O apóstolo diz que Deus fez o universo por seu Filho6
e, também, que Deus criou todas as coisas por meio de Jesus Cristo7.
Segue-se necessariamente que aquele que é chamado Deus, o Verbo, o
Filho e Jesus Cristo, já existia, quando todas as coisas foram
criadas por Ele. O profeta Miquéias, portanto, diz: "Suas origens
são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade" (Miquéias
5:2); e a carta aos Hebreus testemunha: "Ele não teve princípio de
dias, nem fim de existência" (Hebreus 7:3).
Assim, Ele é o
verdadeiro, eterno Deus, o Todo-poderoso, a quem invocamos,
adoramos e servimos.
1 Mt 17:5;
Jo 1:14,18; Jo 3:16; Jo 14:1-14; Jo 20:17,31; Rm 1:4; Gl 4:4; Hb
1:1; lJo 5:5,9-12. 2 Jo 5:18,23; Jo 10:30; Jo 14:9; Jo
20:28; Rm 9:5; Fp 2:6; Cl 1:15; Tt 2:13; Hb 1:3; Ap 5:13. 3
Jo 8:58; Jo 17:5; Hb 13:8. 4 Gn 1:1. 5 Jo
1:1-3. 6 Hb 1:2. 7 1Co 8:6; Cl 1:16.
ARTIGO
11
O ESPÍRITO SANTO É DEUS
Cremos e confessamos,
também, que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, desde a
eternidade. Ele não foi feito, nem criado, nem gerado; mas procede
de ambos1.
Na ordem, Ele é a
terceira pessoa da Trindade, de igual substância, majestade e
glória do Pai e do Filho, verdadeiro e eterno Deus, como nos
ensinam as Sagradas Escrituras2.
1 Jo
14:15-26; Jo 15:26; Rm 8:9. 2 Gn 1:2; Mt 28:19; At
5:3,4; lCo 2:10; 1Co 6:11; 1Jo 5:6.
ARTIGO
12
A CRIACAO DO MUNDO; OS ANJOS
Cremos que o Pai, por
seu Verbo - quer dizer: por seu Filho -, criou, do nada, o céu, a
terra e todas as criaturas, quando bem Lhe aprouvel. A
cada criatura Ele deu sua própria natureza e forma e sua própria
função para servir ao seu Criador. Também, Ele ainda hoje sustenta
todas essas criaturas e as governa segundo sua eterna providencia
e por seu infinito poder, para elas servirem ao homem, a fim de
que o homem sirva a seu Deus.
Ele também criou bons
os anjos para serem seus mensageiros e servirem aos eleitos2.
Alguns deles caíram na eterna perdição3, da posição
excelente em que Deus os tinha criado, mas os outros, pela graça
de Deus, perseveraram e continuaram em sua primeira posição. Os
demonios e os espíritos malignos são tão corrompidos que são
inimigos de Deus e de todo o bem4. Como assassinos, com
toda a sua força, estão a espreita da igreja e de cada um de seus
membros, para demolir e destruir tudo com sua astúcia5.
Por isso, por causa de sua própria malícia, estão condenados a
maldição eterna e aguardam, a cada dia, seus tormentos terríveis6.
Neste ponto,
rejeitamos e detestamos o erro dos saduceus que negam a existência
de espíritos e de anjos7; também o erro dos maniqueus
que dizem que os demónios têm sua origem em si mesmos e são maus
por natureza; eles negam que os demónios se corromperam.
1 Gn 1:1;
Gn 2:3; Is 40:26; Jr 32:17; Cl 1:15,16; lTm 4:3; Hb 11:3; Ap 4:11.
2 Sl 103:20,21; Mt 4:11; Hb 1:14. 3 Jo 8:44;
2Pe 2:4; Jd :6. 4 Gn 3:1-5; lPe 5:8. 5 Ef
6:12; Ap 12:4,13-17; Ap 20:7-9. 6 Mt 8:29; Mt 25:41; Ap
20:10. 7 At 23:8.
ARTIGO
13
A PROVIDÊNCIA DE DEUS
Cremos que o bom Deus,
depots de ter criado todas as coisas, não as abandonou, nem as
entregou ao acaso ou a sorte1, mas que as dirige e
governa conforme sua santa vontade, de tal maneira que neste mundo
nada acontece sem sua determinação2. Contudo, Deus não
é o autor, nem tem culpa do pecado que se comete3. Pois
seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis, que Ele
ordena e faz sua obra muito bem e com justiça, mesmo que os
demónios e os ímpios ajam injustamente4. E as obras
dEle que ultrapassam o entendimento humano, não queremos investigá-las
curiosamente, além da nossa capacidade de entender. Mas, adoramos
humilde e piedosamente a Deus em seus justos julgamentos, que nos
estão escondidos5. Contentamo-nos em ser discípulos de
Cristo, a fim de que aprendamos somente o que Ele nos ensina na
sua Palavra, sem ultrapassar estes limites6.
Este ensino nos traz
um inexprimível consolo, quando aprendemos dele, que nada nos
acontece por acaso, mas pela determinação de nosso bondoso Pai
celestial. Ele nos protege com um cuidado paternal, dominando
todas as criaturas de tal modo que nenhum cabelo - pois estes
estão todos contados- e nenhum pardal cairão em terra sem o
consentimento de nosso Pai (Mateus 10:29,30). Confiamos nisto,
pois sabemos que Ele reprime os demônios e todos os nossos
inimigos, e que eles, sem sua permissão, não nos podem prejudicar7.
Por isso, rejeitamos o detestável erro dos epicureus, que dizem
que Deus não se importa com nada e entrega tudo ao acaso.
1 Jo 5:17;
Hb 1:3. 2 Sl 115:3; Pv 16:1,9,33; Pv 21:1; Ef 1:11.
3 Tg 1:13; 1Jo 2:16. 4 Jó 1:21; Is 10:5; Is
45:7; Am 3:6; At 2:23; At 4:27,28. 5 1Rs 22:19-23; Rm
1:28; 2Ts 2:11. 6 Dt 29:29; 1Co 4:6. 7 Gn
45:8; Gn 50:20; 2Sm 16:10; Rm 8:28,38,39.
ARTIGO
14
A CRIAÇÃO DO HOMEM. SUA QUEDA
E SUA INCAPACIDADE DE FAZER O BEM
Cremos que Deus criou
o homem do pó da terra1, e o fez e formou conforme sua
imagem e semelhança: bom, justo e santo2, capaz de
concordar, em tudo, com a vontade de Deus. Mas, quando o homem
estava naquela posição excelente, ele não a valorizou e não a
reconheceu. Dando ouvidos às palavras do diabo, submeteu-se por
livre vontade ao pecado e assim à morte e à maldição3.
Pois transgrediu o mandamento da vida, que tinha recebido e, pelo
pecado, separou-se de Deus, que era sua verdadeira vida. Assim ele
corrompeu toda a sua natureza e mereceu a morte corporal e
espiritual4.
Tornando-se ímpio,
perverso e corrupto em todas as suas práticas, ele perdeu todos os
dons excelentes5, que tinha recebido de Deus. Nada lhe
sobrou destes dons, senão pequenos traços, que são suficientes
para deixar o homem sem desculpa6. Pois toda a luz em
nós se tornou em trevas7 como nos ensina a Escritura:
"A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra
ela" (João 1:5). Aqui o apóstolo João chama os homens "trevas".
Por isso, rejeitamos todo o ensino contrário, sobre o livre
arbítrio do homem, porque o homem somente é escravo do pecado e "não
pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada" (João 3:27).
Pois quem se gloriará de fazer alguma coisa boa pela própria força,
se Cristo diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não
o trouxer" (João 6:44)? Quem falará sobre sua própria vontade
sabendo que "o pendor da came e inimizade contra Deus" (Romanos
8:7)? Quem ousará vangloriar-se sobre seu próprio conhecimento,
reconhecendo que "o homem natural não aceita as coisas do Espírito
de Deus" (1Coríntios 2:14)? Em resumo: quem apresentará um
pensamento sequer, admitindo que não somos "capazes de pensar
alguma coisa como se partisse de nós", mas que "a nossa
suficiencia vem de Deus" (2Coríntios 3:5)?
Por isso, devemos
insistir nesta palavra do apóstolo: "Deus é quem efetua em vós
tanto o querer como o realizar, segundo a sua vontade" (Filipenses
2:13). Pois, somente o entendimento ou a vontade que Cristo opera
no homem, está em conformidade com o entendimento e vontade de
Deus, como Ele ensina: "Sem mim nada podeis fuzer" (João 15:5).
1 Gn 2:7;
Gn 3:19; Ec 12:7. 2 Gn 1:26,27; Ef 4:24; Cl 3:10.
3 Gn 3:16-19; Rm 5:12. 4 Gn 2:17; Ef 2:1; Ef
4:18. 5 Sl 94:11; Rm 3:10; Rm 8:6. 6 Rm
1:20,21. 7 Ef 5:8.
ARTIGO
15
O PECADO ORIGINAL
Cremos que, pela
desobediência de Adão, o pecado original se estendeu por todo o
gênero humanol. Este pecado é uma depravação de toda a
natureza humana2 e um mal hereditário, com que até as
crianças no ventre de suas mães estão contaminadas3. É
a raiz que produz no homem todo tipo de pecado. por isso, é tão
repugnante e abominável diante de Deus que é suficiente para
condenar o gênero humano4.
Nem pelo batismo o
pecado original é totalmente anulado ou destruído, porque o pecado
sempre jorra desta depravação como água corrente de uma fonte
contaminada5. 0 pecado original, porém, não é atribuído
aos filhos de Deus para condená-los, mas é perdoado pela graça e
misericórdia de Deus6. Isto não quer dizer que eles
podem continuar descuidadamente numa vida pecaminosa. Pelo
contrário, os fiéis, conscientes desta depravação, devem aspirar a
livrar-se do corpo dominado pela morte (Romanos 7:24).
Neste ponto
rejeitamos o erro do pelagianismo, que diz que o pecado é somente
uma questão de imitação.
1 Rm
5:12-14,19. 2 Rm 3:10. 3 Jó 14:4; Sl 51:5;
Jo 3:6. 4 Ef 2:3. 5 Rm 7:18,19. 6 Ef
2:4,5.
ARTIGO
16
ELEIÇÃO ETERNA POR DEUS
Cremos que Deus,
quando o pecado do primeiro homem lançou Adão e toda a sua
descendência na perdiçãol mostrou-se como Ele é, a
saber: misericordioso e justo. Misericordioso, porque Ele livra e
salva da perdição aqueles que Ele em seu eterno e imutável
conselho2, somente pela bondade, elegeu3 em
Jesus Cristo nosso Senhor4, sem levar em consideração
obra alguma deles5. Justo, porque Ele deixa os demais
na queda e perdição, em que eles mesmos se lançaram6.
1 Rm 3:12.
2 Jo 6:37,44; Jo 10:29: Jo 17: 2,9,12; Jo 18:9. 3 1Sm
12:22; Sl 65:4; At 13: 48; Rm 9:16; Rm 11:5; Tt 1:1. 4 Jo
15:16,19; Rm 8:29; Ef 1:4,5. 5 Ml 1:2,3; Rm 9:11-13;
2Tm 1:9; Tt 3:4,5. 6 Rm 9:19-22; 1Pe 2:8.
ARTIGO
17
O SALVADOR, PROMETIDO POR DEUS
Cremos que nosso bom
Deus, vendo que o homem havia se lançado assim na morte corporal e
espiritual e se havia feito totalmente miserável, foi pessoalmente
em busca do homem, quando este, tremendo, fugia de sua presençal.
Assim Deus mostrou sua maravilhosa sabedoria e bondade. Ele
confortou o homem com a promessa de lhe dar seu Filho, que
nasceria de uma mulher (Gálatas 4:4) a fim de esmagar a cabeca da
serpente (Gênesis 3:15) e de tornar feliz o homem2.
1 Gn 3:9.
2 Gn 22:18; Is 7:14; Jo 1:14; Jo 5:46; Jo 7:42; At
13:32; Rm 1:2,3; Gl 3:16; 2Tm 2:8; Hb 7:14.
ARTIGO
18
A ENCARNAÇÃO DO FILHO DE DEUS
Confessamos, então,
que Deus cumpriu a promessa, feita aos pais antigos pela boca dos
seus santos profetasl, quando enviou ao mundo seu
próprio, único e eterno Filho, no tempo determinado por Ele2.
Este assumiu a forma de servo e tornou-se semelhante aos homens
(Filipenses 2:7), tomando realmente a verdadeira natureza humana
com todas as suas fraquezas3, mas sem o pecado4.
Foi concebido no ventre da bemaventurada virgem Maria, pelo poder
do Espírito Santo, sem intervenção do homem5. E não
somente tomou a natureza humana quanto ao corpo, mas também a
verdadeira alma humana, para que fosse um verdadeiro homem. Pois,
estando perdidos tanto a alma como o corpo, Ele devia tomar ambos
para salvá-los.
Por isso, confessamos
(contra a heresia dos anabatistas que negam que Cristo tomou a
natureza de sua mãe), que Cristo participou do sangue e da carne
dos filhos de Deus (Hebreus 2:14); que Ele, "segundo a carne, veio
da descendência de Davi" (Romanos 1:3); fruto do ventre de Maria
(Lucas 1:42); nascido de uma mulher (Gálatas 4:4); rebento de Davi
(Jeremias 33:15; Atos 2:30); renovo da raiz de Jessé (Isaías
11:1); brotado de Judá (Hebreus 7:14); descendente dos judeus,
segundo a carne (Romanos 9:5); da descendência de Abraão6,
tornando-se semelhante aos irmãos em tudo, mas sem pecado (Hebreus
2:16,17; 4:15).
Assim Ele é, na
verdade, nosso Emanuel, isto é: Deus conosco (Mateus 1:23).
1 Gn 26:4;
2Sm 7:12-16; Sl 132:11; Lc 1:55; At 13:23. 2 Gl 4:4.
3 1Tm 2:5; 1Tm 3:16; Hb 2:14. 4 2Co 5:21; Hb
7:26; 1Pe 2:22. 5 Mt 1:18; Lc 1:35. 6 Gl
3:16.
ARTIGO
19
AS DUAS NATUREZAS DE CRISTO
Cremos que, por esta
concepção, a pessoa do Filho está unida e conjugada
inseparavelmente, com a natureza humana1. Não há, então,
dois filhos de Deus, nem duas pessoas, mas duas naturezas, unidas
numa só pessoa, mantendo cada uma delas suas características
distintas. A natureza divina permaneceu não criada, sem início,
nem fim de vida (Hebreus 7:3), preenchendo céu e terra2.
Do mesmo modo a natureza humane não perdeu suas características,
mas permaneceu criatura, tendo início, sendo uma natureza finita e
mantendo tudo o que é próprio de um verdadeiro corpo3.
E ainda que, por meio da sua ressurreição, Cristo tenha concedido
imortalidade a sua natureza humana, Ele não transformou a
realidade da mesma4, pois nossa salvação e ressurreição
dependem também da realidade de seu corpo5.
Estas duas naturezas,
porém, estão unidas numa só pessoa de tal maneira que nem por sua
morte foram separadas. Ao morrer, Ele entregou, então, nas mãos de
seu Pai um verdadeiro Espírito humano, que saiu de seu corpo6,
entretanto, a natureza divina sempre continuou unida a humana,
mesmo quando Ele jazia no sepulcro7. A divindade não
cessou de estar nEle, assim como estava nEle quando era criança,
embora, por algum tempo, não se tivesse manifestado.
Por isso, confessamos
que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: verdadeiro Deus a
fim de veneer a morte por seu poder; verdadeiro homem a fim de
morrer por nós na fraqueza de sua carne.
1 Jo 1:14;
Jo 10:30; Rm 9:5; Fp 2:6,7. 2 Mt 28:20. 3
1Tm 2:5. 4 Mt 26:11; Lc 24:39; Jo 20:25; At 1:3,11; At
3:21; Hb 2:9. 5 1Co 15:21; Fp 3:21. 6 Mt
27:50. 7 Rm 1:4.
ARTIGO
20
A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA DE DEUS EM CRISTO
Cremos que Deus,
perfeitamente misericordioso e justo, enviou seu Filho para
assumir a natureza humane em que foi cometida a desobediêncial.
Nesta natureza, Ele satisfez a Deus, carregando o castigo pelos
pecados, através de seu mui amargo sofrimento e morte2.
Assim Deus provou sua justiça sobre seu Filho, quando carregou
sobre Ele nossos pecados3 e derramou sua bondade e
misericórdia sobre nós, culpados e dignos da condenação. Por amor
perfeitíssimo, Ele entregou seu Filho a morte, por nós, e O
ressuscitou para nossa justificação4, a fim de que, por
Ele, tivéssemos a imortalidade e a vida eterna.
1 Rm 8:3.
2 Hb 2:14. 3 Rm 3:25,26; Rm 8:32. 4
Rm 4:25.
ARTIGO
21
A SATISFAÇÃO POR CRISTO
Cremos que Jesus
Cristo é um eterno Sumo Sacerdote, segundo a ordem de
Melquisedeque, o que Deus confirmou por juramentol.
Perante seu Pai e para apaziguar-Lhe a ira, Ele se apresentou em
nosso nome, por satisfação própria2, sacrificando-se a
si mesmo e derramando seu precioso sangue, para purificação dos
nossos pecados3, conforme os profetas predisseram4.
Pois, está escrito
que "o castigo que nos traz a paz estava sobre " o Filho de Deus e
que "pelas suas pisaduras fomos sarados"5; "como
cordeiro foi levado ao matadouro"; "foi contado com os
transgressores"6 (Isaías 53: 5,7,12); e como criminoso
foi condenado por Pôncio Pilatos embora este o tivesse declarado
inocente7. Assim, então, restituiu o que não tinha
furtado (Salmo 69:4), e sofreu, "o justo pelos injustos"8
(lPedro 3:18), tanto no seu corpo como na sua alma9, de
maneira que sentiu o terrível castigo que os nossos pecados
mereceram. Assim "o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo
sobre a terra " (Lucas 22:44). Ele "clamou em alta voz: Deus meu,
Deus meu, por que me desamparaste?" (Mateus 27:46) e padeceu tudo
para a remissão dos nossos pecados.
Por isso, dizemos,
com razão, junto com Paulo que não sabemos outra coisa, "senão
Jesus Cristo, e este crucificado" (1Corlntios 2:2). Consideramos "tudo
como perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo
Jesus", nosso Senhor (Filipenses 3:8). Encontramos toda consolação
em seus ferimentos e não precisamos buscar ou inventar qualquer
outro meio para nos reconciliarmos com Deus, "porque com uma única
oferta aperfeicoou para sempre quantos estão sendo santificados,10
(Hebreus 10:14). Por isso, o anjo de Deus O chamou Jesus, quer
dizer: Salvador, porque ia salver "o seu povo dos pecados deles "11
(Mateus 1:21).
1 Sl
110:4; Hb 7:15-17. 2 Rm 4:25; Rm 5: 8-9; Rm 8:32; Gl
3:13; Cl 2:14; Hb 2:9,17; Hb 9:11-15. 3 At 2:23; Fp
2:8; 1Tm 1:15; Hb 9:22; 1Pe 1:18,19; 1Jo 1:7; Ap 7:14. 4
Lc 24:25-27; Rm 3:21; 1Co 15:3. 5 1Pe 2:24. 6
Mc 15:28. 7 Jo 18:38. 8 Rm 5:6. 9
Sl 22:15. 10 Hb 7:26-28; Hb 9:24-28. 11 Lc
1:31; At 4:12.
ARTIGO
22
A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ EM CRISTO
Cremos que, para
obtermos verdadeiro conhecimento desse grande mistério, o Espírito
Santo acende, em nosso coração, verdadeira fé1. Esta fé
abraça Jesus Cristo com todos os seus méritos, apropria-se dEle e
nada mais busca fora dEle2. Pois das duas, uma: ou não
se ache em Jesus Cristo tudo o que é necessário para nossa
salvação, ou tudo se acha nEle, e, então, aquele que possui Jesus
Cristo pela fé, tem a salvação completa3. Dizer porém
que Cristo não é suficiente, mas que, além dEle, algo mais é
necessário, significaria uma blasfêmia horrível. Pois Cristo seria
apenas um salvador incompleto.
Por isso, dizemos,
com razão, junto com o apóstolo Paulo, que somos justificados
somente pela fé, ou pela fe sem as obras4 (Romanos
3:28). Entretanto, não entendemos isto como se a própria fé nos
justificasse5, mas ela é somente o instrumento com que
abraçamos Cristo, nossa justiça. Mas Jesus Cristo, atribuindo-nos
todos os seus méritos e tantas obras santas, que fez por nós e em
nosso 1ugar, é nossa justiça6. E a fé é o instrumento
que nos mantém com Ele na comunhão de todos os seus benefícios.
Estes, uma vez dados a nós, são mais que suficientes para nos
absolver dos pecados.
1 Jo
16:14; 1Co 2:12; Ef 1:17,18. 2 Jo 14:6; At 4:12; Gl
2:21. 3 Sl 32:1; Mt 1:21; Lc 1: 77; At 13:38,39; Rm
8:1. 4 Rm 3:19-4:8; Rm 10:4-11; Gl 2:16; Fp 3:9; Tt
3:5. 5 1Co 4:7. 6 Jr 23:6; Mt 20:28; Rm
8:33; 1Co 1:30,31; 2Co 5:21; 1Jo 4:10.
ARTIGO
23
NOSSA JUSTIÇA PERANTE DEUS EM CRISTO
Cremos que nossa
verdadeira felicidade consiste no perdão dos pecados, por causa de
Jesus Cristo, e que isto significa para nós a justiça perante Deusl.
Assim nos ensinam Davi e Paulo, declarando: "Bem-aventurado o
homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras"
(Romanos 4:6; Salmo 32:2). E o mesmo apóstolo diz que somos
"justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção
que há em Cristo Jesus"2 (Romanos 3: 24).
Portanto,
perseveramos neste fundamento, dando toda a glória a Deus3,
humilhando-nos e reconhecendo que nós, homens, somos maus. Não nos
vangloriamos, de nenhuma maneira, de nós mesmos ou de nossos
méritos4. Somente nos apoiamos e repousamos na
obediência do Cristo crucificado5. Esta obediência é
nossa se cremos nEle6. Ela é suficiente para cobrir
todas as nossas iniqüidades. Ela liberta nossa consciência de
temor, perplexidade e espanto e, assim, nos dá ousadia de
aproximarmo-nos de Deus, sem fazermos como nosso primeiro pai Adão
que, tremendo, quis cobrir-se com folhas de figueira7.
E, certamente, se tivéssemos que comparecer perante Deus, apoiando-nos,
por pouco que fosse, em nós mesmos ou em qualquer outra criatura -
ai de nós -, pereceríamos8. Por isso, cada um deve
dizer com Davi: "Ó Senhor, não entres em juízo com o teu servo,
porque a tua vista não há justo nenhum vivente" (Salmo 143:2).
1 1Jo 2:1.
2 2Co 5:18,19; Ef 2:8; 1Tm 2:6. 3 Sl 115:1;
Ap 7:10-12. 4 1Co 4:4; Tg 2:10. 5 At 4:12;
Hb 10:20. 6 Rm 4:23-25. 7 Gn 3:7; Sf 3:11;
Hb 4:16; 1Jo 4:17-19. 8 Lc 16:. 15; Fp 3:4-9.
ARTIGO
24
A SANTIFICAÇÃO
Cremos que a
verdadeira fé, tendo sido acesa no homem pelo ouvir da Palavra de
Deus e pela obra do Espírito Santol, regenera o homem e
o torna um homem novo2. Esta verdadeira fé o faz viver
na vida nova e o liberta da escravidão do pecado3.
Por isso, é
impossível que esta fé justificadora leve os homens a se
descuidarem da vida piedosa e santa4. Pelo contrário,
sem esta fé jamais farão alguma coisa por amor a Deus5,
mas somente por amor a si mesmos e por medo de serem condenados. É
impossível, portanto, que esta fé permaneça no homem sem frutos.
Pois, não falamos de uma fé vã, mas da fé, de que a Escritura diz
que "atua pelo amor" (Gálatas 5:6). Ela move o homem a exercitar-se
nas obras que Deus mandou na sua Palavra. Estas obras, se procedem
da boa raíz da fé; são boas e agradáveis a Deus, porque todas elas
são santificadas por sua graça.
Entretanto, elas não
são levadas em conta para nos justificar. Porque é pela fé em
Cristo que somos justificados, mesmo antes de fazermos boas obras6.
De outro modo, estas obras não poderíam ser boas, assim como o
fruto da árvore não pode ser bom, se a árvore não for boa7.
Então, fazemos boas
obras, mas não para merecermos algo. Pois, que mérito poderíamos
ter? Antes, somos devedores a Deus pelas boas obras que fazemos e
não Ele a nós8. Pois, "Deus e quem efetua em" nós
"tanto o querer como o realizar, segundo sua boa vontade"
(Filipenses 2:13). Então, lev emos a sério o que está escrito: "Assim
também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado,
dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos
fazer" (Lucas 17:10). Contudo, não queremos negar que Deus
recompensa as boas obras9; mas, por sua graça, Ele
coroa seus próprios dons.
E, em seguida, mesmo
que façamos boas obras, nelas não fundamentamos nossa salvação.
Porque, por sermos pecadores, não podemos fazer obra alguma que
não esteja contaminada e não mereça ser castigadal0. E,
ainda que pudéssemos produzir uma só boa obra, a lembrança de um
só pecado bastaria para torná-la rejeitável perante Deusll.
Assim, sempre duvidaríamos, levados de um lado para o outro, sem
certeza alguma, e nossa pobre consciência estaria sempre aflita, a
não ser que se apoiasse no mérito do sofrimento e da morte de
nosso Salvadorl2.
1 At
16:14; Rm 10:17; 1Co 12:3. 2 Ez 36:26, 27; Jo 1:12,13;
Jo 3:5; Ef 2:4-6; Tt 3:5; 1Pe 1:23. 3 Jo 5:24; Jo 8:36;
Rm 6:4-6; 1Jo 3:9. 4 Gl 5:22; Tt 2:12. 5 Jo
15:5; Rm 14: 23; 1Tm 1:5; Hb 11:4,6. 6 Rm 4:5. 7
Mt 7:17. 8 1Co 1:30: 1Co 4:7; Ef 2:10. 9 Rm
2:6,7; 1Co 3:14; 2Jo :8; Ap 2:23. 10 Rm 7:21. 11
Tg 2:10. 12 Hc 2:4; Mt 11:28; Rm 10:11.
ARTIGO
25
CRISTO, O CUMPRIMENTO DA LEI
Cremos que as
cerimônias e figuras da lei terminaram com a vinda de Cristo e
que, assim, todas as sombras chegaram ao fiml. Por isso,
os cristãos não devem mais usá-las. Contudo, para nós, sua verdade
e substância permanecem em Cristo Jesus, em quem têm seu
cumprimento2.
Entretanto, ainda
usamos os testemunhos da Lei e dos Profetas para confirmarmo-nos
no Evangelho e, também, para regularmos nossa vida em toda
honestidade, para a glória de Deus, conforme sua vontade3.
1 Mt
27:51; Rm 10:4; Hb 9:9,10. 2 Mt 5:7; Gl 3:24; Cl 2:17.
3 Rm 13:8-10; Rm 15:4; 2Pe 1:19; 2Pe 3:2.
ARTIGO
26
CRISTO, NOSSO ÚNICO ADVOGADO
Cremos que nenhum
acesso temos a Deus, senão pelo único Mediadorl e
Advogado Jesus Cristo, o Justo2. Porque Ele se tornou
homem e uniu as naturezas divina e humana, para que nós, homens,
tivéssemos acesso à majestade divina3. De outro modo,
nenhum acesso teríamos. Mas este Mediador que o Pai constituiu
entre Ele e nós, não nos deve assustar por sua grandeza, a ponto
de fazer-nos procurar um outro, conforme nossa própria vontade.
Porque não há ninguém , nem no céu, nem na terra, entre as
criaturas, que nos ame mais que Jesus Cristo4. "Pois
ele, subsistindo em forma de Deus ... a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens"
por nós, "em todas as coisas ... semelhante aos irmãos"
(Filipenses 2:6,7; Hebreus 2:17).
Agora, se tivéssemos
que buscar outro mediador que nos fosse favorável, quem poderíamos
encontrar que mais nos amasse senão Ele que entregou sua vida por
nós, sendo nós ainda inimigos (Romanos 5:8,10)? E se tivéssemos
que buscar alguém que tivesse poder e estima, quem os teria tanto
quanto Ele que está sentado a direita de seu Pai5, e
que tem "toda a autoridade... no céu e na terra" (Mateus 28:18)? E
quem será ouvido antes do que o próprio bem-amado Filho de Deus6?
Foi, então, somente
falta de confiança que levou os homens ao costume de desonrar os
santos em vez de honrá-los. Pois fazem o que estes santos jamais
fizeram ou desejaram mas sempre rejeitaram conforme era seu dever7,
como mostram seus escritos.
Aqui não se deve
alegar que não somos dignos; pois não apresentamos as orações a
Deus em razão de nossa dignidade, mas somente pela excelência e
dignidade de nosso Senhor Jesus Cristo8, cuja justiça é
a nossa, mediante a fé9. Por isso, a Escritura nos diz,
querendo tirar de nós esse tolo receio, ou antes, essa falta de
confiança, que Jesus Cristo tornou-se "em todas as coisas...
semethante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo
sacerdote nas coisas referentes a Deus, e para fazer propiciação
pelos pecados do povo. Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo
sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados" (Hebreus
2:17,18). E a Escritura diz também, para animar-nos ainda mais a
ir para Ele: "Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande
sumo sacerdote que entrou nos céus, conservemos firmes a nossa
confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa
compadecer-se das nossas fraquezas, antes foi ele tentado em todas
as coisas, a nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos,
portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de
recebermos misericordia e acharmos graça para socorro em ocasião
oportuna"l0 (Hebreus 4:14-16). A Escritura diz ainda: "Tendo,
pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos santos, pelo
sangue de Jesus... aproximemo-nos... em plena certeza de fé etc."
(Hebreus 10:19-22). E também: Cristo "tem o seu sacerdócio
imutável. Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele
se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles "11
(Hebreus 7:24,25).
Então, do que
precisamos mais, visto que o próprio Cristo declara: "Eu sou o
camninho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim"
(João 14:6)? Por que buscaríamos outro advogado visto que agradou
a Deus nos dar seu Filho como Advogado? Não O abandonemos para
buscar outro que nunca encontraremos. Pois quando Deus O deu a nós,
bem sabia que éramos pecadores.
Por isso, conforme o
mandamento de Cristo, invocamos o Pai celestial mediante Cristo,
nosso únicoMediadorl2, como nos foi ensinado na oração
do Senhorl3. E temos a certeza de que o Pai nos
concederá tudo o que Lhe pedirmos em nome de Cristol4 (João
16:23).
1 1Tm 2 5.
2 1Jo 2:1. 3 Ef 3:12. 4 Mt 11:
28; Jo 15:13; Ef 3:19; 1Jo 4:10. 5 Hb 1:3; Hb 8:1.
6 Mt 3:17; Jo 11:42; Ef 1:6. 7 At 10:26; At
14:15. 8 Jr 17:5,7; At 4:12. 9 1Co 1:30.
10 Jo 10:9; Ef 2:18; Hb 9:24. 11 Rm 8:34.
12 Hb 13:15. 13 Mt 6:9-13; Lc 11:2-4.
14 Jo 14:13.
ARTIGO
27
A IGREJA CAT0LICA OU UNIVERSAL
Cremos e confessamos
uma só igreja católica ou universal1. Ela é uma santa
congregação e assembléia2 dos verdadeiros crentes em
Cristo, que esperam toda a sua salvação de Jesus Cristo3,
lavados pelo sangue dEle, santificados e selados pelo Espírito
Santo4.
Esta igreja existe
desde o princípio do mundo e existirá até o fim. Pois, Cristo é um
Rei eterno, que não pode estar sem súditos5. Esta santa
igreja é mantida por Deus contra o furor do mundo inteiro6,
mesmo que ela, às vezes, por algum tempo, seja muito pequena e na
opinião dos homens, quase desaparecida7. Assim, Deus
guardou para si, na perigosa época de Acabe, sete mil homens, que
não tinham dobrado os joelhos a Baal8.
Esta santa igreja
também não está situada, fixada ou limitada em certo lugar, ou
ligada a certas pessoas, mas ela está espalhada e dispersa pelo
mundo inteiro9. Contudo, está integrada e unida, de
coração e vontade, no mesmo Espírito, pelo poder da fé10.
1 Gn
22:18; Is 49:6; Ef 2:17-19. 2 Sl 111:1; Jo 10:14,16; Ef
4:3-6; Hb 12:22,23. 3 Jl 2: 32; At 2:21. 4
Ef 1:13; Ef 4:30. 5 2Sm 7:16; Sl 89:36; Sl 110:4; Mt
28:18,20; Lc 1:32. 6 Sl 46:5; Mt 16:18. 7 Is
1:9; 1Pe 3:20; Ap 11:7. 8 1Rs 19:18; Rm 11:4. 9
Mt 23:8; Jo 4:21-23; Rm 10:12,13. 10 Sl 119:63; At
4:32; Ef 4:4.
ARTIGO
28
O DEVER DE JUNTAR-SE À IGREJA
Esta santa assembléia
é a congregação daqueles que são salvos, e fora dela não há
salvaçãol. Cremos, então, que ninguém, qualquer que
seja a posição ou qualidade, deve viver afastado dela e
contentar-se com sua própria pessoa. Mas cada um deve se juntar e
se reunir a ela2, mantendo a unidade da igreja,
submetendo-se a sua instrução e disciplina3,
curvando-se diante do jugo de Jesus Cristo4 e servindo
para a edificação dos irmãos5, conforme os dons que
Deus concedeu a todos, como membros do mesmo corpo6.
Para observar melhor
tudo isto, o dever de todos os fiéis é, conforme a Palavra de Deus,
separar-se daqueles que não pertencem a igreja7, e
juntar-se a esta assembléia8 em todo lugar onde Deus a
tenha estabelecido. Este dever deve ser cumprido, mesmo que os
governos e as leis das autoridades o contrariem e mesmo que a
morte ou a pena corporal sejam a consequência disto9.
Por isso, todos os
que se separam desta igreja ou não se juntam a ela, contrariam a
ordem de Deus.
1 Mt
16:18,19; At 2:47; Gl 4:26; Ef 5:25-27; Hb 2:11,12; Hb 12:23.
2 2Cr 30:8; Jo 17:21; Cl 3:15. 3 Hb 13:17. 4
Mt 11:28-30. 5 Ef 4:12. 6 1Co 12:7,27; Ef
4:16. 7 Nm 16:23-26; Is 52:11,12; At 2:40; Rm 16:17; Ap
18:4. 8 Sl 122:1; Is 2:3; Hb 10:25. 9 At
4:19,20.
ARTIGO
29
AS MARCAS DA VERDADEIRA IGREJA,
DE SEUS MEMBROS E DA FALSA IGREJA
Cremos que se deve
discernir diligentemente e com muito cuidado, pela Palavra de Deus,
qual é a verdadeira igreja, visto que todas as seitas, que
atualmente existem no mundo, se chamam igreja, mas sem razãol.
Não falamos aqui dos hipócritas que, na igreja, se acham entre os
sinceros fiéis; contudo, não pertencem à igreja, embora sejam
membros dela2. Mas queremos dizer que se deve
distinguir o corpo e a comunhão da verdadeira igreja, de todas as
seitas que se dizem igreja.
As marcas para
conhecer a verdadeira igreja são estas: ela mantém a pura pregação
do Evangelho3, a pura administração dos sacramentos4
como Cristo os instituiu, e o exercício da disciplina eclesiástica
para castigar os pecados5. Em resumo: ela se orienta
segundo a pura Palavra de Deus6, rejeitando todo o
contrário a esta Palavra7 e reconhecendo Jesus Cristo
como o único Cabeça8. Assim, com certeza, se pode
conhecer a verdadeira igreja; e a ninguém convém separar-se dela.
Aqueles que pertencem
à igreja podem ser conhecidos pelas marcas dos cristãos, a saber:
pela fé9 e pelo fato de que eles, tendo aceitado Jesus
Cristo como único Salvador, fogem do pecado e seguem a justiçal0,
amando Deus e seu próximo11, não se desviando para a
direita nem para a esquerda e crucificando a carne, com as obras
dela12. Isto não quer dizer, por ém , que eles não têm
ainda grande fraqueza, mas, pelo Espírito, a combatem, em todos os
dias de sua vida 13, e sempre recorr em ao sangue, à
morte, ao sofrimento e à obediência do Senhor Jesus. NEle eles têm
a remissão dos pecados, pela fél4.
Quanto à falsa igreja,
ela atribui mais poder e autoridade a si mesma e a seus
regulamentos do que à Palavra de Deus e não quer submeter-se ao
jugo de Cristo15. Ela não administra os sacramentos
como Cristo ordenou em sua Palavra, mas acrescenta ou elimina o
que lhe convém. Ela se baseia mais nos homens que em Cristo. Ela
persegue aqueles que vivem de maneira santa, conforme a Palavra de
Deus, e que lhe repreendem os pecados, a avareza e a idolatria16.
É fácil conhecer
estas duas igrejas e distingui-las uma da outra.
1 Ap 2:9.
2 Rm 9:6. 3 Gl 1:8; 1Tm 3:15. 4
At 19:3-5; 1Co 11:20-29. 5 Mt 18:15-17; 1Co 5:4,5,13;
2Ts 3:6,14; Tt 3:10. 6 Jo 8:47; Jo 17:20; At 17:11; Ef
2:20; Cl 1:23; 1Tm 6:3. 7 1Ts 5:21; lTm 6:20; Ap 2:6. 8
Jo 10:14; Ef 5:23; C1 1:18. 9 Jo 1:12; 1Jo 4:2. 10 Rm
6:2; Fp 3:12. 11 1Jo 4:19-21. 12 Gl 5:24.
13 Rm 7:15; G1 5:17. 14 Rm 7:24,25; 1Jo 1:
7-9. 15 At 4:17,18; 2Tm 4:3,4; 2Jo :9. 16 Jo
16:2.
ARTIGO
30
O GOVERNO DA IGREJA
Cremos que esta
verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual,
que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra1. Deve
haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e
administrarem os sacramentos2; deve haver também
presbíteros3 e diaconos4 para formarem, com
os pastores, o conselho da igreja5. Assim, eles devem
manter a verdadeira religião e fazer com que a verdadeira doutrina
seja propagada, que os transgressores sejam castigados e contidos,
de forma espiritual, e que os pobres e os aflitos recebam ajuda e
consolação, conforme necessitam6.
Desta maneira, tudo
procederá, na igreja, em boa ordem, quando forem eleitas pessoas
fiéis7, conforme a regra do apóstolo Paulo na carta a
Timóteo8.
1 At
20:28; Ef 4:11,12; 1Tm 3:15; Hb 13:20, 21. 2 Lc 1:2; Lc
10:16; Jo 20:23; Rm 10:14; 1Co 4:1; 2Co 5:19,20; 2Tm 4:2. 3
At 14:23; Tt 1:5. 4 1Tm 3:8-10. 5 Fp 1:1;
1Tm 4:14. 6 At 6:1-4; Tt 1:7-9. 7 1Co 4:2.
8 1Tm 3.
ARTIGO
31
OS OFÍCIOS NA IGREJA
Cremos que os
ministros da palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem
ser escolhidos para seus ofícios.mediante eleição legítima pela
igreja, sob invocação do nome de Deus e em boa ordem, conforme a
palavra de Deus ensina.
Por isso, cada membro
deve cuidar para não se apoderar do ofício por meios ilícitos, mas
deve esperar a hora em que é chamado por Deus, a fim de ter, assim,
a certeza de que sua vocação vem do Senhor2.
Quanto aos ministros
da Palavra, eles têm, onde quer que estejam, igual poder e
autoridade, porque todos são servos de Jesus Cristo3, o
único Bispo universal e o único Cabeça da igreja4.
Além disto, a santa
ordem de Deus não pode ser violada ou desprezada. Dizemos,
portanto, que cada um deve ter respeito especial pelos ministros
da Palavra e presbíteros da igreja, em razão do trabalho que
realizam5. Cada um deve viver em paz com eles, tanto
quanto possível, sem murmuração, contenda ou discórdia.
1 At
1:23,24; At 6:2,3. 2 At 13:2; 1Co 12: 28; 1Tm 4:14; 1Tm
5:22; Hb 5:4. 3 2Co 5:20; 1Pe 5:1-4. 4 Mt
23:8,10; Ef 1:22; Ef 5:23. 5 1Ts 5:12,13; 1Tm 5:17; Hb
13:17.
ARTIGO
32
A ORDEM E A DISCIPLINA DA IGREJA
Cremos que os que
governam a igreja devem cuidar para não se desviarem do que
Cristo, nosso único Mestre, nos ordenou1; embora seja
útil e bom que, entre eles, se estabeleça e conserve determinada
ordem para manter o corpo da igreja.
Por isso, rejeitamos
todas as invenções humanas e todas as leis que se queiram
introduzir para servir a Deus, mas que venham, de qualquer maneira,
comprometer e constranger a consciência2. Aceitamos,
então, somente o que serve para promover e guardar a concórdia e a
unidade e para manter tudo na obediência a Deus3.
Esta ordem (caso
desobedecida exige a excomunhão), feita conforme a Palavra de Deus,
com todas as suas conseqüências4.
1 1Tm
3:15. 2 Is 29:13; Mt 15:9; Gl 5:1. 3 1Co
14:33. 4 Mt 16:19; Mt 18:15-18; Rm 16:17; 1Co 5; 1Tm
1:20.
ARTIGO
34
OS SACRAMENTOS
Cremos que nosso bom
Deus, atento à nossa ignorância e fraqueza, instituiu os
sacramentos, a fim de nos selar suas promessas e nos conceder
penhores de sua benevolência e graça para conosco e, também,
alimentar e sustentar nossa fé1. Ele acrescentou os
sacramentos à palavra do Evangelho2 para melhor
apresentar aos nossos sentidos tanto o que Ele nos declara por sua
Palavra, como o que Ele opera em nossos coraçoes.
Assim, Ele confirma a
salvação de que nos fez participar. Pois os sacramentos são
visíveis sinais e selos de uma realidade interna e invisível.
Através deles, Deus opera em nós, pelo poder do Espírito Santo3.
Por isso, os sinais não são vãos nem vazios para nos enganar,
porque Jesus Cristo é a verdade deles e, sem Ele, nada seriam.
Além disto, nos
contentamos com o número dos sacramentos que Cristo, nosso Mestre,
instituiu e que não são mais de dois: o sacramento do batismo4
e o da santa ceia de Jesus Cristo5.
1 Gn
17:9-14; Êx 12; Rm 4:11. 2 Mt 28:19; Ef 5:26. 3
Rm 2:28,29; Cl 2:11,12. 4 Mt 28:19. 5 Mt
26:26-28; 1Co 11:23-26.
ARTIGO
34
O SANTO BATISMO
Cremos e confessamos
que Jesus Cristo, o qual é "o fim da lei" (Romanos 10:4),
derramando seu sangue, acabou com qualquer outro derramamento de
sangue, que se possa ou queira realizar para reconciliação dos
pecados. Tendo abolido a circuncisão, que se praticava com sangue,
Ele instituiu, em lugar dela, o sacramento do batismo1.
Pelo batismo somos
recebidos na igreja de Deus e separados de todos os outros povos e
outras religiões para pertencermos totalmente a Ele2,
tendo sua marca e estandarte. O batismo nos serve para testemunhar
que Ele eternamente será nosso Deus e misericordioso Pai.
Por isso, Cristo
mandou batizar todos os seus "em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo" (Mateus 28:19), somente com água. Desta forma Ele
nos dá a entender que assim como a água tira a impureza do corpo,
quando derramada em nós, e também assim como a água é vista no
corpo de quem recebe o batismo, assim o sangue de Cristo, através
do Espírito Santo3, lava a alma, purificando-a dos
pecados4, e faz com que nós, filhos da ira nasçamos de
novo para sermos filhos de Deus5.
Porém, não somos
purificados de nossos pecados pela água do batismo6,
mas pela aspersão com o precioso sangue do Filho de Deus7.
Ele é nosso Mar Vermelho8, que devemos atravessar para
escapar da tirania de Faraó - que é o diabo - e para entrar na
Canaã espiritual.
Os ministros, por sua
parte, nos administram somente o sacramento, que é visível, mas
nosso Senhor nos concede o que o sacramento significa, a saber: os
dons invisíveis da graça. Ele lava nossa alma, purificando-a e
limpando-a de todas as impurezas e iniqüidades9. Ele
renova nosso coração, enchendo-o de toda a consolação, e nos dá a
verdadeira certeza de sua bondade paternal. Ele nos reveste do
novo homem, despindo-nos do velho com todas as suas obras10.
Por isso, cremos que
quem quer entrar na vida eterna, deve ser batizado só uma vez
11. O batismo não pode ser repetido, porque também não
podemos nascer duas vezes e porque este batismo tem utilidade não
somente no momento de recebê-lo, mas durante a vida inteira.
Rejeitamos, portanto,
o erro dos anabatistas, que não se contentam com o batismo que uma
vez receberam e que, além disto, condenam o batismo dos filhos
pequenos dos crentes. Nós cremos, porém, que eles devem ser
batizados e, com o sinal da aliança, devem ser selados, assim como
as crianças em Israel eram circuncidadas com base nas mesmas
promessas que foram feitas a nossos filhos12. Cristo,
de fato, derramou seu sangue para lavar, igualmente, as crianças
dos fiéis e os adultos13. Por isso, elas devem receber
o sinal e o sacramento da obra que Cristo fez para elas, como o
Senhor, outrora, na lei, determinava que as crianças
p.articipassem, pouco depois do seu nascimento, do sacramento do
sofrimento e da morte de Cristo, através da oferta de um cordeiro14,
que era um sacramento de Jesus Cristo.
Além disto, o batismo
tem, para nossos filhos, o mesmo efeito que a circuncisão tinha
para o povo judeu. É por esta razão que o apóstolo Paulo chama ao
batismo: "a circuncisão de Cristo" (Colossenses 2:11).
1 Cl 2:11.
2 Êx 12:48; 1Pe 2:9. 3 Mt 3:11; 1Co 12:13.
4 At 22:16; Hb 9:14; 1Jo 1:7; Ap 1:5b. 5 Tt
3:5. 6 1Pe 3:21. 7 Rm 6:3; 1Pe 1:2; 1Pe
2:24. 8 1Co 10:1-4. 9 1Co 6:11: Ef 5:26.
10 Rm 6:4; Gl 3:27. 11 Mt 28:19; Ef 4:5.
12 Gn 17: 10-12; Mt 19:14; At 2:39. 13 1Co
7:14. 14 Lv 12:6.
ARTIGO
35
A SANTA CEIA
Cremos e confessamos
que nosso Salvador Jesus Cristo ordenou e instituiu o sacramento
da santa ceia1, a fim de alimentar e sustentar aqueles
que Ele já fez nascer de novo e incorporou à sua família, que é a
sua igreja.
Agora, aqueles que
nasceram de novo têm duas vidas diferentes2. Uma é
corporal e temporária: eles a trouxeram de seu primeiro nascimento
e todos os homens a tem. A outra é espiritual e celestial: ela
lhes é dada no segundo nascimentp que se realiza pela palavra do
Evangelho3, na comunhão com o corpo de Cristo. Esta
vida apenas os eleitos de Deus possuem. Assim Deus ordenou para a
manutenção da vida corporal e terrestre, pão comum, terrestre, que
todos recebem como recebem a vida.
Porém, a fim de
manter a vida espiritual e celestial, que os crentes possuem, Ele
lhes enviou um "pão vivo, que desceu do céu" (João 6:51) , isto é,
Jesus Cristo4. Ele alimenta e mantém a vida espiritual
dos crentes5 quando é comido, quer dizer: aceito
espiritualmente e recebido pela fé6.
A fim de nos figurar
este pão espiritual e celestial, Cristo ordenou um pão terrestre e
visível como sacramento de seu corpo e o vinho como sacramento de
seu sangue7. Com eles nos assegura: tão certo como
recebemos o sacramento e o temos em nossas mãos e o comemos e
bebemos com nossa boca, para manter nossa vida, tão certo
recebemos em nossa alma pela fe8 - que é a mão e a boca
da nossa alma -, o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de
Cristo, nosso único Salvador, para manter nossa vida espiritual.
Agora, há certeza
absoluta de que Jesus Cristo não nos ordenou seus sacramentos a
toa. Então, Ele realiza em nós tudo o que nos apresenta por estes
santos sinais, embora de maneira além da nossa compreensão, como
também a ação do Espírito Santo é oculta e incompreensível9.
Entretanto, não nos
enganamos, dizendo que, o que comemos e bebemos, é o próprio corpo
natural e o próprio sangue de Cristo. Porém, a forma pela qual os
tomamos não é pela boca, mas, espiritual, pela fé. Desta maneira,
Jesus Cristo permanece sentado a direita de Deus, seu Pai, no céu10
e, contudo, Ele se comunica a nós pela fé. Nesta ceia festiva e
espiritual, Cristo nos faz participar de si mesmo com todas as
suas riquezas e dons e deixa-nos usufruir tanto de si mesmo como
dos méritos de seu sofrimento e morte11. Ele alimenta,
fortalece e consola nossa pobre alma desolada pelo comer de seu
corpo, e a reanima e renova pelo beber de seu sangue.
Depois, embora os
sacramentos estejam unidos com a realidade da qual são um sinal,
nem todos recebem ambos12. O ímpio recebe, sim, o
sacramento, para sua condenação, mas não a verdade do sacramento,
como Judas e Simão, o Mago: ambos receberam o sacramento, mas não
a Cristo que por este é figurado13. Porque somente os
crentes participam dEle14.
Finalmente, recebemos
na congregação do povo de Deus15 este santo sacramento
com humildade e reverência. Assim comemoramos juntos, com açoes de
graça, a morte de Cristo, nosso Salvador, e fazemos confissão da
nossa fé e da religião cristã16. Por isto, ninguém deve
participar da ceia antes de ter-se examinado a si mesmo, da
maneira certa, para, enquanto comer e beber, não comer e beber
juízo para si (lCoríntios 11:28,29). Em resumo, somos movidos,
pelo uso deste santo sacramento, a um ardente amor para com Deus e
nosso próximo.
Por esta razão
rejeitamos como profanação dos sacramentos todos os acréscimos e
abomináveis invenções que o homem introduziu neles e misturou com
eles. E declaramos que se deve contentar com a ordenação que
Cristo e seus apóstolos nos ensinaram e falar sobre os sacramentos
conforme eles falaram.
1 Mt
26:26-28; Mc 14:22-24; Lc 22:19,20; 1Co 11:23-26. 2 Jo
3:5,6. 3 Jo 5:25. 4 Jo 6:48-51. 5
Jo 6:63; Jo 10:10b. 6 Jo 6:40,47. 7 Jo 6:55;
1Co 10:16. 8 Ef 3:17. 9 Jo 3:8. 10
Mc 16:19; At 3:21. 11 Rm 8:32; 1Co 10:3,4. 12
1Co 2:14. 13 Lc 22:21,22; At 8:13,21. 14 Jo
3:36. 15 At 2:42; At 20:7. 16 At 2:46; 1Co
11:26.
ARTIGO
36
O OFÍCIO DAS AUTORIDADES CIVIS
Cremos que nosso bom
Deus, por causa da per versidade do gênero humano, constituiu reis,
governos e autoridades1. Ele quer que o mundo seja
governado por leis e códigos2, para que a indisciplina
dos homens seja contida e tudo ocorra entre eles em boa ordem3.
Para este fim Ele forneceu às autoridades a espada para castigar
os maus e proteger os bons (Romanos 13:4).
Seu ofício não é
apenas cuidar da ordem pública e zelar por ela, mas também
proteger o santo ministério da igreja a fim de * promover o reino
de Jesus Cristo e a pregação da Palavra do Evangelho em todo lugar4,
para que Deus seja honrado e servido por todos, como Ele ordena na
sua Palavra.
Depois, cada um, em
qualquer posição que esteja, tem a obrigação de submeter-se às
autoridades, pagar impostos, render-lhes honra e respeito,
obedecer-lhes5 em tudo o que não contraria a Palavra de
Deus6, e orar em favor delas para que Deus as guie em
todos os seus caminhos, "para que vivamos vida tranqüila e mansa
com toda piedade e respeito" (lTimóteo 2:2).
Neste assunto
rejeitamos os anabatistas e outros revolucionários e em geral
todos os que se opõem às autoridades e aos magistrados, e querem
derrubar a ordem judicial7, introduzindo a comunhão de
bens, e que abalam os bons costumes que Deus estabeleceu entre as
pessoas.
1 Pv 8:15;
Dn 2:21; Jo 19:11; Rm 13:1. 2 Êx 18:20. 3 Dt
1:16; Dt 16:19; Jz 21:25; Sl 82; Jr 21:12; Jr 22:3; 1Pe 2:13,14.
4 Sl 2; Rm 13:4a; 1Tm 2:1-4. 5 Mt 17:27; Mt
22:21; Rm 13:7; Tt 3:1; 1Pe 2:17. 6 At 4:19; At 5:29.
7 2Pe 2:10; Jd :8.
* Originalmente o
texto incluía aqui as se guintes palavras: "...impedir e
exterminar toda idolatria e falso culto a Deus, destruir o reino
do anticristo e ...".
ARTIGO
37
O JUÍZO FINAL
Finalmente, cremos
conforme a palavra de Deus que, quando chegar o momento
determinado pelo Senhorl - o qual todas as criaturas
desconhecem -, e o número dos eleitos estiver completo2,
nosso Senhor Jesus Cristo virá do céu, corporal e visívelmente3,
assim como subiu ao céu (Atos 1:11), com grande glória e majestade4.
Ele se manifestará Juiz sobre vivos e mortos5, enquanto
porá em fogo e chamas este velho mundo para purificá-lo6.
Naquele momento
comparecerão perante este grande Juiz, pessoalmente, todas as
pessoas que viveram neste mundo7: homens, mulheres e
crianças, citados pela voz do arcanjo e pelo som da trombeta
divina (1Tessalonicenses 4:16). Porque todos os mortos
ressuscitarão da terra5 e as almas serão reunidas aos
seus próprios corpos em que viveram. E a respeito daqueles que
ainda estiverem vivos: eles não morrerão como os outros, mas serão
transformados num só momento. De corruptíveis se tornarão
incorruptíveis9.
Então, se abrirão os
livros e os mortos serão julgados (Apocalipse 20:12), segundo o
que tiverem feito neste mundo, seja o bem ou o mal10
(2Coríntios 5:10). Sim, "de toda palavra frívola que proferirem os
homens, dela darão conta" (Mateus 12:36), mesmo que o mundo a
considere apenas brincadeira e passatempo. Assim será trazido à
luz diante de todos o que os homens praticaram às escondidas,
inclusive sua hipocrisia.
Portanto, pensar
neste juízo e realmente horrível e pavoroso para os homens maus e
ímpios11, mas muito desejável e consolador para os
justos e eleitos. A salvação destes será totalmente completada e
eles receberão os frutos de seu penoso labor12. Sua
inocência será reconhecida por todos e eles presenciarão a
vingança terrível de Deus contra os ímpios, que os tiranizaram,
oprimiram e atormentaram neste mundol3. Os ímpios serão
levados a reconhecer sua culpa pelo testemunho da própria
consciência. Eles se tornarão imortais, mas somente para serem
atormentados no "fogo eterno14, preparado para o diabo
e seus anjos "15 (Mateus 25:41).
Os crentes e eleitos,
porém, serão coroados com glória e honra. O Filho de Deus
confessará seus nomes diante de Deus, seu Pai (Mateus 10:32), e
seus anjos eleitos16 e Deus "lhes enxugará dos olhos
toda lagrima"17 (Apocalipse 21:4). Assim ficará
manifesto que a causa deles, que agora por muitos juízes e
autoridades está sendo condenada como herética e ímpia, é a causa
do Filho de Deus. E, como recompensa gratuita, o Senhor os fará
possuir a glória que jamais poderia surgir no coração de um homem18.
Por isso, esperamos
este grande dia com grande anseio para usufruirmos plenamente das
promessas de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor.
1 Mt
24:36; Mt 25:13; 1Ts 5:1,2. 2 Hb 11. 39,40; Ap 6:11.
3 Ap 1:7. 4 Mt 24:30; Mt 25: 31. 5
Mt 25:31-46; 2Tm 4:1; 1Pe 4:5. 6 2Pe 3:10-13. 7
Dt 7:9-11; Ap 20:12,13. 8 Dn 12: 2; Jo 5:28,29. 9
1Co 15:51,52; Fp 3:20,21. 10 Hb 9:27; Ap 22:12. 11
Mt 11:22; Mt 23: 33; Rm 2:5,6; Hb 10:27; 2Pe 2:9; Jd :15; Ap
14:7a. 12 Lc 14:14; 2Ts 1:3-10; 1Jo 4:17. 13
Ap 15:4; Ap 18:20. 14 Mt 13:41,42; Mc 9:48; Lc
16:23-28; Ap 21:8. 15 Ap 20:10. 16 Ap 3:5.
17 Is 25:8; Ap 7:17. 18 Dn 12: 3; Mt 5:12;
Mt 13:43; 1Co 2:9; Ap 21:9-22:5.
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